MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964

MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964
Avião voa sobre a orla carioca em 31/03/2014, ostentando faixa com os seguintes dizeres: "PARABÉNS MILITARES - 31/MARÇO/64 - GRAÇAS A VOCÊS O BRASIL NÃO É CUBA". Clique na imagem acima para acessar MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964 - uma seleção de artigos sobre o tema.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

Osvaldão, o herói negro do Araguaia

O herói negro do Araguaia 

Documentário “Osvaldão” remonta trajetória de um dos comandantes mais emblemáticos da guerrilha brasileira

http://www.otempo.com.br/divers%C3%A3o/magazine/o-her%C3%B3i-negro-do-araguaia-1.1221164
A história da Guerrilha do Araguaia (1968-1974), que reuniu cerca de 80 pessoas no interior do país com a intenção de preparar uma insurgência comunista para combater a ditadura militar, demorou cerca de 20 anos para vir à tona. O assassinato de muitos dos seus integrantes privou a sociedade civil não só do conhecimento das atrocidades do aparato repressivo, mas também de personagens como Osvaldo Orlando da Costa.
Nascido em Passa Quatro, o guerrilheiro negro foi comandante de um dos três destacamentos que ocupavam a mata nos entornos do rio Araguaia, no norte do país. E é dessa história que se ocupa o documentário “Osvaldão”, que entra em cartaz na semana que vem.
Dirigido pelos paulistas Vandré Fernandes, Ana Petta, Fabio Bardella e André Michiles, do coletivo Gameleira, “Osvaldão” se vale de depoimentos, imagens de arquivo e reconstruções fictícias para traçar o percurso de uma das mais importantes figuras da Guerrilha do Araguaia.
Na adolescência, o negro de quase dois metros de altura foi para o Rio de Janeiro estudar na Escola Técnica Nacional. Na capital fluminense, se tornou campeão de boxe pelo Vasco e encabeçou um movimento de estudantes. De lá, Osvaldão partiu para a Tchecoslováquia, onde estudou engenharia, e, depois, partiu para a China, onde aprendeu técnicas de guerrilha. Retornou ao Brasil com a missão de preparar a insurreição comunista às beiras do Araguaia.
Discurso. O longa traz depoimentos de camponeses do Araguaia, ex-colegas de escola no Rio e em Passa Quatro, familiares e outros ideologicamente afinados com as intenções “subversivas” de Osvaldão. Por outro lado, há falas reveladores de quem estava do lado dos militares: um fazendeiro, um soldado envolvido na busca e captura dos guerrilheiros e um camponês que conhecia bem Osvaldão e, depois de capturado, foi utilizado para encontrá-lo.
“A gente também quis dar fala para quem estava do lado do Exército. Não ficar só do lado do Osvaldo”, conta Vandré Fernandes, um dos diretores. “Porém, é difícil construir esse discurso plural e criar esse paradoxo dentro do filme”, explica Fabio Bardella, que também dirigiu o filme. “As pessoas não falam muito sobre o Araguaia. É sempre difícil e muito delicado. Principalmente o Exército, porque eles sabem que são os vilões da história”, conclui.
Os problemas não ficaram restritos somente à impossibilidade de se conseguir “versões oficiais” vindas de autoridades. Na produção, os diretores descobriram que ainda perdura uma certa espiral do silêncio em locais que foram cenário da perseguição dos guerrilheiros.
“Quando a gente chegou em Palestina do Pará, tentamos fazer entrevista num ‘povo fala’, botamos as câmeras, os microfones, e quando falamos que era sobre o Osvaldo, a população deu uma desaparecida”, recorda Vandré. “A gente passava pela farmácia, pela padaria, pelo comércio, e não tinha ninguém. As pessoas, até hoje, ainda têm medo de uma repressão. Claro, o local ainda é muito vigiado. Isso é muito forte”, diz.
Mas “Osvaldão” também coloca em evidência o personagem enquanto negro – mesmo que ele não estivesse, diretamente, advogando em razão disso. “O Osvaldo era um ativista do movimento comunista”, diz Vandré. “Mas a gente achou que era importante dar esse destaque a um herói negro, porque, geralmente, na própria ditadura se fala pouco dos negros”. A partir disso, vieram os convites para Antonio Pitanga, Leci Brandão, Renegado e Criolo, que emprestam suas vozes ao filme.
O filme também explora o aspecto simbólico de Osvaldão, o coloca como uma espécie de mito – em contraste com outros personagens da resistência. “Ele poderia ser aquele cara muito moldado, certinho. Mas, não, ele frequentava terreiros, ia ao forró. Essa que é a riqueza do Osvaldo, que o diferencia muito de nomes como Lamarca, Marighella, que eram urbanos e tinham aquela determinação mais militar, mas o Osvaldo tinha essa coisa mais brasileira”, finaliza Vandré.

Obs.: A cinematografia nacional tem uma predileção especial para contar a história de bandidos: Lampião, O Bandido da Luz Vermelha, Lúcio Flávio, Pixote, Lamarca, Cidade de Deus, O que é isso companheiro?, Última Parada - 174, Olga e, agora, Osvaldão. O sonho do PCdoB de Osvaldão era transformar o Brasil num ditadura comunista, como a cubana ou norte-coreana. Um vagabundo desse quilate agora é alçado a "comandante", a herói nacional. Isso só ocorre porque vivemos numa República dos Bandidos (F. Maier).