MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964

MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964
Avião voa sobre a orla carioca em 31/03/2014, ostentando faixa com os seguintes dizeres: "PARABÉNS MILITARES - 31/MARÇO/64 - GRAÇAS A VOCÊS O BRASIL NÃO É CUBA". Clique na imagem acima para acessar MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964 - uma seleção de artigos sobre o tema.

quinta-feira, 27 de abril de 2017

A FILOSOFIA STALINISTA

A FILOSOFIA STALINISTA 


                                 

                                       Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net

                                          Por Carlos I. S. Azambuja
 
Não há vida interior, não há justiça divina, não há história sem revolução, nem revolução fora do proletariado armado pelo Partido. E não há Partido fora da direção stalinista (O Ópio dos Intelectuais – Raymond Aron)
 
     Na filosofia stalinista, o “Estado privilegiado”, ou ‘total” não se dissolve em um ideal, ele se degrada em um acontecimento prosaico. Para o ortodoxo, assim que um Partido Comunista toma o Poder a ruptura está feita, e entra-se na via da sociedade sem classes. No entanto, nada se resolve assim, e as mesmas necessidades de acumulação, de remuneração desigual, de incentivos ao esforço e de disciplina de trabalho subsistem depois da Revolução. Mas, para o ortodoxo, todas essas servidões d civilização industrial mudaram de sentido, pois o proletariado reina e o socialismo está sendo edificado.
     Ao confundir o ideal ou um episódio com um objetivo ao mesmo tempo próximo e sagrado, homens de igreja e homens de fé recusam, com indiferença ou desprezo, as regras da sabedoria que os homens de Estado elaboraram para tornar úteis à sociedade o egoísmo e as paixões dos indivíduos. Limitação dos poderes, equilíbrio das forças, garantias da justiça: com a serenidade dos sonâmbulos, eles abrem a obra da civilização política, lentamente construída ao longo da eras e sempre inacabada. Admitem um Estado absoluto, supostamente a sérvio da Revolução, e desinteressam-se da pluralidade dos partidos e da autonomia das organizações operárias. Não se sentem indignados quando advogados investem contra os seus próprios clientes, nem quando acusados confessam crimes imaginários. Não está a justiça revolucionária orientada para a “solução radical do problema da coexistência”, enquanto a “justiça liberal” aplica leis injustas?   
     Quem se move na história sem conhecimento da sua última palavra, às vezes hesita diante de uma iniciativa desejável, mas cujo curso seria elevado demais. Homens de Igreja e homens de fé ignoram tais escrúpulos. O fim sublime desculpa meios horríveis. Moralista contra o presente, o revolucionário é cínico na ação e se indigna contra as brutalidades policiais, as cadências inumanas de produção, a severidade dos tribunais burgueses, a execução de acusados cuja culpa não foi demonstrada a ponto de eliminar todas as dúvidas. Nada, além da “humanização” total pode acalmar sua sede de justiça. Mas, quando esse mesmo revolucionário decide aderir a um partido, tão implacável quanto ele, contra a desordem estabelecida, eis que, em nome da Revolução, tudo o que, até então, era incansavelmente denunciado, é perdoado. O mito revolucionário lança uma ponte entre a intransigência moral e o terrorismo.
     Nada mais banal do que esse jogo duplo do rigor e da indulgencia. Em nossa época, o idólatra da história é a sua encarnação, senão a sua origem intelectual. A pretexto de se atingir o sentido da História, são deixadas de lado as servidões do pensamento e da ação.
     A pluralidade dos sentidos que atribuímos a um ato, revela não a incapacidade, mas os limites do nosso saber e a complexidade do real. É explorando um mundo, por essência, equívoco, que se pode atingir a verdade. O conhecimento não é inacabado por nos faltar onisciência, mas por estar a riqueza de significações inscrita no objeto.
     A pluralidade dos valores aos quais devemos nos referir para julgar uma ordem social, não demanda uma escolha radical. Os costumes são deixados à pura diversidade. Para os ideais reivindica-se uma validade universal. Os sistemas econômicos e políticos se situam entre estes e aqueles. Não são indefinidamente variados como os costumes, nem subtraídos ao devir como os princípios de um direito humano. Eles impedem a aceitação do ceticismo anárquico – para o qual todas as sociedades são igualmente detestáveis, e cada pessoa, afinal, decide como bem entende – e condenam também a pretensão de ter a posse do segredo único da sociedade humana.
     Uma solução do “problema econômico” e do “problema político” é concebível por ser possível precisar os dados constantes de ambos. Mas essa constância não permite imaginar que possamos saltar de repente da ordem da necessidade para a de liberdade.
     O fim da História, segundo a religião revelada, pode resultar de uma conversão das almas ou de um Decreto de Deus. A abundância relativa ou absoluta, a pacificação das relações entre as coletividades, a submissão voluntária dos governados aos governantes, não escapam de uma definição. Confrontamos as realidades que se oferecem a nós com esse fim quando medimos a distancia entre o que é e o que deveria ser, graças a esse confronto, podemos escolher, racionalmente, mas à condição de nunca assimilar o objeto da nossa escolha histórica à idéia da solução radical.
     Essa idéia julga as ideologias, cínicas ou naturalistas, que vêem o homem como um animal e ensinam a tratá-lo como tal. Ela autoriza a condenação das instituições que, por si mesmas, negam a humanidade dos homens. Ela nunca permite que se diga qual deve ser, concretamente e em determinada época, a ordem social, e nem qual deve ser, em um determinado momento, o nosso engajamento.
     A historicidade essencial das escolhas políticas não se baseia nem na rejeição do direito natural, nem na oposição dos fatos e dos valores, nem no mútuo estranhamento das grandes civilizações, nem na impossibilidade de diálogo com quem recusa a discussão. Admitamos princípios de direito superiores no decorrer da História; afastemos do diálogo o interlocutor que só quer Poder e pouco se importa em ser pego em flagrante delito de contradição; ignoremos a alma singular das culturas incapazes de comunicação. A escolha política, mesmo assim, seria inseparável das circunstâncias específicas, seria eventualmente razoável, mas nunca poderia ser demonstrada, nunca seria da mesma natureza que as verdades científicas ou os imperativos morais.
     A impossibilidade de uma prova se deve às leis ingratas da existência social e à pluralidade de valores. É preciso incentivar o esforço para fazer crescer a produção e edificar um Poder para levar à cooperação os indivíduos discordantes; essas necessidades inelutáveis marcam a distância entre a história que vivemos e o fim da história que concebemos. Não que o trabalho e a obediência sejam, como tais, contrários ao destino humano, mas assim se tornam quando nascem da imposição. Ora, em sociedade nenhuma, em época nenhuma, a violência deixou de ter o seu papel. Nesse sentido, a política sempre foi o mal menor, e continuará sendo enquanto os homens continuarem a ser o que são.
     O que passa como otimismo é, no mais das vezes, o resultado de um erro intelectual. É lícito preferir racionalmente a planificação ao mercado; quem espera da planificação a abundância se engana quanto à eficácia dos funcionários públicos e aos recursos disponíveis. Não é absurdo preferir a autoridade de um partido único à lentidão das deliberações parlamentares: quem conta com a ditadura do proletariado para alcançar a liberdade se engana quanto às reações dos homens e subestima as conseqüências inevitáveis da concentração do Poder em poucas mãos. É possível transformar os escritores em engenheiros das almas e pôr os artistas a serviço da propaganda; quem se espana que os filósofos prisioneiros do materialismo dialético ou os romancistas sujeitados ao realismo socialista careçam de genialidade, se engana quanto à essência da criação. Nunca o sentido específico das grandes obras foi encomendado pelos chefes do Estado. Os idólatras da História multiplicam as devastações, não por ser animados por bons ou maus sentimentos, mas por terem idéias erradas.
     A realidade humana em devir tem uma estrutura, os atos se inserem nos conjuntos, os indivíduos são ligados a regimes e as idéias se organizam como doutrinas. Não se pode pressupor no comportamento ou no pensamento dos outros um significado arbitrariamente deduzido da nossa leitura dos acontecimentos. Nunca se diz a última palavra, e não se deve julgar os adversários como se a nossa causa representasse a verdade última.
     O conhecimento verdadeiro do passado nos remete ao dever da tolerância. A falsa filosofia da História dissemina o fanatismo.   
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        O texto acima é um dos capítulos do livro “O Ópio dos Intelectuais, escrito por Raymond Aron, filósofo e sociólogo francês, autor de “As Etapas do Pensamento Sociológico” e o “Marxismo de Marx”, entre outros livros.