MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964

MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964
Avião voa sobre a orla carioca em 31/03/2014, ostentando faixa com os seguintes dizeres: "PARABÉNS MILITARES - 31/MARÇO/64 - GRAÇAS A VOCÊS O BRASIL NÃO É CUBA". Clique na imagem acima para acessar MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964 - uma seleção de artigos sobre o tema.

segunda-feira, 21 de março de 2011

Palestra do coronel Hiram de Freitas Câmara na AMAN

PALESTRA PROFERIDA PELO CORONEL HIRAM DE FREITAS CÂMARA, POR OCASIÃO DAS FESTIVIDADES DE COMEMORAÇÃO DO BICENTENÁRIO DA ACADEMIA MILITAR DAS AGULHAS NEGRAS


AGULHAS NEGRAS, 11 DE MARÇO DE 2011

Cadetes de Ontem e Cadetes de Hoje:

Muito honrado pelo convite formulado pelo Sr General Edson Leal Pujol, Comandante desta Academia, - no ano em que se completa o segundo centenário do início das atividades letivas da Academia Real Militar – e muito feliz com a presença dos Ex-Cadetes das Turmas da Integração Realengo -Resende, que aqui foram os primeiros a transpor o Portão Monumental, em 11 de março de 1944, há exatos sessenta e sete anos, compete-me discorrer, com imensa satisfação, sobre aspectos relevantes da vida e da obra do Marechal José Pessôa Cavalcanti de Albuquerque, e tê-los aqui nesta data, lado a lado, Cadetes de Ontem e Hoje, tem um significado de extraordinário valor para o nosso tema- O IDEAL ALCANÇADO, como pilares de uma ponte que se vai construindo entre o Ideal do Cadete de Caxias, visualizado pelo Marechal José Pessoa, e um futuro sem limites.

Talvez, muito do que ouvirão, uns tenham acompanhado, outros ouvido falar, e os mais novos, aprendido já, nesta Academia.

Não pretendo, pois, que seja aula rotineira, mas uma homenagem ao Idealismo e à Perseverança do Marechal José Pessoa, a quem devemos a mais profunda e duradoura valorização do Ensino de Formação de Oficiais de Carreira de nosso Exército.

Portanto, procurei estruturar estes momentos de forma a tratar das bases de suas crenças, de suas atitudes, de seu comportamento e de seus valores.

Depois, procurei interpretar o Ideal do Marechal, construído sobre aquelas bases.

E, finalmente, reservei para a conclusão, conselhos do Marechal, já vividos pelos Cadetes de Ontem e que caberá aos Cadetes de Hoje, retransmitirem, por suas atitudes e comportamentos, aos que os sucederem, neste templo sagrado da Fé profissional.

AS BASES PRIMEIRAS DO PROJETO

EXEMPLOS DE CASA

Nascido em 12 de setembro de 1885, em Cabaceiras, nos Cariris Velhos, na Paraíba, José Pessôa passou parte de sua infância e adolescência na casa simples onde a família chegara, com José, a nove filhos, dos quais ele era o quarto.

De seus oito irmãos, o mais velho viria a ser Governador (Presidente) da Paraíba em 1930, e a seu assassinato se atribui uma das causas da Revolução de 1930, - tão importante na vida do Marechal José Pessoa. Seu irmão Aristarcho também seguiu a carreira militar, atingindo o posto de general.

Seu Cândido Clementino e Dona Maria, seus pais, construíram um ambiente familiar de liberdade de pensar e de fazer, em terra de criatório de gado, o que permitiu a José amplas cavalgadas que o fizeram perito cavaleiro, e destro nas atividades físicas.

Modestos, seus pais pouco lhes poderiam prover – aos nove - de valores materiais; deram-lhes, assim, Educação na Capital do Estado, o vigor da saúde, e seu maior tesouro: valores éticos e morais que lhes moldaram, a cada um seu firme caráter, sempre pelo exemplo. Quatro valores, em especial, que podemos simplificar: não mentir, não ser desonesto, ser leal e não fugir à responsabilidade, um verdadeiro código de honra, que levou para a vida militar, familiar e civil.

Um código de honra sintetizado na memória coletiva de gerações, por seus ex-cadetes, na Escola, até que um desses, no Comando da Academia, em 1970, o oficializou, com as expressões VERDADE, PROBIDADE, LEALDADE E RESPONSABILIDADE.

Talvez, essas bases éticas acendam uma luz para que entendamos seu sincero rigor com erros que interpretasse como desrespeitos a este código, e assim se explique sua tese como Comandante do Realengo, de que:

“À Escola Militar não cabe corrigir defeitos, mas aprimorar qualidades”.

Sua formação também foi influenciada por chefes que viveram e venceram as influências do ambiente externo prejudiciais ao ensino de formação de Oficiais de seu tempo.

Na realidade, o período final do Império, demarcado por crises, entre elas as de naturezas econômica, religiosa e militar, e todo o processo de fortalecimento da Proclamação da República , trouxera em seu bojo o gérmen do conflito entre as diversas facções republicanas –incluindo positivistas , com muito prestígio na formulação constitucional e nas decisões iniciais de cunho militar, dado ser positivista seu primeiro Ministro da Guerra – e incluindo-se, ainda, neste caldeirão de conflitos, os monarquistas recalcitrantes. Este fato abalou a área da coesão entre as duas Forças Armadas e dentro de cada uma.

A ausência de um líder indiscutível, como o Duque de Caxias, fez falta neste momento. Novas lideranças surgiram, mas o Exército fragilizara sua coluna vertebral, e a bem dizer, a Nação Brasileira, perdera parte de sua capacidade de negociar a pacificação dos espíritos.

As lutas para a consolidação exauriram os poucos recursos de uma República empobrecida pela crise do campo, Revolta da Armada, e fragilizou a unidade das Forças Armadas. A Revolução Federalista e a Guerra de Canudos, demonstraram, ocasionalmente, fraquezas operacionais de um Exército sem mais as lideranças magnas do Duque de Caxias e Osório. Todos esses fatos trouxeram repercussões negativas dentro do Ensino de Formação de Oficiais.

Havia idéias, à época, para corrigir as limitações do ensino de formação de Oficiais. Uma delas, recorrente, era a de retirá-la do centro político.

Outra linha de ação era a de formar oficiais mais voltados para o combate, oficiais guerreiros e menos teóricos, defendida por chefes militares mais jovens, inflamados pela vocação militar. Sem resolver essas vulnerabilidades, já detectadas, seria muito difícil reconstituir-se um Exército que há somente trinta anos – havia demonstrado alto valor combativo, disciplina, respeito à hierarquia, e com elevado moral da tropa, com chefias militares de elevado padrão de liderança, na luta da Tríplice Aliança. Sem essas medidas tomadas, os alunos da Escola Militar do Brasil, sediada na Praia Vermelha, viriam a sofrer o impacto direto dessas repercussões negativas, em 1904.

Em 1898, tinham ocorrido novas restrições às homenagens a membros da nobreza, entre as quais a proibição ao uso do título de Cadete, a ser restaurado mais de trinta anos depois, pelo então Coronel José Pessoa. Essas restrições foram graves, para a Nação e para o Exército: a partir de então, fez-se o silêncio sobre o Duque de Caxias e os outros notáveis líderes da Tríplice Aliança.

O resultado desse período de grande insegurança institucional, com profunda interferência política dentro da Escola Militar da Praia Vermelha, onde o Positivismo implantara, desde 1874, idéias dissociadas das que deveriam conduzir seus Alunos à Carreira das Armas, foi a derrocada decorrente da Revolta da Vacina Obrigatória, em 1904, com intensa participação dessa Escola, então a de mais elevado padrão de excelência intelectual no Exército.

A Revolta, injusta e desorientada, contra medidas sanitárias do governo federal, demonstrou na escola, o rompimento dos três pilares da instituição militar: disciplina, hierarquia e o moral. A construção do espírito militar a partir do ensino naquela Escola de nobres lembranças estava, figurativamente demolida, por parte substancial de seu efetivo.

Muitos daqueles jovens tinham como crença que se aproximava o tempo de um mundo de conciliação que todos queremos, sem guerras, sem conflitos, que o século XX provou ser utópica. Incompreensível seria manter-se o desestímulo à preparação para a defesa, totalmente imprópria em um centro de ensino militar, onde se chegou a pregar a extinção das forças armadas, desnecessárias –como se justificava - naquele que seria um mundo pacífico. Todos conhecemos que se desejamos a Paz, é necessário preparar-se para a guerra.

O resultado da atitude pacifista na própria formação do Oficial era o orgulho com que o Alferes (Aspirante a Oficial) recebia o diploma que assegurava o título de Doutor em Ciência (Matemática, Engenharia), estar acima daquele referido ao posto militar que alcançara.

Diferente de 1870, ao se fechar a dramática luta no Prata, em que Ideal, Crença, Fé, Valores, Atitudes, Comportamento estavam gravadas no espírito dos principais chefes militares e seus comandados , reconhecendo o sentido de firmes e equilibradas lideranças, conducentes à Coesão da Força, seu maior tesouro: estejam convictos dessa verdade.

O EXEMPLO DO DUQUE DE CAXIAS

Concluída a Guerra da Tríplice Aliança, os bravos que haviam vencido a guerra e desta forma, haviam assegurado a vida econômica e a vida política do País, frustrar-se-iam por mais de trinta anos. Entre 1870 e o fim do século XIX, a falta de reconhecimento aos esforços e ao sacrifício de vidas daqueles militares do Império vitoriosos nos campos de batalha associado a um quadro duradouro de limitadas dotações para as forças de mar e terra, não contribuíram para o ensino de formação militar, senão na área científica.

Neste ambiente, o grande exemplo do Duque de Caxias residiu em que, mesmo finda a guerra, seu valor como cidadão e soldado permanecesse intocável em sua imagem de líder e mesmo os civis republicanos respeitassem aquele monarquista leal,probo, verdadeiro e responsável.

Ainda que fora do campo de batalha, era admirado, e com o Marechal Osório, ambos contribuíram até o final de suas vidas, por atitudes e metodologias diversas, para se manter a coesão do Exército.

E no quadro nacional, que dizer de um brasileiro como Luiz Alves de Lima e Silva, com tal nível de seriedade, honestidade, firmeza de caráter, e nenhuma jactância ou luta pelo poder político, que, sem nunca haver pleiteado, foi levado, pelo Império, a chefe do Gabinete de Ministros, por três vezes?

Enquanto o Duque de Caxias e o Marquês do Herval -, o Marechal Osório - viveram, o Duque, até 1880, e o Marquês no ano seguinte, menos de uma década após a vitória nos campos de batalha, o Império se susteve, e o Exército se manteve coeso, embora o Ensino Militar de Formação começasse a receber, em 1874 , as influências externas ao sistema de ensino de formação de Oficiais de carreira com o do Positivismo, que ainda com nobres objetivos sociais e humanos, enfraquecia a fé na profissão, dentro da própria Escola da Praia Vermelha.

Seria o mais sério desafio a ser enfrentado pelo Exército no campo educacional. Este era o ambiente geral em que o Aluno José Pessoa seria admitido, por concurso, em uma de nossas Escolas de Formação. Voltaremos a esse ponto.

Fique-nos o momento em que, perdida a ação de seus magnos líderes, o espírito militar sofreu desafios, vulnerabilizando seu sistema gerador de coesão, que tem início na formação de seus chefes militares.

A restauração do reconhecimento ao valor do Duque de Caxias só voltaria a tomar corpo institucional, em 1924.

Nesse ano, 1924, o Ministro Setembrino de Carvalho criou o Dia do Soldado Brasileiro, como a principal data comemorativa do Exército, no dia de seu aniversário, a 25 de agosto, apesar de restritas, ainda, as homenagens a nobres do Império. Seu objetivo: fortalecer a coluna vertebral do Exército, na República.

À época, o Major José Pessoa servia na Escola Militar do Realengo, como Fiscal Administrativo.

Aos poucos, a memória do Duque começará a ser recuperada no ensino militar e seu efeito multiplicador o levará, nos quartéis, a revitalizar a coluna vertebral enfraquecida.

Refulgira o nome tutelar do Marechal de Campo: era a segunda homenagem, na República, ao grande chefe militar.

Em 1925, o Major José Pessoa, ainda Fiscal Administrativo na Escola, assiste a outro momento importante para a formulação de seu projeto reformador do Ensino Militar, nesta mesma linha de culto ao Duque.

Como nos revelou o General e ex-Ministro da Guerra, Aurélio de Lyra Tavares, inspirados nos conselhos de dois professores de História Militar da Escola - os TC Pedro Cordolino, brasileiro e Béziers de Fosse, francês -, os alunos da Turma de Aspirantes-a-Oficial, daquele ano, decidem dar-lhe nome de um chefe militar brasileiro, tornando-o Patrono da Turma.

A escolha unânime dos ainda chamados Alunos da Escola recai sobre o nome do Duque de Caxias, a primeira das duas turmas a terem a honra de tê-lo como Patrono. A outra seria a de 1962, a que tenho a honra de pertencer, turma que veio a ter quase duas dezenas de Representantes, entre assistência ao comando, Instrutores e Comandantes de Curso e de Corpo de Cadetes, nesta casa, onde tive, também, a honra de servir por duas vezes.

O EXEMPLO DO MARECHAL HERMES DA FONSECA

Outra importante referência como base do Ideal que absorveu a alma militar do Marechal José Pessôa foi o exemplo de seu primeiro comandante no Exército, o então General Hermes Rodrigues da Fonseca, na Escola Prática e de Aplicação sediada em Realengo, um escola prática, onde se preparavam os oficiais de Infantaria e Cavalaria, antes de completarem seu curso na Praia Vermelha. E estamos tratando dos anos de 1903 e 1904, portanto, com fatos paralelos aos que ocorriam na outra Escola, a da Praia Vermelha.

O então General Hermes da Fonseca, profissional combatente, operacional, disciplinador, atento à missão específica de preparar o futuro Oficial de Infantaria e Cavalaria para sua função guerreira, era muito intelectualizado e, assim como polia o fio de sua espada, mantinha o cérebro e a pena ágeis e penetrantes. E se tudo sabia da disciplina militar prestante, acompanhava a vida política nacional, como é da obrigação de todo chefe militar; assim pensava e assim agia.

Imaginemos se o destino houvesse feito José Pessôa estar matriculado, à época da Revolta da Vacina Obrigatória, na Escola de Praia Vermelha. Por tudo o que se pode depreender de seus traços de caráter, teria seguido o mesmo caminho de seu grande futuro amigo, que viria a ser Comandante da Força Expedicionária Brasileira, Marechal Mascarenhas de Moraes: José Pessôa não teria participado da rebelião. Com a mesma lealdade de se posicionar contra ela.

Mas a Revolta não contagiou a Escola de Guerra, com tal perfil de formação profissional. Ela estava blindada, pela ação de comando de um verdadeiro Chefe.

Podemos resumir o que ficou marcado no Marechal José Pessôa, influências profundas de seu primeiro comandante: um chefe de idéias construtivas, voltadas para o cumprimento da missão constitucional e para o soerguimento do Exército; para o General Hermes, tratava-se de formar Alferes, Tenentes Comandantes de fração até Capitão, Oficiais Guerreiros.

Seu Ideal: formar oficiais para o soerguimento do Exército.

Para isto: inocularia, em cada aluno, crença na missão, no chefe, no Exército e em si próprio; despertaria em todas as situações, a Fé no futuro, com base na crença, estimulando-lhes Atitudes positivas e duradouras, e comportamento coerente com suas atitudes; só dessa forma, poderia ser soerguido o Exército daquele momento, se garantida a coesão das Forças Armadas e de nossa Força, nos limites de nossa competência, seu último e eterno esteio: estejam convencidos desta outra verdade.

E para isto, seria necessário formar líderes capazes de, em princípio, assumirem profundamente tais crenças e repassá-las.

Guardemos, pois, que foi este o exemplo que indicou a José Pessôa, o caminho da Carreira considerada como uma Profissão de Fé, expressão que tomo emprestada de um artigo do Gen Ex Manoel Luiz Valdevez Castro, brilhante cavalariano de origem, ex-Cadete da Turma de 1962, no artigo de número 16 da Revista Da Cultura, editada pela FUNCEB, um artigo que todos vocês devem ler, na direção do que estamos conversando.

Um caminho totalmente distanciado das ações dos vândalos da Revolta – na atitude, no gesto, na duração e no espaço. Foi um momento de grande importância para o jovem José Pessôa e que o tomou como o caminho a seguir.

Estejam convictos de mais uma verdade: assim como os mais consistentes conselhos de seu ex-comandante se fixaram em José Pessôa, os de seu Comandante nesta Academia, permanecerão em vocês, por toda a vida.

Porque eles lhes são repassados por todos os oficiais que os instruem, e esse é um resultado da coesão e da disciplina intelectual, asseguradas no Ideal Alcançado pelo Exército, proposto pelo Marechal José Pessoa, firmado em bases sólidas da História.

O Marechal Hermes acendeu-lhe a chama deste Ideal.

E encaminha-nos à interpretação do papel do Marechal José Pessôa na Reforma do Ensino de Formação de Oficiais de Carreira do Exército.

Por que não logrou o General Hermes, ele mesmo, de pronto, atingir este Ideal?

Porque o destino acelerou-lhe o passo em outra direção: o governo federal levou-o a ser o novo Ministro da Guerra, logo após a Revolta.

Era, ele, o homem certo para os tempos que viriam. Tempos de formar Tenentes guerreiros, mesmo que se destinassem às áreas técnicas ou científicas, todos voltados para a atividade-fim.

O novo ministro foi lógico e consequente. Fechou a Escola da Praia Vermelha, sem prejuízo de todas as sanções a que fizessem jus os revoltosos, envolvidos em atos graves que incluíam a morte de transeuntes e danos ao bem público.

Em seguida, seguindo uma das idéias predominantes, reuniu todos os alunos do Curso de Infantaria e Cavalaria, na Escola a que foi batizada como de Guerra, nome próprio para quem interpretara a missão como a de formar guerreiros.

Assim, tanto os que já estavam em séries superiores, na Praia Vermelha, quanto os que estavam iniciando em Realengo, entre eles José Pessôa, foram para a Escola de Guerra; os alunos de Artilharia e Engenharia, depois de uma parte do curso reunidos, foram para a Escola de Rio Pardo, ambas no Rio Grande do Sul.

INFLUÊNCIAS DE SUA FORMAÇÃO NA ESCOLA DE GUERRA, PA/RS

Quando José Pessoa chegou à Escola de Guerra, já era respeitado por seus companheiros. Sua seriedade não era motivo de segregação por seus colegas. Era um jovem que se divertia, com o que lhe parecesse salutar. E participava das atividades extra-curriculares - nada previsto no QTS oficial - que percebesse ser útil à profissão, - correr, nadar, por exemplo -, na linha de seu ex-comandante no Realengo.

Destacou-se por qualidades pessoais, tanto físicas, quanto técnico-militares; da terra de criatório de gado, trouxera, como já observamos, a perícia no montar; inteligente, objetivo, muito interessado nos assuntos profissionais, faria sempre restrições leais, face a face, a companheiros que, de seu ponto de vista, não estariam à altura da atitude e do comportamento moral e ético que aos poucos verificava estarem presentes nos bons oficiais instrutores selecionados pelo Ministro Hermes.

Instrutores que precederam o envio para a Europa daqueles outros jovens oficiais que se caracterizariam como os “jovens turcos” – alusão aos reformadores de Kemal Ataturk, na Turquia- e da auto-denominada “Missão Indígena”, futuros brilhantes instrutores da Escola Militar do Realengo selecionados por concurso. Positivamente, estava afastado da figura do “bom moço” , e sua rigidez moral e ética haveria de trazer-lhe sérias oposições.

Na Escola de Guerra, José Pessôa aprendera com Comandantes experientes, ex-combatentes, formadores de jovens oficiais, concentrando-se na formação do comandante de frações, sem as preocupações de tática das unidades ou da estratégia das brigadas, as bases de um conceito que considerará no comando em Realengo.

Mas o amenizará, em verdade, com a inserção de disciplinas humanísticas, de interesse militar, como os estudos de Geografia Militar com aplicações geopolíticas, dominadas pelo Capitão Mario Travassos, que deixou obras até hoje consultadas.

E disciplinas que levassem seus Cadetes à compreensão de seu papel constitucional, na vida social e política do País, conteúdo ministrado, nesta Academia, na Cadeira de Direito, mas do conhecimento crescentemente indispensável de todos os oficiais.

De todos os ensinamentos da Escola de Guerra, um o levou a conceber um pensamento que hoje se traduz na própria missão da AMAN :

“A guerra é uma arte toda de execução e do que o Exército precisa é de Oficiais aptos ao serviço, Oficiais robustos, enérgicos, conhecedores da profissão, convictos de sua missão militar, social e política, como oficiais de verdade”, constante de sua Ordem do Dia de Posse na Escola, 15 de janeiro de 1931.

INFLUÊNCIAS FRANCESAS

Em 1918, o tenente José Pessôa foi designado para a Comissão de Estudos de Operações de Guerra e de Aquisição de Material na França, onde estagiou na Academia Militar de Saint-Cyr. O quadro mundial evoluíra.

O Governo Brasileiro, em estado de guerra contra os Impérios Centrais Europeus, autoriza os oficiais brasileiros em estágio na Europa, a combaterem ao lado dos Aliados.

José Pessôa, parte de Saint-Cyr para a frente de combate.

Adido ao 4º Regimento de Dragões, toma contato com os pequenos e ferozes carros de assalto, que prometem modificar a Arte da Guerra.

Comanda, inicialmente o 7º Pelotão do 1º Esquadrão; depois o 1º Pelotão do mesmo Esquadrão. Um pelotão de soldados turcos.

Sua fé de ofício se enriquece a cada batalha, com as citações francesas.

* Do Coronel de Fournas, Comandante do 4º de Dragões:

“Conduziu seu pelotão sob o fogo em condições particularmente delicadas e perigosas. Distinguiu-se pela bravura e sangue frio, tendo solicitado permissão, por várias vezes, para reconhecer as primeiras linhas inimigas; o que levou a efeito debaixo de fogos extremamente violentos”.

Do Capitão Marchal, seu comandante de Esquadrão:

“Conduziu seu pelotão de maneira notável em todas as operações de guerra (ofensiva franco-belga de setembro, outubro e novembro de 1918)”.

Do Conceito do Estado-Maior do Exército Francês: “deixou no 4º de Dragões o conceito de um dos mais distintos oficiais e de um belo camarada. Muito instruído, apaixonado pela profissão, aproveitou todas as oportunidades para aperfeiçoar os seus conhecimentos militares. Ousado e brilhante sob o fogo, o Ten José Pessôa, que fez com o Regimento toda a campanha de Flandres, em 1918, ofereceu-se várias vezes para realizar missões perigosas. Incontestavelmente, tirou o maior proveito possível do seu estágio”.

Referência do General de Lassant, Comandante da 2ª Divisão de Cavalaria, em que, após iniciar: ”Oficial ardente e trabalhador, que exerceu durante alguns meses o comando de seu posto no Exército Francês em operações. Perseguiu o inimigo com o 4º de Dragões até o Escau (na região de Andenard)”, finaliza em síntese perfeita: “Excelente Oficial”.

Experiências que se firmariam em suas orientações relativas ao preparo a tropa: não é dele a frase, na realidade, de origem francesa, mas o seu significado, em todos os escalões em que comandou subunidades, unidades: “suor, poupa sangue”. Assim seria na Escola Militar do Realengo, onde contou com o apoio do futuro Chefe da 3ª. Seção da Força Expedicionária Brasileira, o então Capitão Humberto de Alencar Castello Branco; também, na Escola, vivia uma situação de liderança única: seu principal consultor francês, era suficientemente jovem para dele, brasileiro, ouvir aprendizados trazidos da 1ª Guerra, que o TC Paul Langlet, não tinha vivido, o que ampliava a admiração por Zé Pessoa, dito, assim mesmo, na intimidade das barracas que o fato de serem seus Cadetes lhes conferia.

VIVENDO O REAL, DE OLHOS E CORAÇÃO NO IDEAL

Voltemos à 1ª Guerra Mundial. O Capitão José Pessôa não retornou imediatamente para o Brasil. Um fato de profundo valor afetivo mudara-lhe o curso normal da vida durante o conflito mundial. Profissional combatente, haveria de conhecer o amor durante a guerra.

Era o ano de 1918, e em um Hospital Geral no interior da França, para onde fora enviado para tratamento médico, conheceu então uma bela jovem inglesa, Blanche Mary, enfermeira voluntária da Cruz Vermelha.

Ainda durante a guerra, aquecidos pelo calor de um delicado e mútuo amor, José Pessôa e Blanche Mary casaram-se, em 1918. Com os filhos Elisabeth, Joy e José (este chegaria a Brigadeiro , Comandante da Academia da Força Aérea) formariam família unida e feliz.

Terminada a guerra, e por justa razão, devido à experiência de combate em seu escalão, foi-lhe determinado prosseguir sua missão na Comissão de Compra, dirigida agora, aos Carros de Assalto.

Em 1921 - dois anos depois de aqui chegar a Missão Militar Francesa chefiada pelo General Maurice Gamelin, herói francês da Guerra Europeia, o Capitão José Pessôa obteve autorização para realizar um de seus mais fortes anseios: cursar o Centro de Estudos de Carros de Combate em Versailles.

Ao completar seu curso, com grande êxito, passava a ser o único oficial, na América Latina, capacitado em curso, e com experiência de combate, para comandar frações de tropas blindadas, sendo sua participação na aquisição dos carros FT17, muito valiosa.

O Capitão José Pessôa foi recebido com honras de herói na sua Paraíba. Nome de Avenida, discursos, artigos no jornal lembravam seus feitos.

Nada o tirou da direção profissional, apesar das tentativas da atraí-lo à vida política, o que poderia ser muito natural, se não possuísse verdadeira fé na profissão, considerando que o tio Epitácio Pessôa, em 1919, fora eleito Presidente da República e seu irmão João Pessôa seria Governador – chamava-se Presidente, à época – da Paraíba, em 1930.

Ao invés do caminho político, dedicava seus momentos livres nas merecidas férias na Parahyba, a passar para o papel - a mente fervilhando o futuro dos blindados no Brasil- conhecimentos práticos sobre os carros de assalto RENAULT FT17.

O resultado foi o brilhante “Os Tanks na Guerra Europeia”, primeira publicação sobre o tema na América Latina, que foi prefaciado pelo próprio General Gamelin.

O livro vaticinava o futuro êxito do motor na guerra: o carro e a aeronave. Era a sua personalidade inovadora e o sentimento do dever de repassar ao Exército e aos Oficiais, novos conhecimentos auridos em combate, algo que só ele poderia fazer, e fosse outra sua personalidade, estaria silenciada, com grande retardo para o desenvolvimento doutrinário de nosso Exército.

Em 1922, indicado pelo General Gamelin, assumiu o Comando da Companhia de Carros de Assalto, na Vila Militar, consequência lógica de seus atributos e sensibilidade dos chefes militares.

O Comando dessa Companhia permite-nos observá-lo como verdadeiro chefe na acepção da palavra. A Companhia estava localizada no quartel onde hoje existe o REsI – o 57º Batalhão de Infantaria Motorizado (Escola), unidade que viria a desempenhar, na década de sessenta, a primeira operação de paz com efetivo brasileiro de batalhão, no continente americano, com um êxito total: este ano completam-se 45 anos de paz , na República Dominicana, após sua restauração pela Força Interamericana de Paz, na mesma ilha em que, hoje, brilha a MINUSTAH, no Haiti.

A valorização daquela pioneira unidade blindada do Brasil, sob comando do Capitão José Pessôa, seria a primeira experiência de um comando de um grupo consistente de combatentes e, certamente a influência do que aprendera na França iria se revelar, de início, pela motivação nascida da valorização social de seus subordinados.

Valorizar o soldado, muitas vezes, àquela época no Brasil, quando o soldado recruta era sorteado e poderia vir da cidade ou do interior, representava transformar por vezes, homens rústicos, analfabetos, acostumados a usar como talheres as próprias mãos, em homens asseados, hígidos, que ao retornarem aos seus locais de origem, levassem uma nova visão de vida.

Para o Capitão José Pessôa, como para todos nós, hoje, o Exército não poderia devolver à vida civil um homem adestrado para vencer no combate sem que se lhe oferecesse igual destreza para o sucesso no retorno à sociedade e para tentar, por caminhos honrados, a vitória.

E assim, a Companhia de Carros de Assalto se tornou atípica em relação às demais: mesas do rancho dos soldados com toalhas alvíssimas, talheres de boa qualidade, copos e não canecas de lata, aulas de alfabetização, cuidados sanitários que –pareciam a muitos, beirar o exagero – e, até, bailes para os quais convidava a sociedade dos bairros de Bangu e Realengo.

Todas essas medidas de valorização social de seus homens conviviam, no entanto, com a dureza de um trabalho intenso, no próprio nascedouro da mentalidade de mecanização, de sua manutenção e de seu emprego adequado às condições brasileiras, com rigidez disciplinar e fortalecimento moral de sua tropa.

Por esse motivo, em pouco tempo, sua tropa tinha espírito de corpo, tinha orgulho em usar a “bandagem”– tipo de perneira de fita – e o capacete dos blindados.

Um espírito de corpo que, canalizado em favor da Instituição, levaria seus soldados a serem tão bons do cumprimento das várias missões operacionais na Revolução de 1922 quando à mesa ou nos bailes.

Era a influência nítida de Saint-Cyr, que perduraria em sua consciência militar. E se assim fora com soldados, assim seria com seus Cadetes, futuramente, por mais fortes razões, desde quando ocupara o cargo de Fiscal Administrativo da Escola Militar do Realengo, em 1923.

Em 1927, designado Comandante interino do 1º Regimento de Cavalaria de Guardas (Y 71), mais uma vez exercita todo o seu potencial inovador, criador, idealista: transforma-a em unidade de elite, reformando-a profissional e materialmente, cria os uniformes dos Dragões da Independência e lança, no País o jogo de polo. Manifestações que vão confirmando traços que lhe marcavam a personalidade.

O MOMENTO HISTÓRICO DE SUA VIDA

Em 1930, eclode a Revolução Liberal, que viraria a página da chamada República Velha. Chegara o momento histórico de sua vida. Sem que a emoção do assassinato de seu irmão João Pessoa lhe turvasse a razão, não se faz revolucionário ao acaso, nem por vingança, nem se rebela contra a Instituição. Sente ser aquele um momento de decisão histórica e como sempre, segue os desígnios institucionais.

O Coronel José Pessôa , cumprindo ordens no canal institucional, assume o Comando do 3º Regimento de Infantaria, enquadra civis que se haviam apresentado voluntariamente, arma-os, e conduz esta tropa no cerco e investimento do Palácio Guanabara.

E aí, refulge em sua alma, mais uma vez, a luz dos exemplos de Caxias.

Em outras revoluções, em outras Nações, o epílogo do episódio poderia ser a marca do sangue do governante deposto na parede ou no chão do palácio.

Com José Pessôa, foi a firmeza na conciliação, sem abrir mão da deposição do Presidente.

Tratou-se do convencimento da segurança do Presidente deposto, como a melhor solução, em presença da ameaça dos revolucionários radicais. Não foi fácil convencê-los.

Então, de forma enérgica, propugna a prisão do Presidente e de dois Ministros que o acompanhavam, e assim, coloca-os sob sua custódia, em segurança até a saída do País, com a ajuda do Cardeal Leme, Arcebispo do Brasil, colocando-os fora de risco de vida, sem prejuízo para a liderança da Junta Governamental a qual se subordinava.

Ao final de 1930, vitoriosa a revolução, é Ministro da Guerra o General José Fernandes Leite de Castro, o mesmo que, como Coronel, havia chefiado a Comissão de Compra dos Carros de Assalto.

Propõe, ele, o nome do Coronel José Pessôa, de quem bem conhecia o valor, para o Comando da Escola Militar do Realengo: era o homem perfeito, naquele momento, para cumprir a missão que lhe seria destinada, com verdadeira paixão, sem a qual, escrevera o filósofo Blaise Pascal, nada de grandioso se faz.

A missão: formar Oficiais para um Exército DE GRANDEZA.

Do estudo do papel do Marechal José Pessôa na evolução do Ensino de Formação de Oficiais de Carreira no Exército Brasileiro flui, como traço permanente de sua personalidade militar, o idealismo. O outro traço essencial de sua atuação foi a perseverança, capaz de conduzir seu plano desde a fase do idealismo até a do realizável, na busca de objetivos do Exército Brasileiro, à sombra do Duque de Caxias.

E durante todo o processo, nos bons e nos difíceis momentos, seu caráter, que impulsionou, com obediência à Verdade, à Probidade, à Lealdade e à Responsabilidade, indiscutíveis

traços de liderança, no sentido da evolução institucional e não de contemplação crítica, porém estática e permissiva, da realidade.

O dia 15 de janeiro de 1931 é histórico, para o Ensino de Formação do Exército.

Nele, reacendeu-se a chama sagrada do valor histórico do Duque, no coração do Cadete.

A verdade é que a partir daquele dia de posse de José Pessôa, os ex-Cadetes foram os grandes impulsionadores, como sangues novos que são, pulsando nas artérias do Exército e os grandes multiplicadores, particularmente quando retornavam como instrutores ou Comandantes.

Era a reação em cadeia de que nos fala atualmente, o Vade-Mecum do Cerimonial Militar do Exército.

Nunca mais o silêncio, a omissão do nome do grande chefe militar brasileiro, de suas virtudes. Desde então, os significados de Idéias, Ideal, Crença, Fé, Valores, Atitudes, Comportamento, Honra, Liderança, ganhariam uma nova energia na força terrestre. E tais valores, trazidos do exemplo do Duque de Caxias integraram-se, definitivamente, como um sistema gerador e mantenedor da coesão do Exército.

Este é o centro vital da interpretação do papel do grande Chefe Militar José Pessoa: formar o futuro Oficial Brasileiro à Luz dos Exemplos do Duque de Caxias, visando líderes capazes de manter o Exército uno e indivisível.

O IDEAL DO CADETE DE CAXIAS

Em sua vida, essas bases que selecionei foram alicerces indestrutíveis, pelos quais José Pessôa, ao compor o conjunto de bens materiais que conformam o que se apresenta de forma concreta como seu Ideal, visava o abstrato, o espiritual, a construção de um edifício moral e ético, que só o indivíduo pode avaliar em si mesmos: sua capacidade de atuar com absoluta sinceridade com uma palavra que já muito ouviram em discursos, ordens do dia e palestras: comprometimento.

Este é o fim último do Ideal vislumbrado por José Pessôa.

Formar Oficiais comprometidos com sua Profissão, tomando seu compromisso de Oficial como o mais importante de suas vidas, como muito bem sintetizou em sua análise do Compromisso, em palestra neste Teatro, ao ser homenageado por sua passagem para a Reserva, o General de Exército Alberto Mendes Cardoso, da qual destaco dois segmentos: “tratar com bondade os subordinados” – longe da idéia do chefe “bom moço”, que lhe corrompe o sentido - , e “com o sacrifício da própria vida, se preciso for”, que, lhe atribui o maior risco de responsabilidade, e a que aduzo, no que envolva a própria existência e das repercussões sobre seus comandados e a família. Um tão sério compromisso não se esgota em uma solenidade. Ela foi criada para ressaltar-lhe a gravidade do comprometimento.

O que nos faz um grupo que se diferencia na sociedade é o fato de sermos formados na mesma Academia, que com mudanças de nome, vem desde 1811, com a convicção do comprometimento.

É uma categoria de diferença difícil de ser compreendida por quem não tenha a profissão militar como uma Fé.

Nos segmentos civis da sociedade há um grande contingente de brasileiros que compreendem este bem imaterial, internalizado, espiritual, mais do que o formal, e que nada tem com elitismo social pedante, de que por vezes acusam José Pessôa de ter implantado com as manifestações formais das solenidades e dos uniformes.

É de uma elite de outra natureza, a do Ideal do Cadete de Caxias, difícil também de ser compreendido pelos que só a compreendam como a de exclusiva origem consangüínea, ou a derivada do poder material ou político.

Estamos tratando de uma outra categoria de elite, aquela que se gera nas nossas Academias Militares, por seu conteúdo moral, ético e profissional, que envolve apenas brasileiros que, voluntariamente, assumem, no Exército, os códigos morais do Cadete, o compromisso do Espadim, e ao concluírem o curso desta Academia, professam o compromisso de Oficial, no qual oferecem a vida em defesa da Pátria, se preciso for, em tempo de paz ou de guerra. Esta é a nossa Profissão de Fé.

O Ideal do Cadete de Caxias induz à crença de que o exemplo de Honra que envolveu os valores do nosso Patrono, geraria em seus Cadetes uma atitude construtiva, de Fé no futuro, e assim formados, geração a geração, seus comportamentos de líderes equilibrados, corajosos, respeitadores da Verdade, da Probidade, da Lealdade e da Responsabilidade, estimulariam , uma reação em cadeia, de confiança nos chefes, e gerariam a sinergia deste sistema mantenedor da coesão do Exército, enquanto o Ideal do Cadete de Caxias se mantivesse.

Enquanto, em verdade, o Duque de Caxias for considerado, como todos sabemos que foi, o mais excelso e completo de nossos heróis brasileiros. Enquanto for compreendido e aceito por todos nós, como nosso principal herói nacional, e nosso Patrono.

Daí todo o conjunto de bens formais com a mesma simbologia voltada ao respeito à memória do Duque de Caxias, há 80 anos ser honrada pelo avô, pelo pai, pelo filho e pelo neto. Sejam todos militares ou não, foram atingidos pela Fé, pelas crenças, pelas atitudes, pelos valores, pelos comportamentos desta elite moral e ética, comprometida, que conforma , no seu mais amplo bojo, o que denominamos Família Militar.

É o que se deve à luz de Caxias sobre todos nós, acesa por José Pessôa.

Essa era sua missão de Grandeza.

Enquanto estivesse vivo, e vivo estivesse seu Ideal no coração de apenas um chefe com ímpeto parta reacender a chama, se um dia se debilitasse, a firme crença do Duque alimentaria a fé militar e lhe daria o lume da verdade rediviva, na alma militar de cada um de nós.

Para que o Ideal se firmasse na alma de cada Cadete, José Pessôa e seus principais auxiliares, os então Capitães Mário Travassos e Alexandre Chaves, acompanhados do jovem Dr Raul Penna Firme, o excelente Arquiteto da AMAN, que desde 1931, compôs a equipe, com inúmeros planos para cada local que se intentasse sua construção, até 1938, quando a Academia realmente começou a ser edificada até 1944, quando foi entregue à consolidação do Ideal Alcançado.

Enquanto se tratava da construção de “uma nova Escola prometida”, os Cadetes no uso de uma expressão de cadete, vibravam intensamente, com o que assistiam e viviam.

O conjunto de medidas valorizadoras do Cadete:

- pela criação do Corpo de Cadetes, como centro de energização profissional, emulador dos necessários padrões de disciplina, hierarquia e moral do futuro Oficial; no dizer do ex-Comandante, ao criá-lo em 25 de agosto de 1931:

“ Sois, pugilo de moços, os fundadores do Corpo de Cadetes da Segunda República!”

“Aqui estão presentes patrícios de todos os aspectos da Federação: o litoral, o sertão, as planícies, as serras, as florestas. Todas as regiões de nossa Pátria têm filhos destacados nesta Escola. No Corpo de Cadetes, se sente o palpitar do Brasil unido”.

- pela criação do Espadim do Cadete

“Reprodução da espada gloriosa de cujo aço se forjaram os elos da união nacional, este símbolo haveria de ser o atributo mais importante do Cadete, primeiro troféu a ser conquistado e o último a ser devolvido ao Exército: a miniatura do sabre do Marechal de Campo Luiz Alves de Lima e Silva, ex-Cadete e pilar sustentáculo da Nação Independente. Sabre heróico, forjado em vitórias magnânimas. Sem traços de prepotência, arrogância ou revanchismo”.

- pelo uso dos Uniformes Históricos, que as condições objetivas e pragmáticas da vida moderna aconselharam ser restrito a solenidades e representações específicas;

“Esse programa formou a idéia da criação de um tipo de fardamento definitivo para o Cadete, até então envergando uniformes inexpressivos, que nada diziam com o histórico da nossa indumentária militar”.

- pela expressiva e sóbria caracterização do contorno orográfico e da legenda das Agulhas Negras em seu Brasão, e das Armas de sua configuração original ;

“Assim é que, fácil e rapidamente, a mentalidade do Corpo de Cadetes assimilará as forças psicológicas que se encontram condensadas no brasão. Eis porque é de se esperar que, em curto prazo, a nova entidade que deve ser o Corpo de Cadetes se manifeste amplamente no cenário das atividades do Exército, e, consequentemente, da Nação.” - Capitão Mário Travassos.

Pelo conjunto de bandeiras históricas, a nos lembrar da necessidade de permanente integração de nossa nacionalidade, desde a situação de Colônia.

Pelos projetos da Academia Militar das Agulhas Negras, de autoria do saudoso Dr. Raul Penna Firme – o “Arquiteto da AMAN” – e sua construção;

O Ideal do Cadete de Caxias não foi, portanto, algo voltado para a elegância e à beleza dos uniformes, ou o belo que seria o Cadete ter um espadim. Toda a construção visava muito mais do que sua manifestação material e formal. Era a motivação psicológica para elevar o Cadete a ser um seguidor dos exemplos magnos do Patrono.

“Realmente, o segredo, a mola real do quanto conseguimos naquela época, em que o País atravessava uma das mais turbulentas fases de sua existência, está no campo moral, ou melhor, psicológico. Foram visados, sobretudo, a alma e o coração da juventude candidata a Oficial”.

A DÍVIDA DE TODOS NÓS

Uma das características da idealização é sua dependência a variáveis fora de controle do idealizador. Tal característica não deve inibir o idealismo que cada um de vocês trás de forma latente em suas personalidades.

Não deixem inibir seus ideais em bem do Exército, por imaginar que aquelas variáveis impedirão seu desiderato.

O exemplo que nos deixou o Marechal José Pessoa, também neste plano, é de inestimável valor. Ele nos ensinou que há um momentum, uma oportunidade histórica de sua formalização, institucionalmente configurada, no caso dele, como Comandante da Escola Militar do Realengo, ainda que, desde Aluno, o Marechal Hemes já lhe houvesse inoculado a Fé na Profissão, o que poderá ocorrer a vocês, animando seus espíritos com a luz de uma grandiosa idéia.

E, então, ouvirão a frase do grande chefe: não basta “um bom Ideal; é preciso que ele se transforme em realidade”.

Chegará o momentum adequado de formular a proposta. E não se desanimem se não for de pronto aceita. Estejam certos também desta outra verdade: a Instituição, dure quanto durar, um dia a acolherá, se realmente for uma idéia com frutos proveitosos para o Exército.

José Pessoa viveu isto em alguns momentos e nem todo o seu projeto foi concretizado. Mas ele alcançou seu Ideal, cuja fundamentação, como espero lhes haver deixado límpido, não era material.

Mas a dívida que com este Chefe temos, só de alguns anos , quando de seu centenário, passou a ser oficialmente resgatada.

Mas, na atualidade deste ano do bicentenário da Academia Real Militar, projeta-se para a homenagem permanente ao Marechal Duque de Caxias, seu Memorial nesta Academia, o que representará ser o símbolo maior à consolidação do Ideal Alcançado pelo Marechal José Pessoa, já demarcado pelo belo Memorial que lhe foi destinado, instalado pelo General Comandante da AMAN, à entrada do novo Conjunto Principal.

AS PALAVRAS DE ENCERRAMENTO

O General José Pessôa, em 12 de setembro de 1949, viveu seu último dia no serviço ativo, neste espaço sagrado, onde seu espírito, por certo, habita, protegendo a todos que aqui comandam, servem, prestam serviço e estudam .

Ao final daquele dia, de seu aniversário, rico em sucessivas emoções, o Marechal, assumiu o púlpito e apresentou um muito sincero e emocionado agradecimento.

Trago-lhes algumas daquelas palavras do Marechal. Imorredouras, um bem a se fixar e que nosso Comandante, General Pujol, empregou em solenidade recente, e que a cada dia se firmará como uma verdadeira ORAÇÃO DO CADETE.

[Mestre de Cerimônia, áudio:

“A Guarda formada por seus Cadetes, representará sua presença entre nós, com sua espada de Oficial General.”]

ATENÇÃO BANDA DE MÚSICA:

INICIA A MARCAÇÃO DAS CAIXAS E TARÓIS, CADÊNCIA LENTA, E A GUARDA COMEÇA SEU MOVIMENTO.

CAIXAS E TARÓIS PROSSEGUEM ATÉ O ALTO DA GUARDA.

A GUARDA SE COLOCA EM DISPOSITIVO NO MEIO DO PALCO, VOLTADA PARA O PÚBLICO.

NO PALCO, APENAS O FOCO SOBRE A GUARDA, E A LUZ DO PÚLPITO.

A Banda inicia a música de fundo.

[Áudio do Mestre de Cerimônias:

Palavras do então General de Divisão JOSÉ PESSÔA CAVALCANTI DE ALBUQUERQUE:

“Meus jovens e dignos camaradas:

Fixai bem a responsabilidade que tendes sobre os vossos ombros;

os deveres para com a Pátria e a Constituição,

para com o povo, que vos dá as armas;

para com o Exército, que vos aprimora a cultura e que de vós tudo espera.

A vida do Marechal Duque de Caxias deve ser o vosso guia e o vosso exemplo,

pela messe interminável de virtudes que nos legou

e que são o apanágio de sua glória

e o tornaram o maior Soldado da nossa Pátria.

Sede bons, humanos e justos,

trabalhai com altruísmo, firmeza e honestidade;

cumpri com devoção o vosso dever

e estareis servindo à Pátria com toda a dignidade”. ]

MÚSICA AUMENTA , E LOGO DECRESCE, PARA LEITURA:

PALESTRANTE:

Após mostrar que sem Fé, não se consegue materializar um ideal, e que a Fé é dirigida àquilo em que se crê, o General José Pessôa disse:

“Eu vos revelarei em que creio:

(Oito Cadetes, distribuídos na platéia, proferirão em voz firme e clara, cada um dos oito credos).

* 1º de Infantaria: - Cadete ..... Curso de Infantaria:

“Creio na vossa inteligência e na cultura que estais adquirindo nesta Academia”;

* 1º de Cavalaria: - Cadete ..... Curso de Cavalaria:

“Creio na vossa dedicação, na vossa fé nos destinos do Brasil”

* 1º. de Artilharia: - Cadete....Curso de Artilharia

“Creio no vosso patriotismo, que há de renovar o Exército e levá-lo à posição de mantenedor da paz no nosso Continente”

1º. de Engenharia: - Cadete... Curso de Engenharia...SL

“Creio na rija têmpera da vossa juventude, que tudo há de levar por diante num clima de honestidade, pureza de caráter, de trabalho fecundo e de coragem cívica”;

1º. de Intendência: - Cadete....Curso de Intendência...SL

“Creio na vitória de vossas armas e de vossos ideais”

1º. de Comunicações: - Cadete....Curso de Comunicações

“ Creio no vosso destino glorioso”

1º. de Material Bélico: - Cadete... Curso de Material Bélico.

“Creio no nosso Exército”

1º. Do Curso Avançado: - Cadete....Curso Avançado

“Creio na grandeza e na pujança da nossa Pátria”

[Mestre de Cerimônias (Áudio)

Retirar-se-á a guarda com a espada de combate do Marechal José Pessoa. ]

PALESTRANTE:

Ao Comandante da AMAN, Sr General Pujol, o eterno agradecimento, pela honra de participar mais uma vez, da vida de nossa querida Academia;

a todos os presentes, nesta Academia, neste ano tão especial, do Bicentenário;

aos Cadetes de Ontem – os pioneiros deste Academia- e todos os demais aqui presentes – desejo agradecer a atenção que dedicaram.

Aos Cadetes de Hoje, transmito para que as retransmitam, pelo Brasil a fora, as últimas palavras de aconselhamento do Marechal José Pessoa:

“ Cada um de vós é um exemplo vivo das mais caras aspirações do Exército Nacional, traduzido na seguinte fórmula que vos recomendo:

“ Disciplinar-se para disciplinar a outrem”

“Instruir –se para instruir a outrem”.

“Educar-se para educar a outrem”

“Fazer-vos obedecer requer domínio de outrem, o que, por sua vez, exige domínio de vós mesmos”.

“Cadetes: ides comandar, aprendei a obedecer”

Muito obrigado