MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964

MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964
Avião voa sobre a orla carioca em 31/03/2014, ostentando faixa com os seguintes dizeres: "PARABÉNS MILITARES - 31/MARÇO/64 - GRAÇAS A VOCÊS O BRASIL NÃO É CUBA". Clique na imagem acima para acessar MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964 - uma seleção de artigos sobre o tema.

domingo, 13 de dezembro de 2015

UFRJ revoga título de Médici e avalia concedê-lo a estudante morto na ditadura

UFRJ revoga título de Médici e avalia concedê-lo a estudante morto na ditadura
  • 10/12/2015 18h35
  • Rio de Janeiro
Isabela Vieira - Repórter da Agência Brasil*
O ex-presidente Médici, em visita às obras da Ponte Rio-Niterói
Arquivo Nacional

A Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) revogou hoje (10) o título honorário concedido a Emilio Garrastazu Médici, no período em que foi presidente do Brasil (1969-1974), durante a ditadura militar. Sob aplausos, a decisão foi aprovada pelo Conselho Universitário na data em que se comemora o Dia Internacional da Declaração dos Direitos Humanos.
A revogação do título de Médici contou com apoio dos estudantes, que fizeram um ato, pintando suas roupas e rostos de vermelho e preto, para lembrar os assassinatos e desaparecimentos de pessoas ligadas à universidade. Entre eles, está o do estudante de engenharia Mário Prata, que dá nome ao Diretório Central do Estudantes; de Stuart Angel, da faculdade de economia, e do professor Lincoln Bicalho Roque, do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da universidade. 
Segundo a relatora do processo na Comissão de Memória e Verdade na UFRJ, a professora Lilia Pougy, pelo menos 26 alunos ou professores morreram ou desapareceram somente sob a gestão de Médici.
"Nesta lista comparecem 20 homens e seis mulheres de variadas unidades acadêmicas e centros universitários de diferentes áreas que perderam a vida em razão do seu engajamento político na transformação da sociedade", afirmou Lilia. "[Eles] ousaram defender a democracia, a cidadania reagindo contra o árbitro do governo militar", completou.
Saiba Mais
Médici havia recebido o título honorário da UFRJ em 1972, quando ainda era presidente da República. No mesmo período, um ginásio da faculdade de educação física, sob a gestão da nadadora Maria Lenk, foi batizado com o nome do general. A homenagem também foi retirada esta semana.
A universidade decidiu também avaliar a concessão de título honorário ao estudante Mário Prata, morto quando tinha 26 anos. A Comissão de Emissão de Títulos da instituição elaborará, nos próximos meses, um dossiê sobre o jovem estudante, na época militante do Movimento Revolucionário 8 de outubro (MR-8). Mário Prata foi morto após interrogatório, sob tortura, junto com a companheira, Marilena Pinto.
De acordo com o reitor Roberto Leher, as decisões demonstram coragem da universidade em recontar sua história. Segundo ele, o país ainda sofre reflexos da ditadura, como a desigualdade social e a violência policial e militar “fora de qualquer padrão civilizatório”, além da ameaça da volta de ideologias fascistas, que preocupam em todo o mundo.
“Quando setores no Brasil reivindicam a volta do regime militar, supondo que este foi um período de crescimento econômico e integração social, estão propagando uma ideologia vazia de lastro histórico. [A ditadura] foi um período marcado por forte arrocho salarial, imensa violência e regressão social. O país não pode esquecer o que aconteceu”, afirmou Leher.
Durante discurso emocionado no conselho, o professor Carlos Vainer, que foi um dos alunos da UFRJ perseguidos na ditadura, disse que a revogação do título de Médici não anula a “herança perversa” da ditadura, mas concede reparação moral às vítimas.
“As lágrimas derramadas pelos jovens torturados, desaparecidos e mortos nos ajudam a limpar esse panteão [da universidade]. Não somos capazes de fazer o que seria mais justo, fazer com quem voltassem à vida e ao convívio de seus colegas companheiros, amigos e familiares. Mas hoje eles estão sendo celebrados por nós, como os melhores representantes de nossa instituição em vez daquele general ou aqueles que lhe concederam o título honorífico”, disse.
“Conheci, convivi, fui amigo de muitos deles e delas e posso testemunhar: eram os mais lindos, os mais aguerridos, os mais inteligentes, os mais brilhantes e os mais dignos. Sua resistência e martírio encheram nossa universidade de dignidade acadêmica e fez deles os verdadeiros merecedores do título que acabou sendo entregue a outro”, desabafou o professor.
* Texto atualizado às 18h35 para acréscimo de informações
Edição: Talita Cavalcante e Carolina Pimentel

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Saiba quem foi o "estudante" (terrorista) a quem o reitor da UFRJ quer dar título concedido ao Presidente Médici:

16/07 - Memórias Reveladas - O que falta no Arquivo Nacional
 -MR-8
- Capítulo VIII
- Matéria editada pelo site www.averdadesufocada.com
Atendendo ao pedido do Banco de Dados Memórias Reveladas,  "que  foi institucionalizado pela Casa Civil da Presidência da República e implantado no Arquivo Nacional com a finalidade de reunir informações sobre os fatos da história política recente do País", estamos contribuíndo com mais um capítulo da história do Movimento Revolucionário - 8 de Outubro - MR-8 -, organização a qual pertenceu o Ministro das Comunicações Sociais, Franklin Martins. 


O Assassinato do Major José Júlio Toja Martinez Filho
Os meses de agosto e setembro de 1971  foram trágicos para o MR-8. Vários militantes de importância foram  presos, inclusive César  Queiroz Benjamin, o "Menininho". Além disso, os componentes da organização foram seriamente abalados  pela morte de Lamarca, sem que  tivesse participado de nenhuma ação  do MR-8. Apesar de tudo,  o Movimento Revolucionário Oito de Outubro precisava sobreviver e dar continuidade a seus assaltos. Suas vitimas principais,  bancos, transportadoras de valores e principalmente, os supermercados da Guanabara.
 Foram as seguintes as ações armadas realizadas na Guanabara:
- em 14 de agosto,  2º assalto ao supermercado Peg-Pag, em Botafogo, roubando cerca de 35 mil cruzeiros novos;
- em 28 de agosto, 13 mIlitantes, disfarçados com perucas, bigodes, cavanhaques e boinas, levaram quase 45 mil cruzeiros novos e um revólver do supermercado  Disco, em Copacalbana;
- em 04 de setembro, nesse mesmo bairro, roubaram 7 mil  cruzeiros novos do supermercado  Merci;
- ainda em setembro,  roubaram 15 mil cruzeiros novos do Edifício De Paoli, na Av. Rio Branco, e ações de uma corretora de valores, na Rua do Ouvidor;
- em 16 de oultubro, assaltarm o supermercado Mar  e Terra, no Flamengo, de onde levaram 70 mil cruzeiros novos;
-  em novembro; roubaram 8 mil cruzeiros novos do supermercado Peg-Pag, em Botafogo.
- em 28 de outubro, em "frente" com o PCBR,  a ALN e a VAR-Palmares, Sérgio Landulfo Furtado, Norma Sá Pereira e Paulo Roberto Jabour assaltaram o Banco Itaú-América, na Tijuca, arrecadando mais de cem mil cruzeiros novos. Nessa açâo, foi baleado, no pescoço, o detetive Walter Cláudio Ramos Mattos.
- na manhã de 22 de novembro de 1971, em "frente" com a VAR -Palmares, Sérgio Landulfo Furtado, Norma Sá Pereira, Nelson Rodrigues Filho, Paulo Roberto Jabour, Thimothy William, Watkin Ross e Paulo Costa Ribeiro Bastos assaltaram um carro-forte da firma Transport, na Estrada do Portela, em Madureira. À rajadas de metralhadora, morreu o guarda José do Amaral Vilela e foram feridos os guardas Sérgio da Silva Taranto, Emílio Pereira e Adilson Caetano da Silva. Esse último assaI to do ano rendeu duzentos e sessenta e dois mil cruzeiros novos, além de armas e munição.
No dia seguinte, Sérgio Landulfo Furtado, por estar  em atitude suspeita e portar um revólver calibre .38 e um carregador de metralhadora, foi abordado pelo detetive Ney de Gaspar Gonçalves. Sérgio baleou o policial e, ao fugir, deixou cair objetos, dentre os quais sua própria fotografia, como atestado de sua ação.
A morte de Lamarca parece que ao mesmo tempo que acirrava os ânimos dos militantes, incitando-os a mais ações, fazia com que os quadros do  MR-8  repensassem sobre a justeza da guerra que travavam, vista, apenas, como uma luta "pela sobrevivência". Por outro lado, perceberam que, com a eficiência demonstrada pelos órgãos de segurança, essa sobrevivência não seria muito longa.
Carlos Alberto Vieira Muniz fugiu para o Chile, acompanhado, uns antes, outros depois, por diversos quadros, dentre os quais o casal Roberto Menkes e Carmen Monteiro Jacomini. Se o MR-8 do Brasil perdia quadros importantes, a Seção do Exterior, centrada no Chile, ganhava uma visão crItica do  militarismo, que lançaria a organização, no ano seguinte, num novo processo.
O Assassinato do Major José Júlio Toja Martinez Filho
No início de abril, a Brigada Pára-quedista recebeu uma denúncia de que um casal de subversivos ocupara uma casa localizada na Rua Niquelândia, 23, em Campo Grande/RJ. Não desejando passar esse informe à 2ª Seção do então l Exército, sem aprofundá-lo, a 2ª Seção da Brigada decidiu montar uma "campana" naquela casa, a fim de confirmar ou nao sua utilização como "aparelho".
No dia 2 de abril, uma equipe da 2ª Seção chefiada pelo Major Martinez, montou um esquema de vigilância  sobre a citada residência. O Major José Júlio Toja Martinez Filho acabara de concluir o curso da Escola de Cornando e Estado-Maior do Exército, onde por três anos, exatamente o períiodo em que a guerra revolucionária se desenvolvera, estivera afastado desses problemas, em função da própria vida escolar bastante intensa. Estagiário na Brigada Pára-quedista, a quem.também não estava afeta a missão de combate à subversão, não se havia habituado à virulência da ação terrorista, que se tornava a cada dia mais violenta à medida que constatava a sua inconseqüência.
Por volta das 23 horas desse dia, chegou em um táxi um casal, estacionando-o nas proximidades do prédio vigiado. A mulher ostentava uma volumosa barriga que indicava estar em adiantado estado de gravidez. O fato sensibilizou Martinez, que, impelido por seu  sentimento  de responsabilidade para com os transeuntes, agiu impulsivamente visando a  preservar a "senhora" de possíveis riscos.
Julgando que o casal nada tinha a ver com a subversão, Martinez iniciou a travessia da rua, a fim de solicitar-lhe que se afastasse daquela área. Ato continuo, de sua "barriga", formada por uma cesta para pão com uma abertura para saque da arma ali escondida, a mulher retirou um revólver, rnatando-o instantaneamente, sem qualquer chance de reação. O Capitão Parreira, de sua equipe, ao sair em sua defesa, foi gravemente ferido por um tiro desferido pelo terrorista que acompanhava a mulher. Nesse momento, os demais agentes desencadearam cerrado tiroteio que causou a morte do casal de subversivos. Estes vieram a ser identificados como sendo os militantes do MR-8 Mário de Souza Prata e sua amante Marilena Villas-Bôas Pinto, ambos de alta periculosidade e responsáveis por uma extensa lista de atos terroristas. No "aparelho" do casal· foram encontrados armas, munição e explosivos, além de dezenas de levantamentos de bancos, de supermercados, de diplomatas estrangeiros e de generais do Exército.
Destino perverso esse que compensou com uma reação de ódio e violência o gesto de bondade tão caracteristica do "Zazá", como Martinez era carinhosamente chamado  por seus amigos. Martinez deixou viúva e quatro filhos, três meninas e um menino, a mais velha, à epoca, com 11 anos de idade. Sua esposa, com uma pequena pensão, criou com sacrificios aquelas crianças. Com o apoio de familiares e amigos, suplantou a dor, os traumas decorrentes da morte violenta e inesperada e as dificuidades resultantes da ausência do chefe de famIiia.
A familia de Martinez nao pediu, nem vê razao em homenagens. Apenas quer guardar a lembrança do esposo dedicado e pai carinhoso que ele foi. Profissional competente, dedicado e leaI, atleta exemplar, amigo afável e educado, "Zazá", com seu gênio expansivo e alegre, será sempre lembrado com muito carinho pelos amigos que com ele conviveram.
 Homenagens póstumas
Numa homenagem  muito especial aos "heróis", "que resolveram, em sua inexperiência infantil, enfrentar o monstro de sete cabeças da Ditadura Militar de frente, de peito aberto, munidos de potentes... estilingues" ( frase dita em pronunciamento perante à Comissão de indenização) -, hoje Marilena Villas-Bôas Pinto dá seu nome ao DCE da Universidade  Santa Úrsula e Mario de Souza Prata ao DCE da Universidade Federal do Rio de Janeiro.
 Ao contrário da família do major Toja Martinez , que não recebe do governo homenagens, nem de  Diretórios Acadêmicos , as famílias de Marilena Villas - Bôas e Mario de Souza Prata foram indenizadas  e,  frequentemente, têm o consolo de verem seus familiares serem tratados como verdadeiros heróis por membros do governo ou por membros de Comissões designadas por ele, onde a maioria de seus componentes são ex-militantes da luta armada.
Vejamos o despacho de Suzana Keniger Lisbôa em favor da indenização da família de Mario de Souza Prata  pela sua  morte:


Voto pela inclusão do nome de Mario de Souza Prata dentre as vítimas fatais da ditadura militar, por entender que esta é uma reparação moral indispensável para resgatar tanto a sua memória, quanto a dignidade nacional. Reconhecer a responsabilidade do Estado no seu assassinato é um ato do presente voltado para o futuro, representando o mais vivo repúdio à violência, ilegalidades e torturas praticadas pelo Estado durante a vigência da ditadura militar. Nesta semana em que se comemoram os 25 anos da anistia parcial e restrita da ditadura militar, a nossa homenagem a Mário de Souza Prata, guerrilheiro assassinado na luta pela liberdade. 

Suzana Keniger Lisbôa

Relatora

Comissão Especial - Lei 10.875/04

Em 26 de agosto de 2004
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