MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964

MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964
Avião voa sobre a orla carioca em 31/03/2014, ostentando faixa com os seguintes dizeres: "PARABÉNS MILITARES - 31/MARÇO/64 - GRAÇAS A VOCÊS O BRASIL NÃO É CUBA". Clique na imagem acima para acessar MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964 - uma seleção de artigos sobre o tema.

sexta-feira, 23 de outubro de 2015

Conflitos e fricções geopolíticas globais

Conflitos e fricções geopolíticas globais


Manuel Cambeses Júnior

Polemólogos-estrategos, estudiosos em tendências político-militares, e especialistas em fricções geopolíticas apostam que, no transcorrer do ano em curso e provavelmente nos anos subsequentes, continuarão ocorrendo conflitos armados na África, na Europa e, principalmente, no Oriente Médio.

O continente europeu continuará sendo palco de controvérsias e confrontações. A crise que envolve a Ucrânia atingirá seu zênite com grande possibilidade de continuar persistindo. Em contrapartida, a pressão desencadeada pelo Ocidente no sentido de expandir a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) às fronteiras da Rússia certamente ocorrerá com maior ênfase.

Vislumbra-se, claramente, no tabuleiro do poder mundial, o notório interesse norte-americano no sentido de evitar que a Rússia se erija como potência hegemônica na Eurásia (incluindo a Armênia, o Cazaquistão, o Quirguistão e a Bielorrussia), riquíssima em petróleo e possuidora de vários recursos naturais.

Como contraponto, por sua parte, a Rússia insistirá freneticamente em seu objetivo de contar com um amplo espaço territorial, além de suas fronteiras, que lhe sirva de escudo protetor frente ao Ocidente. Obviamente não se trata de uma reedição dos tempos da Guerra Fria, porém a cooperação entre a Rússia e o Ocidente, particularmente com os Estados Unidos, paulatinamente vem se esfriando. Como decorrência natural, lamentavelmente, isto tenderá a afetar os programas conjuntos de redução de armas nucleares, carreando sérios prejuízos ao desejável equilíbrio do poder mundial.

O continente africano continuará sendo foco de graves conflitos internos. A Líbia se apresenta dividida em dois grupos radicais, cada um com seu governo e suas forças militares. Acrescente-se a esse complicado cenário a existência de variados grupos de milícias, dotadas das mais diversas inclinações ideológicas e sectárias que competem ferozmente entre si na disputa por território e poder. Consequentemente, o Estado se encontra completamente desintegrado e, em que pesem os esforços no sentido de redigir uma nova constituição, provavelmente será muito difícil, neste momento, fazê-la valer.

Faz-se mister ressaltar que o que vem ocorrendo na Líbia certamente afetará os países vizinhos. O grupo terrorista Al Qaeda que opera na região do Magreb Islâmico, que se formou utilizando substancial armamento obtido após a queda do ditador Muammar Kaddafi, em 2011, prossegue tendo uma forte influência na região norte da República do Mali.

O Boko Haram, outro grupo radical que luta para impor a Sharia (lei islâmica) em toda a Nigéria, repotenciou seu arsenal bélico com o derrocamento do líder líbio Kaddafi, tem expandido significativamente sua presença e, na atualidade, também aterroriza as populações do Chade e de Camarões. Por sua vez, o grupo Al-Shabab, uma ramificação da Al-Qaeda fundada em 2006, vem impondo uma versão radical do Islã na Somália, implementando uma sangrenta batalha contra o frágil Estado somali.

A República do Sudão do Sul, um país que adquiriu sua independência do Sudão somente em 2011, encontra-se envolvida em uma terrível guerra civil entre dois rivais políticos, com sequelas desastrosas para o futuro do país. De modo análogo, a República Centro-Africana está sendo dilacerada pelo sangrento conflito inter-religioso que envolve cristãos e muçulmanos.

A guerra que ocorre na República Democrática do Congo é a mais sangrenta da história africana, com aproximadamente 5 milhões de mortos, além de milhões de refugiados e deslocados internos. O que lamentavelmente vem ocorrendo nesses países africanos causa estupefação e imensa preocupação à Organização das Nações Unidas e entidades congêneres, voltadas para a conquista e manutenção da paz mundial.

O Oriente Médio com toda certeza seguirá sendo palco de inúmeros conflitos e frequentes fricções geopolíticas no transcorrer dos próximos anos. A situação do Yemen, ao Sul da Arábia Saudita) nos passa a imagem de estar se deteriorando aceleradamente. O grupo Al-Qaeda tem presença ativa e protagonista de várias ações no país há vários anos, porém o grupo xiita Houthis surge como a principal ameaça ao governo central. Eles alegam não se sentir representados pela Assembleia Constituinte que redige uma nova Constituição e cada vez mais propõem maior influência utilizando a via armada. O movimento secessionista do sul do país aproveita as circunstâncias para também avançar por sua causa.

Na Síria e no Iraque assistimos, estupefatos, a consolidação do Estado Islâmico, cujo líder, Abu Bakr al-Bagdadi, se autoproclama califa, ou seja, um sucessor do profeta Maomé. Isto lhe confere o título de autoridade máxima nas esferas política, militar e religiosa de todos os muçulmanos no mundo.

O interminável conflito palestino-israelense deverá se prolongar por mais alguns anos devido ao fato de o atual Governo de Israel, capitaneado pelo primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, inclinar-se para os postulados da direita radical, sendo frontalmente contrário à criação do Estado Palestino. Desta maneira, não vislumbramos qualquer possibilidade de negociação entre as partes, a curto e médio prazos.

Diante deste cenário mundial nada promissor, concluímos que, lamentavelmente, os conflitos e fricções geopolíticas seguirão presentes, em várias regiões do planeta, por mais alguns anos.

Manuel Cambeses Júnior é Coronel-aviador, membro emérito do Instituto de Geografia e História Militar do Brasil e membro da Academia de História Militar Terrestre do Brasil.