MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964

MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964
Avião voa sobre a orla carioca em 31/03/2014, ostentando faixa com os seguintes dizeres: "PARABÉNS MILITARES - 31/MARÇO/64 - GRAÇAS A VOCÊS O BRASIL NÃO É CUBA". Clique na imagem acima para acessar MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964 - uma seleção de artigos sobre o tema.

quinta-feira, 9 de abril de 2015

Frente Brasileira de Informações (Front Brésilien de Información) - FBI



Frente Brasileira de Informações (Front Brésilien de Información) - FBI

Félix Maier

No dia 19/6/1965, Houari Boumedienne depôs Ben Bella, na Argélia. Enquanto Ben Bella era um aliado de Fidel Castro, Boumedienne desejava uma Argélia socialista, não internacionalista, mas como o do egípcio Násser. 

Em outubro de 1969, Miguel Arraes, Marcio Moreira Alves, Almery Bezerra e Everaldo Noroes criaram, em Paris, a Frente Brasileira de Informações (FBI), ligada a organizações de esquerda, de oposição ao governo militar do Brasil. Com os recursos recebidos de Boumedienne (roubo do cofre de Adhemar de Barros, no Rio), Miguel Arraes cobriu as despesas da FBI, que passou a desenvolver guerra psicológica contra o Brasil, especialmente contra as Forças Armadas, fazendo denúncias de “genocídio” contra indígenas, ações de esquadrões da morte e, finalmente, a palavra mágica, que tanta comiseração causa aos esquerdosos até hoje: “tortura”. 

No dia 15/11/1969, o jornal El Siglo, porta-voz do Partido Comunista Chileno, anunciou em editorial a criação da FBI em Paris, com filiais no Brasil e em outros países latino-americanos. O Chile, com um regime marxista em vias de ser instalado por Salvador Allende, era um refúgio de terroristas e exilados brasileiros (“Betinho”, FHC, José Serra, Plínio de Arruda Sampaio, Francisco Weffort, Darcy Ribeiro, Fernando Gabeira, Alfredo Sirkis), e foi o primeiro país a lançar seus boletins em espanhol - Frente Brasileña de Informaciones, na Casilla Postal 3.594 - Santiago do Chile. 

No Uruguai, Paulo Schilling e Carlos Figueiredo de Sá, ex-juiz da Justiça do Trabalho e militante da ALN, ambos cassados pelo AI-5, assumiram a coordenação da rede. O jornal uruguaio De Frente, na edição de 8/1/ 1970, dava início à campanha da FBI, publicando a matéria “Torturas en Brasil”. 

No dia 15/1/1970, houve uma reunião no Centro de Convenções Mouber Mutualité, pertencente aos sindicatos comunistas de Paris, no Quartier Latin, com representantes de partidos políticos, sindicatos e personalidades da esquerda mundial. Tendo ao fundo uma foto de Carlos Marighella, George Casalis, professor da Faculdade de Teologia Protestante de Paris, presidiu a cerimônia, em que participaram da mesa Miguel Arraes, o advogado Jean-Jacques de Félice, Jean-Paul Sartre, Michel de Certau, o padre jesuíta redator da revista Notre Combat, Pierre Jalée - presidente do Comitê de Defesa da revista “Tricontinental”, Jan Talpe - físico belga e ex-professor da USP expulso do Brasil por envolvimento com a ALN, e Lengi Maccario - Secretário-geral da Federação Italiana de Metalúrgicos. Em um livreto da FBI, foram transcritas mensagens de solidariedade e apoio a várias organizações, como a Liga Comunista (Seção Francesa da IV Internacional), o Movimento Separatista Basco (ETA), o Comitê Palestino, a Fundação Bertrand Russel e o Comitê de Iniciativa Belga de Solidariedade com a América Latina. 

Os boletins da FBI, editados em francês e espanhol, focalizavam temas como “perseguição de religiosos e operários católicos”, “extermínio de índios”, “exploração de flagelados”, “ditadura militar”, “tortura de presos políticos”, “esquadrões da morte”. 

A Anistia Internacional se aliou à frente de mentiras da FBI, os “subversivos da pena”, no dizer do general Del Nero em seu livro A Grande Mentira

Neste mesmo ano de 1970, a leiga Judite Fasolini Zanata e 23 padres e freiras brasileiros foram estudar no Instituto Lumen Vitae, filiado à Universidade Católica de Louvain, na Bélgica, infiltrada por comunistas. No segundo ano do curso, para cumprir determinação acadêmica, o padre Jacques Von Nieuvenhouse exigiu que ela deixasse de lado a ideia de dissertar sobre a teologia da libertação e se ativesse a fatos mais “concretos” sobre o Brasil, como sua situação política, econômica, social e cultural, e que deveria escrever sobre a tortura. Como subsídio, sugeriu que lesse livros de Márcio Moreira Alves, Miguel Arraes, Dom Hélder Câmara, Dom Antônio Fragoso e outros, além da revista esquerdista Croissance des Jeunes Nations. Voltando ao Brasil, Judite assim se referiu à sua tese: “Vim a me certificar tratar-se de matéria inclusa numa campanha contra o Brasil no exterior [...] Premida pela necessidade de terminar com aproveitamento o curso e confiando em que a orientação do Padre Jacques era correta, fiz a tese nos moldes indicados por ele, sem aquilatar o crime que estava cometendo contra minha pátria. Servi de instrumento dessa campanha inconscientemente, vendo agora que fui aproveitada na minha boa-fé pelo orientador da tese” (cit. AUGUSTO, 2011: 171).   

No período de 15 Mar a 9/4/1972, na Igreja São Clemente, em Nova York, a FBI apresentou um extensa programação contra o Brasil, englobando conferências, debates, filmes e representações; a programação contou com a presença do teatrólogo Augusto Boal, do cineasta Gláuber Rocha e de Márcio Moreira Alves, entre outros. 

Em Maio de 1972, Miguel Arraes viajou sigilosamente para Santiago do Chile, onde manteve contato com o presidente Salvador Allende; a viagem tinha como finalidade a organização de uma seção latino-americana do Tribunal Bertrand Russell  (TBR) e articular a FBI na Argentina, Peru e México. 

No dia 30/10/1972, o jornalista Castello Branco assim escrevia em sua coluna: “Ficamos sem saber se a campanha é movida por grupos esquerdistas internacionais, instruídos por brasileiros exilados, ou se ela é inspirada por correntes econômicas e políticas interessadas em torpedear o processo de desenvolvimento de nosso país.” (Del Nero, op. cit., pg. 421). 

Em 1973, a FBI promoveu 2 campanhas contra o Brasil: a 1ª foi iniciada na Bélgica, para suspender a realização da Feira “Brazil Export 1973; o Comitê Belgo-Europa-América Latina e o também belga Movimento Cristão para a Paz desenvolveram intensa campanha para suspender a Feira; a outra campanha ligava-se ao “julgamento” do governo brasileiro pelo Tribunal Bertrand Russel; foi desenvolvida campanha para recolher dados e identificar pessoas dispostas a testemunhar no “julgamento”, previsto para outubro. 

Um dos principais membros do TBR, o Senador italiano Lélio Basso, seguindo os passos de Miguel Arraes, esteve no Chile, convidando terroristas e foragidos a testemunharem perante o Tribunal; o militante da ALN, Fernando Soares, asilado na Itália, foi ao Uruguai também para convidar terroristas para o mesmo fim. 

Com a Contrarrevolução Chilena (11/9/1973) e a deposição de Allende, as atividades da FBI foram suspensas no Chile, com a revoada dos subversivos, e o julgamento do Brasil e de outros países latino-americanos foi adiado. 

Em novembro de 1973, o Comitê Francês da Anistia Internacional, em ligação com a FBI, organizou um Congresso sobre tortura, repetindo as acusações de sempre contra o Brasil; uma das poucas reações vistas foi a do professor Denis Bucan, romeno naturalizado francês; comentando notícia do jornal Le Figaro sobre o evento, Bucan destacou que a Anistia Internacional nunca tinha feito nenhuma crítica contra a tortura e o extermínio nos países comunistas. 

Aliás, convém lembrar que no livro O ópio dos intelectuais, Raymond Aron, pensador francês, faz a mesma crítica contra seus pares. Segundo Luís Mir (op. cit., pg. 394), a FBI era uma “estrutura política que abrigaria todas as organizações armadas e de oposição à ditadura, tornando-se uma rede de informações internacionais de poderoso alcance político na denúncia de torturas e violações dos direitos humanos no Brasil. (...) centenas de pessoas trabalhando em várias capitais europeias e latino-americanas e expressivo número de voluntários estrangeiros sem remuneração”. “Era impressionante o trabalho dessas figuras de proa, esses artistas de cinema e escritores, que montaram lá em Paris o Front Brésilien de Información; uma central de informação contra o Governo do Brasil. Dom Hélder Câmara ia lá fazer palestras. Aliás, contam que em uma de suas palestras estava presente o dissidente russo Soljenitzyn. O cardeal mandou ‘brasa’, falou mal do Brasil e no final o russo perguntou para ele: - Mas, depois disso, o senhor vai voltar para lá? - Vou. O russo arrematou: - Vai? Não entendi nada!” (Gen Div Negrão Torres - HOE/1964, Tomo 8, pg. 102-3). 

Com certeza, foi a forma do autor de Arquipélago Gulag chamar D. Hélder de mentiroso, pois se o Brasil fosse realmente governado por um regime truculento, ele seria preso e fuzilado quando retornasse ao País - como ocorreria em Cuba, se  o cardeal embusteiro fosse cubano.