MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964

MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964
Avião voa sobre a orla carioca em 31/03/2014, ostentando faixa com os seguintes dizeres: "PARABÉNS MILITARES - 31/MARÇO/64 - GRAÇAS A VOCÊS O BRASIL NÃO É CUBA". Clique na imagem acima para acessar MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964 - uma seleção de artigos sobre o tema.

terça-feira, 5 de abril de 2016

COMENTÁRIO GEOPOLÍTICO 241 de 06 de abril de 2016 - Coronel Gelio Fregapani


COMENTÁRIO GEOPOLÍTICO 241 de 06 de abril de 2016

Coronel Gelio Fregapani

Assuntos: Reservas cambiais, No País, Enquanto isto no mundo e Conclusões.

As reservas cambiais e o desenvolvimento.

Foi publicado que o nosso Pais dispõe de 380 bilhões de dólares em reservas cambiais. Os entreguistas se opõem a utilização das reservas como esse dinheiro não tivesse sido acumulado para utilizá-lo para tocar investimentos e nas horas difíceis. Para eles, as reservas servem apenas para dar credibilidade internacional e quando muito para garantir o pagamento dos juros da divida externa. Para o resgate da dívida, (mesmo parcial) nem pensar, pois isto significa matar a galinha dos ovos de ouro (dos credores, claro).
Certo, o ideal é utilizar os recursos disponíveis para alavancar investimentos que propiciem maior produção, empregos, renda, e consumo como ferrovias, estradas, portos, hidrelétricas, refinarias, poços de petróleo, silos para armazenamento agrícola e outras obras de infraestrutura priorizando a área de pesquisa, inclusive a de material bélico, sem a qual dificilmente há desenvolvimento.
Deixar esse dinheiro parado se assemelha ao mau general, que não emprega sua reserva nem para impulsionar uma fração que avança nem para socorrer  outra em dificuldade.  A forma mais burra é manter esse dinheiro eternamente parado, sem utilidade e até dando despesas. 
E quando não houver mais reservas e for indispensável recursos para progredir ou fazer face a uma calamidade? – Imprima-se!  A pior coisa a fazer é pedir emprestado. O dinheiro impresso  causa a mesma inflação que o dinheiro conseguido por empréstimo e se for empregado em um investimento que crie riquezas, compensará.

No País

Ninguém, nem mesmo o mais convicto petista, tem condições de defender com honestidade as corrupções do governo do PT. Também não seria possível  aprovar várias das irresponsáveis atitudes como a aceitação do roubo da refinaria da Petrobras pela Bolívia e das benesses para os outros países em detrimento das necessidades do próprio povo. Tendo um mínimo de inteligência até o petista mais roxo saberia que nenhum orçamento aguentaria um assistencialismo acima das posses. Desta forma não há como se opor ao término antecipado do mau governo do grupo petista, mas isto não exime da preocupação com o day after sendo certa a merecida derrubada da Dilma e quase certo a ascensão constitucional do Temer, é assustador o conteúdo entreguista do programa por ele apresentado. Se for tentada a implantação, estaremos um passo mais perto da guerra civil. 
Os políticos, na ânsia de conservar ou de tomar o poder se esquecem do interesse nacional, das manobras da cúpula financeira internacional para impor um governo mundial e destruir todo o nacionalismo e dos EUA para impedir o surgimento de um "Japão" ao sul deles. Não percebem, os políticos, que há uma guerra de 4ª Geração contra nossa Pátria e que esta guerra fatalmente nos encontrará desunidos, pois não poderemos estar juntos nem com o governo corrupto e esquerdizante nem com outro talvez menos corrupto, masmais entreguista.

 Enquanto isto, no mundo

Todos os países procuram manter reservas monetárias em dólares e isto faz com que os EUA possam imprimi-los sem saturar o mercado financeiro e eles o fazem através de um "banco central", -  o "Fed", que é uma associação de uma dúzia dos principais banqueiros do mundo. Chama-se Banco Federal, mas não é federal, nem sequer genuinamente nacional dos EUA mas é a única entidade que pode imprimir dólares e os "vender para o governo daquele país", parece incrível mas é verdade. Nota-se o poder que tem esse grupo financeiro, que usa a força militar dos EUA como seu elemento de manobra. Há suspeita até que teria sido o responsável pela morte dos presidentes que as contrariavam inclusive a de John Kennedy. 
Já há algum tempo que a manobra dos doze bancos que formam o "Fed" é conhecida pelos governantes das principais nações, mas o receio das consequências faz com que sejam evitadas ou adiadas as reações mais efetivas. O destino de Sadam e Kadafi é um recado claro e só o  Irã,com seu fanatismo, ousa desafiar ostensivamente. Entretanto, o maior perigo para o dólar  certamente será o BRICS, que comercializam entre si com as próprias moedas. Logicamente o Fed/EUA fará todo o possível para arrasar as economias da China, Índia, Rússia, Brasil e África do Sul.  Considerando a relativa insignificância desta última, o mais vulnerável é o nosso País  e uma desunião interna, ainda mais do que  facilitar a destruição da economia, pode por em risco apropria unidade nacional caso uma das facções aceite o auxílio estrangeiro, além da criar o ambiente propício a independência dos povos indígenas.

Conclusões

O BRICS – uma sigla/conceito temida pelo "stablishment" - tinha de ser o mais importante alvo das manobras do eixo Casa Branca-Wall Street  por muitas razões, entre elas: o plano de realizar comércio e negócios em suas próprias moedas, evitando o dólar norte-americano. Para o mundo trata-se de saber se o nosso País continuará no BRICS (fugindo do dólar) ou se vai permanecer no âmbito dessa moeda.

No âmbito da geopolítica global o apoio a um dos lados não chega a ser decisivo mas está em curso acirrada disputa econômico/diplomática.
Para a geopolítica nacional ambas as posições têm vantagens e desvantagens, mas apesar da confusão político – econômica em que estamos envolvidos poucos no nosso País, percebem a profundidade dos acontecimentos em gestação, que podem alterar o ritmo da vida do nosso País e até de todo o planeta.

A marcha da Guerra de 4ª Geração em curso tem pouco a ver com as tendências políticas de direita ou esquerda e mesmo os graves fatos das corrupções e das políticas governamentais de alguma forma servem de motivo para a disputa política local e de pretexto para uma disputa global, de caráter predominantemente financeiro.

Sobreviveremos a qualquer das alternativas. Só precisamos ficar alertas para impedir que uma desnacionalização desenfreada nos tire toda a possibilidade de agirmos com soberania em defesa dos interesses nacionais.

Que Deus nos ajude a nos manter unidos na tormenta que se aproxima.

Gelio Fregapani


ADENDO

Sob a Névoa da Conjuntura
(resumido)
por Mauricio Metri

Existem conjunturas nacionais em que se deflagram processos sociais complexos. Um de seus sintomas é a radicalização das posições e do debate político em geral, assim como a simplificação de questões relevantes. Essas conjunturas, no entanto, não se explicam somente pelas disputas entre os grupos internos envolvidos. Também não se esgotam pelas conspirações diárias do jogo político nacional, embora sejam estas um de seus elementos mais importantes.
Pode-se supor que perpassam, sobre essas conjunturas, dinâmicas mais profundas, que atuam de modo mais silencioso. Forças que, em geral, não são percebidas claramente no cotidiano, mas que podem balizar o “presente” e “energizar” os atores em luta. São forças de caráter mais perene, de movimentos lentos, depreendidas e ponderadas sobretudo quando analisadas com lentes de maior alcance, voltadas a espaços dilatados (tabuleiros internacionais) e a tempos mais longos (de décadas ou mesmo séculos).
Mas o que permite supor a existência de tais forças? Há alguns anos os governos Lula e Dilma implementaram algumas iniciativas estratégicas “não-convencionais” sobre temas sensíveis na área internacional (sobretudo defesa, petróleo e finanças), com desdobramentos complexos em tabuleiros maiores. Ademais, começaram a vir à tona algumas evidências de articulações internacionais de protagonistas internos.
s. Algumas não geraram os efeitos esperados, outras são incipientes, parte sofreu ajustes, embora algumas ocasionaram consequências não desprezíveis. Em geral, sobre temas sensíveis, quando algumas iniciativas são assumidas e efetivadas em algum grau, é o suficiente para gerar oposições e tentativas de veto de potências estrangeiras. São reações e comportamentos “naturais” ao sistema, decorrentes da própria crônica relação de insegurança e ameaça entre os estados, por conta da pressão competitiva e sistêmica que os impele "para frente", num “jogo” em que a projeção de um representa perdas de posições relativas para outros.

Geopolítica, Segurança e Defesa
Em 2005, inaugurou-se a Política Nacional de Defesa e, em 2008, a Estratégia Nacional de Defesa. Defesa e segurança são os temas mais delicados no campo das relações internacionais. Daí emanam suas principais hierarquias e suas mais importantes forças propulsoras. Mas, para a conjuntura política brasileira atual, qual a relevância dessa iniciativa? O significado está no seu antagonismo em relação à antiga geoestratégia estaduniendese para todo o Continente Americano.
Sua síntese foi elaborada por Nicholas Spykman em 1942. Para o geopolítico, a 1º linha de defesa dos EUA deveria ser deslocada do Continente para as bordas da Eurásia com objetivo de assegurar o equilíbrio de poder naquela região. A política externa deveria, assim, passar a ser balizada por parâmetros intervencionistas. Para as Américas, deveria ser bloqueada toda e qualquer tentativa, explícita ou não, de ascensão de uma potência regional ou de uma aliança de países que representasse, de algum modo, um questionamento à sua hegemonia regional.
Essa formulação não era propriamente uma novidade histórica. A Doutrina Monroe de 1823 identificava todo o Continente Americano como o perímetro de segurança dos EUA. Recuando ainda mais no tempo, é possível encontrar evidências dessa visão nos discursos dos “pais fundadores” da nação, a partir da idéia de que os Estados Unidos nasceram para ser o árbitro das relações políticas entre o velho mundo (a Europa) e o novo mundo (as Américas).
Em 1991, mesmo com a reformulação de sua doutrina de segurança, com o fim da Guerra Fria, os EUA não abandonaram suas preocupações com as Américas, pois, desde o governo de Bush (pai), passaram a se orientar por uma ativa atuação contra o aparecimento de potências regionais que pudessem concorrer com eles em qualquer região do mundo. A Política de Bush (filho), após os atentados de 2001, radicalizou e consolidou a idéia de ataques e ações preventivas onde se localizassem ameaças à segurança do país. Há, portanto, um antigo e quase perene entendimento geopolítico dos EUA para o Continente Americano.
Uma das novidades: Ao invés de priorizar o emprego de efetivos militares em confrontos diretos, tem-se valorizado cada vez mais a manipulação da opinião pública local, por meio do domínio da informação, baseado na utilização de propaganda e ações psicológicas destinadas ao controle social, político e militar, onde grupos locais descentralizados assumem o exercício de ações operacionais. Essa estratégia difundiu-se após os Atentados de 11 de setembro em nome do combate ao “terrorismo”. A troca do “inimigo” ou da “ameaça” a ser combatida não muda a dinâmica do jogo, terrorismo, narcotráfico, corrupção, ou o que convier. A ideia é confundir e manipular as populações locais sobre as fronteiras do que realmente está em disputa, municiar grupos locais responsáveis por operações, e realizar ações em nome de uma “causa” que permitam vitórias em outros campos e confrontos.
Na outra ponta dos antagonismos em sugestão, encontram-se os recém criados Plano e Estratégia Nacionais de Defesa do Brasil, que foram elaboradas com base no conceito de “entorno estratégico”, cuja ideia chave é irradiar sua influência e promover o desenvolvimento econômico e a segurança de sua região próxima (América do Sul, Atlântico Sul e Africa Ocidental), de modo a estabiliza-la e, sobretudo, de forma a evitar a presença de potências externas. Alterou-se estruturalmente a ênfase da agenda de segurança nacional. Em detrimento das ameaças internas (primeiro, comunismo; depois, terrorismo e narcotráfico) como pautado pelos EUA desde a 2º Guerra Mundial, priorizaram-se as ameaças externas (sobretudo de potências estrangeiras) e a busca por autonomia e controle de recursos naturais estratégicos (destaque para o pré-sal e a Amazônia).
Implementaram-se políticas para o desenvolvimento interno da base da indústria de defesa; a constituição de uma força dissuasória externa (como o caso do projeto de submarino nuclear); e a cooperação com os países da região, seja a integração econômica regional (como a reformulação do Mercosul), seja uma agenda de segurança regional (como a criação da Unasul).
Trata-se de iniciativas divergentes não só à tradição brasileira de alinhamento à potência hegemônica (a despeito de exceções históricas importantes), como também aos interesses geoestratégicos da principal potência do sistema.
Qual seria, então, a relação entre a geoestratégia estadunidense, a política nacional de defesa  e a atual conjuntura de crise no Brasil? . Foi um erro os contatos da Procuradoria Geral da República, em conjunto com integrantes equipe da operação Lava Jato, com o Departamento de Justiça dos Estados Unidos, quando foram passados informações secretas (frutos de espionagem) sobre o Programa Nuclear Brasileiro e a Petrobrás. As informações  (não as recebidas, mas as fornecidas) explodiram na área  Eletronuclear, depois de encontro com advogada do Departamento de Justiça ligada a escritório de advocacia que atende o segmento nuclear por lá.” (Ver:http://jornalggn.com.br/comment/863969).
Essas trocas de informações ocasionam a interrupção por ora do projeto de construção da Usina Nuclear de Angra 3, cuja importância transcende as necessidades de ampliação da capacidade de geração elétrica brasileira. Angra 3 cria uma demanda necessária por combustível nuclear, viabilizando o processo de enriquecimento de urânio pelas Indústrias Nucleares do Brasil (INB), que deverá atender também ao submarino ainda em construção. O Brasil é um seis países do mundo com domínio sobre esta tecnologia sensível, responsável por uma série de tensões internacionais graves. Ocasionou também a prisão do Almirante Othon Luiz Pinheiro da Silva, responsável pelo Programa de Desenvolvimento do Ciclo do Combustível Nuclear e da Propulsão Nuclear para Submarinos no país. Não cabe avaliar aqui o teor das denúncias, mas sim evidenciar o papel que estas ações acabam por cumprir em outros tabuleiros.

Petróleo
A partir da confirmação, em 2007, de expressivas reservas de petróleo de considerável qualidade na região do pré-sal brasileiro, o governo aprovou, em 2010, uma nova regulamentação das atividades nessa nova fronteira, colocando a Petrobrás ao centro do seu processo de exploração.
O petróleo constitui-se, desde a 1º Guerra Mundial, num dos mais importantes recursos estratégicos. “É o principal combustível das forças armadas e o centro da matriz de transporte em todo o mundo; e tem uso difundido e diversificado nas mais diferentes cadeias produtivas.”
Por ser um recurso escasso à maioria dos países, o petróleo adquiriu considerável importância nas relações internacionais. “É amplamente utilizado no 'jogo diplomático' como arma de pressão, retaliação, dissuasão, apoio ou sustentação, cujos cálculos, interesses e iniciativas respondem às disputas geopolíticas inerentes à competição interestatal.” (ibid.) Ademais, as receitas decorrentes de sua exportação possuem uso estratégico potencial para flexibilização das restrições à capacidade de importação de um país.
A nova legislação para o pré-sal que resguarda ao governo a possibilidade de entregar à Petrobrás, sem necessidade de leilão, áreas mais promissoras, “visando à preservação do interesse nacional e ao atendimento dos demais objetivos da política energética”potencializa a atuação da política externa brasileira, que, deveria estar voltada a uma inserção mais autônoma do país, priorizando o seu “entorno estratégico”. Há uma sinergia em potencial com força perturbadora nada desprezível quando se articulam as iniciativas de uma política externa independente e um controle mais efetivo do estado sobre reservas de petróleo, seja para a garantir a segurança energética do país ou de aliados, seja para utilizá-la como instrumento de suas relações com outras nações, seja também como fonte em potencial para se contornar, quando oportuno, o problema da escassez de divisas, via exportação de petróleo.
Desde os vazamentos de documentos da Agência de Segurança Nacional (NSA) dos EUA, em julho de 2013, pelo ex-técnico Snowden, tornou-se público que a Petrobrás há tempos é alvo de espionagem que acabaram por criar uma conjuntura que tem fragilizado a própria empresa para além do necessário à averiguação de responsabilidades por malversações, forçando-a a se desfazer de ativos estratégicos e comprometendo a cadeia produtiva ligada a ela. Produziu-se também o contexto político adequado para se iniciar o processo de revisão do marco regulatório de 2010, ora já aprovado no Senado e na pauta da Câmara dos Deputados. Em nome do n3cessário combate à corrupção, acaba-se por retirar do Estado brasileiro sua capacidade de iniciativa estratégica no setor, atendendo aos objetivos geopolíticos de outros países e de suas respectivas empresas nacionais.
Possíveis conexões entre interesses estratégicos estrangeiros foram bem observadas, mais uma vez, pelo jornalista Luis Nassif. “De repente, um juiz de 1º instância tem acesso a um enorme volume de informações sobre a Petrobras e divulga suas mazelas em vez de apenas as corrigir, causando um prejuízo que trancendem a necessária correção dos incontestáveis roubos da politicalha, onde se avultam ao dos membros do partido no poder e de seus aliados. (Ver:http://jornalggn.com.br/comment/863969).

Moeda e Finanças Internacionais
O Brasil, no âmbito dos BRICS, tem participado de iniciativas ousadas no que se refere ao ordenamento monetário internacional, outro tema sensível entre as grandes potências.
No final do Século XIX, a Inglaterra logrou um feito original até então: impôs sua moeda nacional como a de referência internacional. Depois de um processo histórico secular, seu coroamento ocorreu com término da Guerra Franco-Prussiana (1870-71), por meio do enquadramento da França e a adesão Alemanha de Bismark ao padrão libra-ouro em 1872.
Cada etapa da internacionalização da libra teve como resultado a alavancagem da capacidade de gasto do estado inglês. A demanda por ativos denominados em libra, sobretudo moeda e títulos da dívida pública inglesa, cresceu de modo desproporcional. Estes ativos foram transformados no principal instrumento de estabilização para as demais economias nacionais. Grosso modo, o acúmulo de reservas denominadas em libras permitia-os contornar os problemas nas contas externas, ao mesmo tempo em que ampliava a capacidade de endividamento do estado inglês. Não menos importante, o sistema passou a funcionar de modo estabilizador à economia inglesa e de forma instável às demais economias por conta da liberdade de movimentos dos capitais.
No entre-guerras, ocorreu uma disputa político-diplomática entre a Inglaterra e Estados Unidos sobre a moeda de referência internacional. Nas negociações de Bretton Woods, em 1944, os Estados Unidos garantiram para si o “privilégio exorbitante” de que gozavam os ingleses. Desde então, a diplomacia monetária dos Estados Unidos seguiu sendo orientada pela mesma estratégia: veto e oposição permanente a qualquer iniciativa de substituição do dólar como moeda de referência internacional, sobretudo nas instituições financeiras multilaterais (FMI e Banco Mundial) criadas em 1944; e “precificação” em dólar de mercadorias estratégicas globais (petróleo, sobretudo).
Ao longo da história do Banco Mundial e do FMI é possível observar uma certa coerência entre as modalidades e as exigências relativas às operações financeiras dessas instituições e a política externa dos países do centro, em especial a dos EUA, o que balizou a atuação dessas instituições aos objetivos estratégicos deste país.
Nesse contexto, chamam atenção as iniciativas dos BRICS no campo financeiro internacional, sobretudo no que se refere à criação de instituições semelhantes ao FMI e ao Banco Mundial, mas cujo controle será compartilhado por um conjunto de países que antagonizam com os EUA em outras áreas sensíveis. Envolvem dois dos principais rivais dos Estados Unidos no campo militar, Rússia e China; além de Índia, Brasil e África do Sul.
A criação do Arranjo de Contingência de Reservas (uma espécie de “FMI dos BRICS”) e o Novo Banco de Desenvolvimento (o “Banco dos BRICS”) permitirá aos países com dificuldades em seus Balanço de Pagamentos o endividamento em moeda estrangeira fora da alçada de influência e do controle das instituições consagradas nos Acordos de 1944. Em caso de sucesso e projeção global, essas instituições financeiras dos BRICS ganham potencial para, em outro momento, pressionarem a própria hierarquia monetária internacional atual, por meio da difusão do uso de uma moeda de referência diferente do dólar norte-americano.
O
Arrematando, não é com indiferença que potências estrangeiras analisam as iniciativas de projeção internacional do Brasil por meio de uma política externa autônoma e de uma política de defesa organizada com base em ameaças externas, articuladas a instrumentos militares assentados em energia nuclear, tendo por trás reservas expressivas de petróleo, garantidoras da segurança enérgica nacional, com potencial de uso enquanto instrumento de política externa e, também, como instrumento para reforçar, quando conveniente, as reservas internacionais em moeda estrangeira do país. Alguns dos alvos da operação lava jato constituem-se pilares deste conjunto de iniciativas. Sob a névoa das disputas políticas domésticas, as conexões estrangeiras estas operações ainda não estão claras, mas seus efeitos já se fazem sentir.
Mauricio Metri - Professor de Economia Política Internacional da UFRJ.
Fonte: http://jornalggn.com.br/noticia/sob-a-nevoa-da-conjuntura-por-mauricio-metri