MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964

MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964
Avião voa sobre a orla carioca em 31/03/2014, ostentando faixa com os seguintes dizeres: "PARABÉNS MILITARES - 31/MARÇO/64 - GRAÇAS A VOCÊS O BRASIL NÃO É CUBA". Clique na imagem acima para acessar MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964 - uma seleção de artigos sobre o tema.

terça-feira, 11 de abril de 2017

PCUS – A AUTORIDADE INCONDICIONAL DO PARTIDO

PCUS – A AUTORIDADE INCONDICIONAL DO PARTIDO

 Carlos I. S. Azambuja

“Pode ser verdade que ‘não se consegue enganar a todos o tempo todo’, mas é possível enganar a quantidade suficiente para dominar uma grande Nação” (Will Durant)                         

     Ninguém sabe até onde se estende a autoridade incondicional do Partido. Na era Jadnov-Stalin, este último resolvia as controvérsias relativas à hereditariedade, formulava a teoria da arte, envolvia-se em lingüística e definia a verdade quanto ao passado e ao futuro. Mas nunca a “verdade histórica” foi tão rebelde à interpretação literal. O nome de Trotski foi apagado dos anais da Revolução, e o criador do Exército Vermelho, retrospectivamente, um não ser.  

     Os dialéticos, responsáveis pela linguagem repetida pelos diversos alto-falantes da propaganda, fazem uma distinção entre a autêntica doutrina e as ideologias usadas para atrair ou conquistar essa ou aquela nacionalidade. A doutrina, como tal, reza que toda a religião é superstição, mas concede-se a liberdade de culto. No interior do país usa-se o bispo local para a paz, buscando um apoio das igrejas ortodoxas. A doutrina recusa o nacionalismo e prevê uma sociedade universal sem classes. quando se trata, porém, de derrotar a agressão hitlerista, apela-se para a lembrança de Alexander Nevski, ou até mesmo de Alexander Suvorov, exaltando-se as virtudes do povo da Grande Rússia. As conquistas do Exército Czarista, eram “imperialistas”, mas passaram a ser “progressistas”, tendo em vista a superioridade da civilização levada pelas tropas russas e o futuro revolucionário que se espera de Moscou. Essa missão única do povo da Grande Rússia, seria uma ideologia manipulada pelos psicotécnicos por motivação oportunista ou um elemento da doutrina? 

     Sem poder definir a ortodoxia, os fiéis se obrigam a uma estrita disciplina na maneira de falar, e provavelmente uma boa liberdade na maneira de pensar. Czeslaw Milosz analisou as motivações e os sistemas de justificativas dos intelectuais, cooptados ou hesitantes, nas democracias populares. Os intelectuais da Polônia e da então Alemanha Oriental têm experiência própria da realidade soviética. A escolha é se submeter, resistir sem esperança ou emigrar. Os intelectuais do Ocidente são livres.

     Motivos para a adesão e conteúdo da crença variam de pessoa a pessoa: a verdadeira comunidade entre os fiéis é a da igreja, não a do pensamento nem a dos sentimentos. Os verdadeiros comunistas admitem que o Partido Bolchevique Russo, e os partidos que o seguem, encarnam a causa do proletariado, que se confunde com o socialismo.  

     Tal ato de fé não exclui as mais diversas interpretações. Uns julgam que o Partido é o agente indispensável para a industrialização acelerada e definhará com a elevação do nível de vida; outros, que o socialismo está fadado a uma difusão universal e que o Ocidente será inevitavelmente conquistado ou convertido, não por ser moral e espiritualmente inferior, mas por estar historicamente condenado a isso. Uns consideram a acumulação socialista essencial e os delírios ideológicos, deplorável acompanhamento de uma obra que a razão ordena. Outros, pelo contrário, encaram a “logocracia” como anúncio de novos tempos: as sociedades mecanicistas, tendo perdido a fé em Deus, se unirão sob o jugo de uma teologia secular.

     Otimistas ou pessimistas, estimulados por uma expectativa infinita ou resignados a um destino inumano, todos esses fiéis se situam numa aventura que não está à altura do indivíduo, e da qual o Partido assume a responsabilidade. Não ignoram a existência dos campos de concentração e o controle da cultura, mas se negam a romper o juramento de aliança ao grande empreendimento. Que o homem, na história, tome, com relação à sua época, a distância que o passar do tempo garante ao historiador: se os nossos bisnetos se submeterão, talvez agradecidos, porque não imitar, desde já, a sabedoria dos nossos ascendentes? Entre o militante que recebe, ingenuamente, do Partido, a verdade diária, e aquele que conhece objetivamente o mundo, sem os véus da significação, existem tidos os graus intermediários.

     Inapreensível, essa ortodoxia nem por isso deixa de ser imperiosa e conquistadora. Ela faz crescer o prestígio das idéias marxistas pela força de um fato: o Partido é senhor do Estado Soviético e de um imenso império. Aqueles que evocam idéias, sem se inclinar perante o fato, vacilam na adesão, inclinados, ora a vituperar o fato em nome da idéia, ora a justificar o ato pela idéia. 

     O stalinista nem sabe exatamente em que acredita, mas firmemente acredita que o Partido Bolchevique ou o Comitê Executivo foi investido de uma missão histórica. Essa crença poderia parecer burlesca em 1903, estranha em 1917, e duvidosa em 1939. Desde então, foi consagrada pelo deus das batalhas.

     Qual outro Partido seria digno de encarnar a causa do proletariado mundial?   
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     O texto acima foi transcrito do livro O Ópio dos Intelectuais, escrito por Raymond Aron e publicado em 1955 – antes, portanto, da invasão da Hungria pelos tanques soviéticosRaymond Aron (1905-1983) foi um filósofo, professor e ideólogo francês. É autor de As Etapas do Pensamento Sociológico O Marxismo de Marx, entre outros livros.