MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964

MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964
Avião voa sobre a orla carioca em 31/03/2014, ostentando faixa com os seguintes dizeres: "PARABÉNS MILITARES - 31/MARÇO/64 - GRAÇAS A VOCÊS O BRASIL NÃO É CUBA". Clique na imagem acima para acessar MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964 - uma seleção de artigos sobre o tema.

sexta-feira, 5 de junho de 2015

NORMALIDADE E CORRUPÇÃO

NORMALIDADE E CORRUPÇÃO

"O corrupto é, em princípio, incorruptível. Nem todos, alguns são meramente corruptos por esporte, digamos; outros, todavia, aderem à corrupção com tal paixão que por dinheiro algum se tornariam honestos, levam a fidelidade à corrupção ao grau sublime do sacrifício pessoal da carreira, senão do martírio."
Fabio Herrmann
 “O político corrupto – corruptor ou corrompido – já está sendo comparado ao tarado da anedota: é simplesmente um homem normal apanhado em flagrante.”
Joelmir Beting

Waldo Luís Viana*

O
s estudiosos de Astrologia dizem que a passagem de Plutão sobre Capricórnio (janeiro de 2008 a novembro de 2024) geraria um clímax de destruição sobre as estruturas antigas da administração pública dos países, bem como uma focalização inédita no problema da corrupção. Não ficaria pedra sobre pedra nesse movimento astral,  gerando – segundo eles – a movimentação das nações rumo ao resgate da justiça e de padrões aceitáveis de exação no trato do dinheiro público.
         Ou seja, os povos diriam “não à corrupção” de maneira explícita e inaudita. Mesmo aqueles que desacreditam dos estudos astrológicos, não podem negar que temos vivido um período singular em que o clamor contra as injustiças e desigualdades vem privilegiando a investigação da corrupção em termos planetários.
         Tudo está sendo revolvido e parece que estamos apenas no começo do processo. No Brasil, vítima da corrupção, do cartorialismo e patrimonialismo desde os tempos coloniais, temos visto uma perseguição especial contra os corruptos instalados na vida política e empresarial como jamais se viu.
         Mesmo que os vitimados por investigações e processos digam que isso sempre existiu e seus advogados argumentem que não se instala um paralelepípedo numa rua sem que se pague propina a alguém – o “negócio” ficou socialmente insuportável, porque deixou de ser corrupção isolada para ser sistêmica e quase que, hipocritamente, programa de governo e pretexto para permanência no poder.
         A despeito de os malandros imaginarem, com os punhos erguidos, que “roubaram por uma boa causa”, parece que inadvertidamente isso não cola mais para a maioria da população.
         É claro que os de cima influenciam os que estão  em baixo, a ponto de políticos, autoridades e ricos empresários darem mau exemplo que se estende até os pequenos atos e eventos da sociedade como um todo. Já se disse, na historiografia tradicional, que nosso povo é cordial, ou seja, age pelo coração, sendo hospitaleiro e alegre. Nada, porém, mais falso e preconceituoso.
         O povo brasileiro, na verdade, é ambicioso e violento, como qualquer outro, aproveitando inclusive a sua ancestralidade portuguesa (escravizadora de índios e negros). Aliás, fomos o último povo da Terra a abolir a escravidão, um recorde vergonhoso em nossa História, como tantos outros, vexatórios...
         A maioria tem uma compreensão dialética da corrupção: enquanto na superfície, ao nível dos protestos e da mídia, deplora os malfeitos dos corruptos, no fundo, bem ao nível inconsciente, admira a capacidade dos desonestos em driblar as lentas instituições de auditoria e justiça.
         A vã psicologia deteve-se muito pouco sobre o complexo problema, preferindo alinhar a tendência à corrupção a uma manifestação simples de desleixo moral. Não temos inclusive escolas de psicopatologia a enquadrar esse comportamento como distúrbio anormal.
         Na verdade, temos que concordar que os corruptos – corruptores e corrompidos – são pessoas normais que em nada diferem dos homens ordinários que nos rodeiam. Apenas regem a própria conduta por uma ambição insaciável por dinheiro, bens e bem-estar, além de darem especial atenção ao reconhecimento social, mesmo que obtido pela ausência de escrúpulos e princípios morais.
         A pirâmide de Maslow alinhou no topo das necessidades humanas a autoestima e a realização pessoal. Esses são valores sacralizados pelos corruptos. Eles querem oferecer ao meio em que vivem a demonstração de que prosperaram na vida, ficaram ricos e colecionaram bens. A maioria dos corruptos realizados são homens e velhos (não necessariamente em ordem cumulativa), mas há mulheres também capazes de se dedicar à fervorosa prática. Se no mundo existem praticamente 85 arquibilionários, que caberiam num avião a jato e que  detêm 45% da renda mundial, sabemos também que essa mentalidade concentradora se espraia com toda a naturalidade pelos ricos do andar de baixo e outros personagens, afeitos à busca da riqueza a qualquer preço, mesmo que esta contrarie a lei e os bons costumes.
         No entanto, como estamos vendo com assiduidade, tal onda civilizacional passou neste século XXI a colidir com princípios morais livremente escolhidos pelas instituições da sociedade ocidental e cristã. Os povos estão acordando para os prejuízos que estão sofrendo, a miséria e a fome atacando a maioria, em favor de alguns poucos abonados pela sorte.
         Neste país, de voto obrigatório e foro privilegiado, temos elites que consideram que o dinheiro público não é de ninguém e que oligarcas e plutocratas financeiros podem se coligar em clubes para fraudar concorrências públicas, superfaturar contratos e lavar dinheiro.
         Hoje, constatamos como rotina as expressões corrupção assustadora, propinas e malfeitos, lavagem de dinheiro, prisões preventivas, delações premiadas, operações da Polícia Federal e da Receita, investigações de CPIs e do Judiciário – envolvendo a opinião pública num clima de fim de mundo, em que os corruptos negam tudo, são sempre inocentes (até prova em contrário) e nunca sabem de nada.
         E o brasileiro descrente e normal acha que na verdade “tudo acabará em pizza”, porque os chefes da corrupção jamais serão apanhados.
         Nesse sentido, ainda no colo da normalidade e mediante a lentidão da Justiça, os processos viram novelas, com capítulos estratificados e que, pela rotina, começam a cansar a todos. Afinal de contas, o povo narcotizado pela mídia deseja sempre a próxima atração...
         Por outro lado, os corruptos presos ou flagrados, porque seres absolutamente normais, ficam deprimidos e doentes por ficarem encarcerados. Não acreditavam, do mesmo modo que Al Capone na Chicago dos anos 1930, que veriam vergonhosamente o sol nascer quadrado. Porque esse seria o destino da rama da sociedade, dos pobres que sempre são vítimas do aparato policial-judiciário. Eles não! Isso absolutamente não é normal!
         Embora pagar advogados caros seja uma espécie de distribuição de renda perversa, para eles é horrível o cárcere, porque não roubaram pensando em ser apanhados, mas confiando em que os bens acumulados assegurariam a feliz impunidade. E isso porque as brechas da lei, no Brasil, estão sempre á disposição dos mais ricos e prósperos.
         No entanto, infelizmente para os corruptos, as coisas não se passam mais assim, em nossa grandiosa nação. Os reis inatingíveis estão ficando nus, embora as  lentas aplicações de punição favoreçam os escapes da cadeia, a liberdade condicional e possíveis fruições dos haveres acumulados no exterior, bem longe do primitivo Brasil.
         Vivemos então em pleno período anormal em que os corruptos normais estão vivendo verdadeiro inferno astral. Que coisa terrível para eles! Onde isso vai parar, meu Deus?
         A corrupção no Brasil é coisa normal e quase inevitável. Como já disse o professor Ladislau Dowbor, a partir de certo nível, a corrupção exige que todos sejam corruptos. Quem se recusa é alvo de pressões insustentáveis. É um processo de seleção negativa – como afirmou o ilustre economista.
         Mas, como num passe de mágica, os edifícios corruptos estão desmoronando como num castelo de cartas. A sociedade não está mais aceitando a “normalidade dos corruptos” e nos parece que essa é uma tendência universal, anormal, talvez apocalíptica. E em matéria de fim dos tempos, prefiro acreditar nas profecias da religião e astrologia.
         Serei um cara normal?
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*Waldo Luís Viana é escritor, economista e poeta. E não aceita propinas, só sugestões...
Teresópolis, 4 de junho de 2015.