MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964

MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964
Avião voa sobre a orla carioca em 31/03/2014, ostentando faixa com os seguintes dizeres: "PARABÉNS MILITARES - 31/MARÇO/64 - GRAÇAS A VOCÊS O BRASIL NÃO É CUBA". Clique na imagem acima para acessar MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964 - uma seleção de artigos sobre o tema.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

VIVER EM RORAIMA



VIVER EM RORAIMA

Márcio Cotrim

Correio Braziliense, 06-12-2014

O jovem Estado de Roraima (que uns pronunciam Roráima, outros Rorãima – tanto faz) é um verdadeiro tesouro. Vastos campos que inspiram desbravamento e conquista, tão epopeizado por Hollywood.

Comboios desembestados de carroças por pradarias nuas, massacre de índios pelo caminho – Gerônimos, Touros Sentados, Jesses James, generais Custers a saga da civilização rapineira que, afinal vitoriosa -, fez estender o território do país do Atlântico ao Pacifico, ai de apaches e navajos!

Outro dia um amigo recém-chegado de lá me contou coisas pasmosas. Como primeiro espanto, o mais difícil em Roraima é encontrar roraimense. A proporção é de um para cada dez pessoas. Pior: não há muitos meios de sobrevivência. Ou o sujeito é funcionário público, como quase todos o são - pois na capital, Boa Vista, se concentram os órgãos federais e estaduais -, trabalha no comércio local ou vive da ajuda de programas oficiais.

Não existe indústria de qualquer tipo. Cerca de 70% do território é reserva indígena. Sobram apenas 30% para o cultivo da terra ou a própria localização das cidades, já pensou?

Na única rodovia existente – com 800 quilômetros entre Boa Vista e Manaus – em 200 quilômetros dela a passagem só é permitida das 6 da manhã às 6 da tarde. Nas outras 12 horas, a estrada é fechada pelos índios, com autorização da FUNAI, para que não sejam incomodados em seu descanso!

Mais, ainda: é comum, na entrada de algumas reservas, vermos hasteadas bandeiras dos EUA. E não é difícil deparar com um tipo nerd, cara de quem não quer nada, alegando que veio caçar borboletas e joaninhas para catalogá-las, mas, na realidade, é agente de empresas que vetam a instalação de firmas brasileiras para a exportação de plantas típicas – que, aliás, já patentearam boa parte dos produtos amazônicos!

A maioria dos índios fala inglês, além de sua língua nativa. Meu amigo conta mais: nenhuma bagagem é fiscalizada por aquelas bandas – bem entendido, bagagem de americano. O motivo dado por autoridades locais, certamente invertebradas, é risível: isso pode provocar um incidente diplomático...

Zanzam ingenuamente, mas se você quiser montar uma empresa para exportar plantas e frutas como o cupuaçu e o açaí, ou plantas medicinais para a fabricação de remédios, terá que pagar royalties a empresas americanas.

Meu amigo conversa com uma senhora simples, à beira da estrada para a cidade de Mucajaí. — É, os americanos vão acabar tomando a Amazônia. A senhora, em seu tosco linguajar: — vão tomar não, meu filho, tu não sabe mas isso tudo já é deles. Tu não entra em lugar nenhum sem a permissão deles.

Outra justa indagação de meu amigo: por que aqueles estrangeiros, sobretudo filhos de Tio Sam querem tanto proteger os índios – inclusive apoiando a criação de uma Nação Ianomami?

Resposta consciente das gentes do lugar na ponta da língua: é que as terras indígenas, além de riquezas minerais, animais, vegetais e da abundância de água, são riquíssimas em ouro. Pepitas chegam a ser pesadas em quilos, diamantes, outras pedras preciosas, minérios estratégicos e muito, muito petróleo.

Meu amigo diz que voltou de lá com a sensação de que, nessa toada, o Brasil vai diminuir de tamanho. A menos, digo eu, que o governo faça restaurar, naquelas lonjuras, a soberania nacional.

Por ora, resta proclamar, nos idiomas que se falam por lá: Help! Tassuketê!