MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964

MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964
Avião voa sobre a orla carioca em 31/03/2014, ostentando faixa com os seguintes dizeres: "PARABÉNS MILITARES - 31/MARÇO/64 - GRAÇAS A VOCÊS O BRASIL NÃO É CUBA". Clique na imagem acima para acessar MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964 - uma seleção de artigos sobre o tema.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

Antissemitismo em alta nos EUA

EDIÇÃO ESPECIAL FERIADÃO

ÂncoraNO CEMITÉRIO JUDAICO, PROCURANDO RESPOSTAS EM MEIO AO DESGOSTO
Por MONICA DAVEY e ALAN BLINDER
The New York Times -21 de fevereiro de 2017


Trabalhadores levantam lápidas caídas na terça-feira no cemitério Chesed Shel Emeth, em University City (Crédito: Nick Schnelle - The New York Times)
UNIVERSITY CITY, Missouri — Em silenciosos aglomerados, famílias esperaram num cemitério judaico centenário, aqui, na terça-feira. Alguns pedaços de papel descreviam onde parentes foram enterrados. Outros carregavam pequenos sacos de plástico cheios de pedras para deixar sobre os túmulos, uma tradição.
Eles vieram com uma única pergunta: será que o túmulo de um ente querido está entre os quase 200 que haviam sido vandalizados, aqui, durante o fim de semana?
"Você espera que não seja o ressurgimento de algo, de antissemitismo, mas eu não sei", disse Herschel Price, de 87 anos, de Creve Coeur (Missouri), enquanto caminhava em direção aos túmulos de sua mãe e de seu pai.
"Este é um terreno sagrado", disse sua esposa, Margie. "E tudo o que sinto agora é desgosto".
Os Price se uniram a dezenas de outros em uma busca frenética pelo cemitério Chesed Shel Emeth, a Oeste de St. Louis, enquanto tentavam saber se as sepulturas de seus parentes estavam intactas. Encontraram as lápides de sua família ilesas.
Funcionários do cemitério disseram que foram inundados por telefonemas, e-mails e visitas, na terça-feira, de famílias angustiadas. Mas quem telefonava também perguntava se o vandalismo, neste cemitério de 124 anos, pode ser mais um de uma série de episódios antissemitas ocorridos nas últimas semanas. Na terça-feira, o presidente Trump condenou os episódios, que alguns críticos apontaram como um produto das ásperas críticas da campanha presidencial do ano passado e do tom do Sr. Trump durante a mesma.
Desde o início do ano, pelo menos 53 centros comunitários judaicos em todo o país receberam ameaças de bomba, de acordo com a Associação JCC (Jewish Comunity Centers) da América do Norte. Mais de uma dúzia das facilidades, incluindo centros em Albuquerque; Baltimore; Birmingham (Alabama) Milwaukee e Wilmington (Delaware), relataram diversas ameaças. Além disso, chocantes grafites de suásticas foram relatados em alguns campi universitários e no metrô de Nova York.
"Embora estejamos aliviados por todas essas ameaças terem sido provadas como sendo embustes e porque nenhuma pessoa ficou ferida, estamos preocupados com o antissemitismo por detrás dessas ameaças e com a repetição de ameaças destinadas a interferir no dia a dia”, disse David Posner, o diretor de Desempenho Estratégico do Grupo JCC norte-americano, acrescentando que uma instalação no Canadá também tinha sido ameaçada.
Ron Glazer, de 61 anos, disse que o cemitério onde seus pais e avós foram enterrados era amplamente conhecido como um cemitério judeu e nunca, em sua memória, havia sido vandalizado.
"Você não espera isso num cemitério e, com tudo o que está acontecendo, você não pode deixar de pensar e se preocupar", disse ele. "Não posso acreditar que isso esteja acontecendo aqui e agora, mas está. E as pessoas precisam falar sobre isso".
As autoridades policiais, que não realizaram nenhuma detenção no caso de Missouri, disseram que não tinham nenhuma indicação de que o vandalismo era um crime de ódio e nenhum investigador sugeriu publicamente um vínculo entre isso e os outros episódios antissemitas. No entanto, muitas das famílias atraídas ao cemitério na terça-feira disseram que têm sentido um clima cada vez mais sinistro por trás do padrão das ameaças.
"Nunca experimentamos esse nível de antissemitismo – de diferentes lugares em campo, através do telefone, literalmente por telefone – num momento em que grupos de ódio e supremacistas brancos, em particular, sentem que têm um representante no mais alto cargo (do país)", disse Oren Segal, diretor do Centro de Extremismo da Liga Anti-Difamação.
A Agência Federal de Investigação (FBI) e a Divisão de Direitos Civis do Departamento de Justiça abriram um inquérito sobre as ameaças de bomba no mês passado e uma porta-voz do FBI disse, terça-feira, que o departamento estava "ciente do incidente em University City”.
"Se, no curso da investigação local, informações vierem à tona sobre uma possível violação de direitos civis em âmbito federal, o FBI está preparado para investigar", disse a porta-voz Rebecca Wu, por e-mail.
A polícia de University City, com uma população de cerca de 35 mil, disse que os investigadores estavam revendo vídeos de vigilância do episódio, que pode ter acontecido no Shabat, o sábado judaico (o cemitério está fechado aos sábados). Cercas envolvendo o cemitério e as portas são trancadas à noite.


Pessoas foram ao cemitério judaico para ver se os túmulos de seus entes queridos estavam entre os quase 200 vandalizados durante o fim de semana (Crédito: Nick Schnelle - The New York Times)
Embora a maioria dos crimes de ódio nos Estados Unidos estejam ligados a preconceitos de raça, etnia ou ascendência, as autoridades federais registraram 664 incidentes anti-judaicos em 2015, o ano mais recente do qual o FBI tem dados disponíveis. Trata-se de um aumento de cerca de 9% em relação ao ano anterior, mas o número de episódios permaneceu muito menor do que em alguns outros anos recentes, como 2010, quando autoridades federais relataram 887 incidentes anti-judaicos.
"Algo foi liberado durante um período que, eu diria, um par de anos", disse Segal. "Alguns casos são de pessoas literalmente se sentimento encorajadas pela retórica divisiva. Outra parte, francamente, é a capacidade das pessoas de assediar e criar medo com muito mais facilidade do que em qualquer outro momento da História humana".
As organizações judaicas têm consciência há muito tempo de riscos de segurança. De fato, a primeira das 18 melhores práticas de segurança recomendadas pela Liga Anti-Difamação é "fazer da segurança e da proteção partes da cultura de sua instituição, envolvendo pessoal, liderança e constituintes". Outra prática recomendada é desenvolver um plano de resposta a ameaças de bomba.
"A segurança é parte da cultura da comunidade judaica neste país e, francamente, em todo o mundo", disse Segal. "Você pode estar, ao mesmo tempo, preparado, indignado e preocupado."
Ainda assim, sinagogas, e não centros comunitários e cemitérios, têm sido vistas historicamente como as mais ameaçadas. Mark Potok, pesquisador sênior do Southern Poverty Law Center, que também acompanha a atividade antissemita, disse pensar que o recente assédio aos centros comunitários seria impulsionado pela percepção de que são os chamados “alvos fáceis”, especialmente em comparação com sinagogas.
"Esse tipo de coisa, como as ameaças de bomba, me parece ser algo de baderneiros em esteróides", disse Potok. "Não estão realmente explodindo nada, mas estão causando uma quantidade incrível de confusão e é possível fazê-lo anonimamente”.
Pesquisadores de extremismo dizem que um pequeno grupo de pessoas poderia estar por trás dos telefonemas e que é cedo demais para saber se o vandalismo em Missouri está diretamente ligado às ameaças de bomba.
Mas Potok adverte que a profanação do cemitério deve ser vista como alarmante.
"Meu palpite é que podem ser adolescentes entediados e extremamente desagradáveis, mas não é pura casualidade que seja num cemitério judeu", disse ele. "Eles podem não ser grandes e sérios antissemitas que negam o Holocausto e todo o resto, mas podem ser pequenos gangsters que são estimulados pela enorme quantidade de propaganda antissemita".
Aqui em Missouri, o governador Eric Greitens anunciou, na terça-feira, que ajudaria na limpeza do cemitério, na tarde de quarta-feira.
Embora a polícia tenha advertido contra ligar o vandalismo de University City a outros crimes, a destruição aqui teve grande ressonância como um símbolo do antissemitismo contemporâneo.
Em seu programa de televisão na rede Bravo, Andy Cohen observou que tinha parentes enterrados no cemitério. Falando durante seu programa, o Sr. Cohen acrescentou: "Mas não tenho que ter uma conexão pessoal para saber que isso não é quem nós somos como americanos e isso certamente não deveria ser para onde nós estamos indo."
O vandalismo, misturado com a onda mais ampla de atividade antissemita, é desmoralizante, disse Cohen.
"Isso não parece uma coincidência", disse ele. "Não podemos permitir que atos de ódio contra alguém se tornem normais".
Na tarde de terça-feira, trabalhadores do cemitério, alguns com mapas e elaborados arquivos de papel, realizavam uma busca meticulosa de cada túmulo para tentar descobrir quantas pedras tinham sido derrubadas e quantas foram seriamente danificadas. Algumas das lápides mais antigas do cemitério estavam na seção que foi vandalizada. Uma companhia de monumentos tinha chegado para ajudar a colocar algumas pedras que simplesmente tinham sido derrubadas. Outras, segundo as autoridades, exigirão reparos.
"Estamos trabalhando o mais rápido possível para obter uma lista completa, porque sabemos o quanto as pessoas precisam saber sobre suas famílias", disse Anita Feigenbaum, diretora executiva do cemitério. “Nós estamos checando fileira por fileira, pedra por pedra. Essas famílias precisam saber”.