MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964

MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964
Avião voa sobre a orla carioca em 31/03/2014, ostentando faixa com os seguintes dizeres: "PARABÉNS MILITARES - 31/MARÇO/64 - GRAÇAS A VOCÊS O BRASIL NÃO É CUBA". Clique na imagem acima para acessar MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964 - uma seleção de artigos sobre o tema.

sábado, 12 de setembro de 2015

O heroísmo da FEB

Para seu conhecimento e divulgação, cópia  do artigo intitulado O HEROÍSMO DA FEB, publicado ontem [11/09/2015] e que foi produzido  pelo CCOMSEX, a fim de fazer um contraponto ao artigo anteriormente publicado no mesmo jornal, com o título TRISTE FEB, da lavra do cineasta Sylvio Back.
Fraterno abraço
Malta
[general Pedro Fernando Malta]

Descrição: http://tropasearmas.xpg.uol.com.br/brasil_FEB_cobra.jpg

O heroísmo da FEB

Esses soldados, autênticos representantes da gente brasileira, combateram em terreno montanhoso, favorável ao defensor

POR OTÁVIO SANTANA DO REGO BARROS
11/09/2015 0:00 / ATUALIZADO 11/09/2015 3:03

Em 1940, o Brasil não estava preparado para uma guerra. Após o rompimento de relações diplomáticas e diante do trágico torpedeamento de navios mercantes nacionais e da morte de mais de 2.500 irmãos, vitimados por submarinos nazifascistas, tornaram-se necessárias medidas mais drásticas do governo brasileiro. Impôs-se a declaração formal de guerra aos países do Eixo e, como consequência, as providências legais para envio à Europa de um contingente brasileiro. Criava-se, assim, a Força Expedicionária Brasileira (FEB).

Eram condicionantes do cenário do Brasil àquela época: o país não possuía indústria para produzir os meios bélicos necessários, a massa da população não gozava de condições de saúde exigidas pelos aliados, e o Exército teria de migrar da ultrapassada doutrina francesa para a americana, pois seria enquadrado em um Corpo de Exército dos Estados Unidos.

O ambiente político da ditadura Vargas trazia incertezas quanto ao envio imediato de tropas ao front, fato que levou os Estados Unidos a disponibilizar equipamentos e o armamento somente em solo italiano. Portanto, a FEB e seus valorosos pracinhas tiveram um batismo de fogo prematuro, com o adestramento incompleto.

Quanto aos aspectos fisiográficos, cabe ressaltar que esses soldados, autênticos representantes da gente brasileira, combateriam em terreno montanhoso, favorável ao defensor, sobretudo diante de um Exército aguerrido, considerado o mais profissional do mundo, bem equipado para o tipo de terreno e contando com forças reorganizadas, vindas da frente russa.

Todos poderão muito bem avaliar os imensuráveis desafios que foram enfrentados. Num grande exercício de imaginação, convidamos a refletir e tirar suas próprias conclusões sobre o esforço obstinado de líderes e liderados para, em curto espaço de tempo, transformar um exército de recrutas em uma força eficaz. É nossa obrigação reconhecer seu valor e chamá-los de heróis.

Como parâmetro de comparação, citemos alguns exemplos. O Exército britânico, em Dunquerque, o russo, na Finlândia (1940), e o americano, no Passo de Kasserine, na Tunísia, sofreram reveses. Eram forças inexperientes que, somente após acumularem meses de combate, demonstraram estar à altura das tradições militares de seus povos.

Destacamos, também, que o fracasso da ofensiva anglo-americana em Bolonha indicava a necessidade de uma parada tática, e o inverno aconselhava esperar o fim da estação para retomar o movimento. O comando aliado avaliou mal o valor defensivo do terreno e o poder de combate das forças adversas. O general Mascarenhas de Morais alertava que o efetivo dos quatro ataques a Monte Castelo, em novembro e dezembro de 1944, era insuficiente. Mesmo assim, cumpria aos nossos bravos atacar, recuar em ordem e permanecer no front sem serem substituídos.

Há quem deprecie as vitórias da FEB por não terem sido decisivas na derrota do Eixo. Ora, a nossa força se constituía em uma das 99 divisões de combate aliadas na Europa, desdobrada em um teatro de operações secundário. As suas conquistas foram compatíveis com uma divisão de infantaria a pé e importantes para o IV Corpo de Exército americano, ao qual pertencia.

Diferente de outros exércitos, com expressivo número de comandantes e comandados, do general ao soldado, a FEB teve estrutura e organização compatíveis com as missões a serem cumpridas. Há dúvidas quanto a essa assertiva? Estudemos e pesquisemos!

Quem por felicidade assistiu ao filme “A Estrada 47” pôde ver o esforço dos pequenos grupos de combatentes. Eles venceram o maior desafio do guerreiro — enfrentar o fogo inimigo com equilíbrio emocional, competência e coragem.

Amor à pátria e sentimento do dever e de camaradagem, forjados em riscos comuns, uniram os pracinhas, impondo-se às diferenças e preconceitos de cor, credo, classe social e ideologia. E é por essa razão que, como soldados e cidadãos brasileiros de hoje, cumprimos com muito orgulho o dever de reverenciá-los em nome de nossa liberdade. Nossa continência, maior reconhecimento a esses heróis de nosso Brasil.

É tarefa das mais difíceis discorrer sobre a FEB sem contextualizá-la no cenário político nacional e internacional da Segunda Guerra Mundial e sem conhecer história e operações militares. A ela, algumas vezes, atrevem-se neófitos e produzem disparates que um pouco mais de rigor investigativo e menos arrogância poderiam evitar. Esses, também, poderiam ir à Itália para constatar junto à população o rastro de gratidão e respeito que nossos pracinhas por lá deixaram.

Otávio Santana do Rego Barros é general de brigada




Triste FEB

O repertório de humilhações, dores e heroísmo da Força Expedicionária, explícito em “Rádio Auriverde”, nunca foi desmentido, justamente porque não há manipulação

POR SYLVIO BACK
31/08/2015 0:0

À saída do Festival de Brasília de 2004, quando “Lost Zweig” acabara de receber três prêmios, o montador do filme, Francisco Moreira, foi interpelado por membro do júri: “Como é que você edita um filme poético como este do Back (desculpe, a autorreferência!) e assina a montagem desse inominável documentário chamado “Rádio Auriverde”? Moreira retrucou: “De qual longa brasileiro recente você se lembra agora? Pois é, ele grudou para sempre na sua consciência, tanto que você não consegue esquecê-lo. Quer glória maior do que essa para um filme?”

Essa história tem me assaltado no marco dos 70 anos do fim da Segunda Guerra Mundial, com a inestimável e honrosa exceção do GLOBO, tão homeopaticamente tratado pela mídia e editoras brasileiras, na contramão das americanas, europeias e asiáticas, aliás, por todos os motivos. Os mesmos que teríamos por aqui, com igual ou, quem sabe, maior ênfase para restaurar e redimir a tragicômica participação da Força Expedicionária Brasileira (FEB) no magno conflito.

No entanto, comprovando nossa proverbial tradição de lesa-história, não foi assim. Pelo contrário, seu resgate resumiu-se em recauchutar o indefectível lamento corporativo do Exército e da FEB, em vez da rigorosa análise dos fatos, sim, coadjuvado pela exibição de filmes chapa-branca, tipo “A Estrada 47” e docs afins, e por textos jornalísticos e literários de suspeita isenção. Um repertório comprometido até a medula com patrocínios e patronatos, sem exceção, repintando com laudatórias cores nacionalistas, igual aos tanques das casernas para os desfiles de Sete de Setembro, as falácias que informam e deformam a polêmica saga dos pracinhas nos campos de batalha da Itália.

Tudo sem dissenso, com escopo e azimute únicos. E, sintomaticamente, “Rádio Auriverde”, de 1991, jamais é esquecido, óbvio, face a sua pegada antidoc, sem vezo clientelista ou viés ideológico. Sempre citado como “filme maldito”, “o mais odiado do cinema brasileiro” ou “um dos piores filmes jamais feitos no Brasil” e que tais, mais uma vez atesta sua longevidade memorial na margem oposta dos fotogramas e artigos oficiais que ora lustram a glória, ora ilustram o vexame da FEB.

Mesmo tendo sido mimoseado, pessoalmente, filho de judeu húngaro e alemã, com impublicáveis ofensas às minhas origens étnicas e patrícias (natural de Blumenau...), o filme reafirma sua incontornável pertinência moral: à época do lançamento, teve bela e unânime cobertura da imprensa quando se ouviam laivos saudosos da censura. Tanto que o repertório de humilhações, dores e heroísmo da FEB, explícito na tela, nunca foi desmentido, justamente porque não há manipulação nem malversação dos acontecimentos.

Eis que “Rádio Auriverde”, em cartaz na Cinemateca do MAM, solitário exemplar de um cinema execrado e contestado, mas à prova de aleivosias históricas e/ou políticas. Pois todo o repertório de críticas, diatribes eboutades do filme são encontráveis nos encomiásticos cinejornais do DIP e na própria literatura, muitas vezes cruel, do Exército brasileiro e da FEB.

A pátina do tempo está provocando dois fenômenos correlatos: de um lado, a cada efeméride se busca varrer sob o tapete do livro didático, da mídia e da História oficial as entranhas daquele desastre bélico da nacionalidade, só comparável à matança dos Voluntários da Pátria (majoritariamente pretos) na Guerra do Paraguai. De outro, com cineastas e escritores (militantes fisiológicos de plantão), uns mais outros menos inocentes, procuram ungir heróis de lata e fancaria, amortecendo com falsa compaixão o horror sobrevivente da comunidade dos abandonados pracinhas. 

Que ironia! Esquecida, amargada e apagada da foto. A cada morte de um pracinha, morrem verdades e mentiras sobre a FEB.

Como, aos 7 anos, fui contemporâneo, não testemunha, dos fatos e feitos, as cenas de arquivo do filme foram pesquisadas e capturadas em acervos públicos e privados do Brasil, da Europa e dos Estados Unidos. Portanto, material de inequívoco brilho jornalístico e inteireza moral, sem vezo patrioteiro, que põe o dedo numa ferida ainda por cicatrizar, tornando “Rádio Auriverde” imperdoável por ser um cinema descontaminado pela voz do dono!

Sylvio Back é cineasta