MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964

MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964
Avião voa sobre a orla carioca em 31/03/2014, ostentando faixa com os seguintes dizeres: "PARABÉNS MILITARES - 31/MARÇO/64 - GRAÇAS A VOCÊS O BRASIL NÃO É CUBA". Clique na imagem acima para acessar MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964 - uma seleção de artigos sobre o tema.

quarta-feira, 16 de março de 2011

O delator premiado

http://oglobo.globo.com/pais/noblat/post.asp?cod_post=368303&ch=n

Enviado por Ruy Fabiano -

12.3.2011

política

O delator premiado

Tão indecente – e ilegal - quanto uma candidata a deputada federal receber dinheiro ilícito das mãos de um corruptor, incrustrado na máquina do governo do Distrito Federal, é esse mesmo corruptor estar não apenas livre, mas no comando de um processo de denúncias, manipulado segundo seus interesses – não os da lei.

O corruptor, todos sabem, é o ex-policial Durval Barbosa. A corrompida, a hoje deputada federal Jaqueline Roriz, filha do ex-governador Joaquim Roriz. Ela recebeu R$ 50 mil em dinheiro, em flagrante registrado pelas câmeras de Durval, na campanha de 2006.

Somente cinco anos depois, o ex-policial, que servia ao governador Joaquim Roriz, decidiu denunciá-la. Antes, pôs na cadeia o então governador José Roberto Arruda e expôs alguns de seus principais aliados, defenestrando-os da política.

Posou de herói, pois estaria arriscando a própria pele para redimir-se de ter participado de uma quadrilha que lesou o Estado. Protegido pelo instituto da delação premiada, fez circular a informação de que possuía muitos mais vídeos que os divulgados – algo acima de uma centena -, o que o manteve (e mantém) no comando do processo, tornando-o mais importante que a polícia.

Já aí há um imenso absurdo: se está sob delação premiada, não lhe cabe arbitrar quando e que vídeos irá revelar. Tem obrigação de entregar todos, e explicar por que não o fez antes.

Tudo, porém, ocorre sob a capa de normalidade. Durval circula por Brasília, vai a festas, sai em colunas sociais, como um cidadão normal, em dia com suas obrigações.

Até aqui, supunha-se que servia a Roriz, a quem de fato prestou relevantes serviços, liquidando a carreira de seu inimigo pessoal Arruda. Eis, porém, que agora se volta contra seu antigo patrono e alveja sua filha e herdeira política. Faz mais: derruba-a e põe em seu lugar um aliado, o também ex-policial Laerte Bessa (PSC-DF), suplente de Jaqueline e seu amigo.

Jamais um delator foi tão premiado. Ao que parece, a polícia deu-lhe o comando da política de Brasília. Se é verdade o que se disse na época em que os vídeos começaram a ser divulgados – que o mensalão do DF não era só do DEM, mas que contemplava todos os partidos, inclusive o PT –, Durval tem, em tese, todos sob seu comando. Nada mais surreal. Ou por outra, há algo mais surreal que isso: o fato de não ter havido intervenção política em Brasília após as denúncias iniciais.

A cidade viu-se sitiada por assaltantes do erário. O procurador-geral da República, Roberto Gurgel, apurou que a maioria da Câmara Distrital e figuras-chaves do Executivo formavam uma única quadrilha. Nesses termos, não fazia sentido os corruptos já identificados serem julgados pelos demais. Nem os suplentes escapavam. E encaminhou pedido de intervenção ao Supremo Tribunal Federal, que, não se sabe por quê, não o atendeu. Motivos e provas não faltavam; ao contrário, sobravam.

O que se seguiu era o esperado: a maioria dos parlamentares se reelegeu. Os que foram excluídos estão soltos, preparando sua defesa. E Durval Barbosa paira sobre todos, a lembrar que possui uma filmoteca mortal, que pode a qualquer tempo, como ocorreu agora com Jaqueline, tirar de cena quem ele achar que deva.

Em meio a tudo isso, constata-se que a criminalidade vem crescendo a números surpreendentes no Distrito Federal. Surpreendentes para os distraídos. Durval já percebeu isso há mais tempo. E trocou a função de policial pela de cineasta, uma espécie de Hitchcock do Planalto, a manter em suspense não apenas a plateia, mas também – e sobretudo – o elenco.

O seu Oscar é o mais valioso: a própria liberdade. Jamais um delator foi tão premiado.