MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964

MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964
Avião voa sobre a orla carioca em 31/03/2014, ostentando faixa com os seguintes dizeres: "PARABÉNS MILITARES - 31/MARÇO/64 - GRAÇAS A VOCÊS O BRASIL NÃO É CUBA". Clique na imagem acima para acessar MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964 - uma seleção de artigos sobre o tema.

terça-feira, 10 de novembro de 2015

Resgate à meia-noite

VOCÊ CONHECE ESTA HISTÓRIA?
Resgate à meia-noite

Patrícia Melo
 
História contada por Efraim Halevy, ex-diretor do Mossad e figura-chave no Tratado de Paz entre Israel e a Jordânia
 
Participei recentemente de um evento cultural na Áustria onde estava presente o advogado israelense Efraim Halevy, uma figura central na política israelense das últimas décadas. Além de dirigir o Mossad (o legendário Serviço Secreto de Inteligência de Israel) no período entre 1988 a 2002, Halevy foi diretor do Conselho de Segurança de Israel, e também embaixador de Israel junto à Comunidade Europeia. 

Sua rica biografia – sua participação nas negociações que levaram ao Tratado de Paz entre Israel e Jordânia foi fundamental – contrasta com a figura modesta e reservada que circulava pelo hotel. Ouvi dele a história que conto a seguir.
 
Na década de 1980, o Mossad foi incumbido de resgatar judeus etíopes que sofriam toda sorte de abusos e privações no Sudão por conta da ditadura islâmica. Na época, Israel não tinha relação com aquele país, e o grande número de pessoas a serem resgatadas não permitia que a ação fosse rápida.  A operação exigia entradas clandestinas contínuas no território sudanês, com pistas de pouso e pontos de embarque na costa sudanesa para os aviões e navios que levariam os judeus até Israel.
 
Estudando a situação, Halevy e sua equipe descobriram numa região do Egito conhecida pela beleza de seus corais, a 80 quilômetros da costa do Sudão, uma antiga vila de mergulho desativada. O plano foi então elaborado. O governo israelense, usando o nome de uma empresa estrangeira, comprou o resort abandonado e o reestruturou, num tempo recorde, transformando-o num hotel cinco estrelas para amantes de mergulho.Para resolver o sério problema local de abastecimento de água, Israel enviou para o resort equipamentos de dessanilização que passaram a servir também à comunidade. Assim, enquanto aquela área se transformava no local mais irrigado da região, o hotel se tornava uma coqueluche de verão.
 
Uma equipe com chefs de cozinha, patisseurs, garçons, camareiras, porteiros, instrutores de mergulho, eletricistas, jardineiros e diversos profissionais ultraqualificados (poliglotas e sem nenhum sotaque, segundo Halevy) atendiam milionários, artistas, políticos, esportistas e figuras do jet set internacional que se hospedavam ali para ver de perto os corais mais lindos do mundo.

 Com passaportes falsos, eles tinham jornada dupla: de dia serviam os turistas e ao cair da noite cruzavam a fronteira do Sudão em caminhões camuflados, sabendo que se fossem pegos jamais retornariam para casa. 
 
A operação durou quatro anos. 

Noite após noite, dezenas de crianças, jovens, idosos, homens e mulheres eram resgatados e levados até aviões ou navios que os esperavam em pistas e pontos de embarque improvisados.
 
Um dia, Halevy recebeu a informação de que a operação havia sido descoberta e que seu pessoal tinha somente quatro horas de estadia segura no resort. Foi o tempo necessário para que Israel enviasse as aeronaves para o local. Nessa noite, todos os profissionais que trabalharam na operação voltaram para casa. Os equipamentos do resort foram abandonados. Mas o saldo final foi um sucesso: 12 mil judeus etíopes foram resgatados e puderam recomeçar uma nova vida em Israel.

Quando é que alguém vai contar essa história para o Spielberg?

Patrícia Melo é escritora