MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964

MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964
Avião voa sobre a orla carioca em 31/03/2014, ostentando faixa com os seguintes dizeres: "PARABÉNS MILITARES - 31/MARÇO/64 - GRAÇAS A VOCÊS O BRASIL NÃO É CUBA". Clique na imagem acima para acessar MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964 - uma seleção de artigos sobre o tema.

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

FEB: sangue e honra nos Apeninos italianos

FEB: sangue e honra nos Apeninos italianos
Autor: Robson Merola de Campos 
        O mundo estava em guerra na primeira metade da década de 1940. A Alemanha nazista dominava quase toda a Europa e parte da África e Ásia. Sob o tacão de Hitler minorias étnicas sofriam os horrores do anti-semitismo. A Polônia havia sido riscada do mapa: invadida a oeste pela Alemanha e a leste pela URSS. O Brasil, governado pelo ditador Getúlio Vargas, oscilava nos primeiros anos da guerra entre a simpatia pelos países do Eixo (Alemanha, Itália e Japão) e a necessidade da neutralidade tendo em vista o poderoso vizinho do norte (EUA).
         A conveniente neutralidade brasileira só foi quebrada após terríveis acontecimentos em agosto de 1942. Os navios Baependi, Itagiba, Araraquara, Araras e Aníbal Benévolo haviam sido torpedeados e afundados no litoral do nordeste, a poucas milhas da praia entre os dias 15 e 17 de agosto. O número de mortos era impressionante: mais de 600. Um único submarino alemão havia sido o responsável por essa barbárie: o U-507, comandado pelo Capitão Harro Scracht. Quer conhecer mais detalhes sobre essa tragédia? Busque informações nos jornais da época ou nos livros de história que ainda não foram contaminados pela doutrinação esquerdista.
As manifestações populares em resposta aos afundamentos dos dias 15, 16 e 17 de agosto foram monumentais. Ninguém sabe exatamente como ou onde começaram. O fato é que pequenos grupos começaram a se formar em pontos cívicos da cidade do Rio de Janeiro. No monumento ao Duque de Caxias e ao Marechal Deodoro, nos jardins do Palácio da Guanabara e em muitos outros pontos. Oradores improvisados, em discursos inflamados, exigiam uma resposta imediata do governo brasileiro. Vargas sentiu a pressão popular e em 22/08/1942 reconheceu o estado de beligerância com a Alemanha.
Começava a saga de 25.334 homens e mulheres que iriam integrar a Força Expedicionária Brasileira.
De plano, é preciso que se reconheça: o Brasil não venceu a guerra sozinho. Por outro lado, nem um único país de per si pode afirmar ter conseguido tal façanha. O que houve foi uma conjunção de esforços para derrotar o Eixo. Nem poderia ser diferente, tendo em vista, os números da Segunda Guerra Mundial, que envolveu milhões de soldados de dezenas de países em luta, com estimativa de baixas entre pessoal militar e civil na casa dos 40 milhões. Mas, será que esse seria o único referencial (vencer a guerra sozinho) a ser levado em conta ao avaliar a atuação da FEB na Europa? Tenho comigo que não. Em primeiro lugar é preciso considerar que os cinco escalões da Força Expedicionária Brasileira que cruzaram o oceano para lutar no Teatro de Operações da Itália eram formados em sua maioria por reservistas, pessoas simples de todos os cantos e estados brasileiros. A FEB era uma síntese do nosso povo de então, que vivia em um país subdesenvolvido, miserável, sem industrialização, com condições sanitárias muitas vezes inexistentes. Entretanto, esses representantes do povo brasileiro atravessaram o oceano e foram dar o seu recado de homens livres na Europa conturbada pela guerra.
Relatam os moradores da região dos Apeninos italianos que o inverno de 1944/45 fora o mais rigoroso das últimas décadas. Sabe-se lá o que é estar em uma “buca” (ou fox-hole, como diziam os americanos) nas cercanias de uma cordilheira de montanhas, com a temperatura batendo em 40º negativos, com um fuzil na mão, e recebendo granadas dos alemães instalados lá nas alturas? Pode-se imaginar o que é para um simples rapaz do campo, que jamais havia calçado um sapato (como muitos dos integrantes da FEB), estar enfrentando a morte diariamente em um frio congelante e comendo a fria e insossa ração “K”, pois, na linha de frente comida quente significava fumaça e fumaça atraía o fogo inimigo? Você é capaz de imaginar o que é subir uma montanha em meio a um lamaçal escorregadio e terrível, sob as vistas e os fogos inimigos, para conquistar um objetivo? Soldados do 11º Regimento de Infantaria (São João Del Rei) e soldados do 1º Regimento de Infantaria (o Sampaio, do Rio de Janeiro) fizeram isso por cinco vezes, até conseguir conquistar o Monte Castelo (proeza realizada pelos homens do Sampaio). Se você não estava lá não é capaz de avaliar o que esses simples soldados brasileiros sofreram para conquistar esse objetivo.
Mas, vamos adiante e falemos da tomada de Montese, uma cidadezinha italiana encravada no alto de uma colina, fortemente defendida pelos alemães, que foi a batalha mais cruenta enfrentada pelos brasileiros. Os pelotões dos tenentes Iporã Nunes e Ary Rauen (do 11º RI) foram encarregados da vanguarda para tomar a cidade. Ary Rauen morreu em combate; seu sargento auxiliar assumiu o comando do pelotão e completou a missão. Naquela noite, os alemães dispararam nutrido fogo sobre a cidade tomada pelos brasileiros: foram 2.800 tiros de artilharia e morteiros. Mas Montese estava segura sob o controle da tropa brasileira.
E o que dizer da coroação absoluta do esforço de guerra brasileiro que culminou com a captura da 148ª Divisão de Infantaria Alemã, comandada pelo General Otto Fretter Pico, com a captura de mais de 20 mil soldados alemães? E as outras localidades, dezenas delas, que foram libertadas pelos soldados brasileiros?
Tais histórias são hoje recordações de um tempo diferente do atual. Naqueles anos, as pessoas, mesmo os simples e humildes soldados brasileiros eram movidos pela certeza de ter que fazer a coisa certa no momento certo. Para isso, não mediram sacrifícios. Cerca de 500 brasileiros morreram na Itália; outros três mil ficaram feridos. Muitos dos sobreviventes trouxeram as cicatrizes psicológicas do trauma da guerra: ficaram truncados para sempre no espírito.
Li com tristeza hoje pela manhã (01/09/2015) alguém tentando menosprezar a atuação dos nossos pracinhas em solo italiano. Classificando a atuação da tropa brasileira como tragicômica e humilhante. Não foi considerado pelo autor do artigo o incontestável fato de que a FEB lutou do lado certo naquele conflito (e em nenhuma outra guerra da história da humanidade houve tão claramente a polarização entre o certo e o errado). Também foi ignorado que a FEB com essa luta contribuiu, indelevelmente para o esforço de guerra, vencendo batalhas, capturando inimigos, deslocando-se em terreno estranho e com clima hostil. Claro que houve falhas: nós enviamos para a Europa uma tropa mal preparada técnica e psicologicamente. E falhas também ocorreram entre tropas de outras nações – que venceram ou que perderam a guerra. Mas, é bom que se diga, a tropa brasileira aprendeu amargamente com seus próprios erros e suas deficiências. No final das contas, o balanço altamente positivo da sua atuação fala absolutamente por si só. Mas, além disso, se outros méritos a nossa FEB não os tivesse, restaria ainda a certeza de que nossa contribuição foi fundamental para a sobrevivência do simples povo italiano das montanhas dos Apeninos, que ainda hoje, se lembra com carinho dos soldados brasileiros, que por aquelas bandas são chamados de “Liberatori”. O que ficou marcado na memória dos italianos sobre aqueles anos, quando falam dos integrantes da FEB, não foi a crueza dos combates ou a maldade inerente da própria guerra, que é um negócio sujo, feio e odioso. Foi a alma do pracinha brasileiro, que sempre se portou com bravura, honradez e dignidade. Nas comemorações dos 70 anos do fim a guerra, crianças de Montese fizeram emocionante homenagem aos nossos pracinhas e cantaram a Canção do Expedicionário. Talvez essa seja a mais eloquente homenagem que nossos homens poderiam um dia ter recebido.
A FEB foi a síntese do povo brasileiro de então: com todas as suas qualidades, todos os seus defeitos, toda a sua improvisação. Merece respeito pelo que fez e pelo que representa. Lamentável que no exterior a FEB seja mais reconhecida pelos seus feitos e suas virtudes que em território brasileiro. Mas, é bom que se diga, interessa a alguns “formadores” de opinião que a população brasileira desconheça o valor e o heroísmo de nossos homens. Não é de se admirar: algumas pessoas, e só mesmo Deus para explicar, nunca se sentem bem diante de heróis de verdade.
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Crianças italianas cantam a Canção do Expedicionário em Montese, em 2015, na comemoração dos 70 anos da FEB na Itália: