MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964

MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964
Avião voa sobre a orla carioca em 31/03/2014, ostentando faixa com os seguintes dizeres: "PARABÉNS MILITARES - 31/MARÇO/64 - GRAÇAS A VOCÊS O BRASIL NÃO É CUBA". Clique na imagem acima para acessar MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964 - uma seleção de artigos sobre o tema.

quarta-feira, 16 de março de 2011

Infiltração e neutralização das Forças Armadas



Infiltração e neutralização das Forças Armadas

Carlos Azambuja 26 Janeiro 2005

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A infiltração política e ideológica do comunismo nas Forças Armadas objetiva, basicamente, ganhar adeptos e aliados, uma vez que a posição classista e internacionalista dos partidos comunistas só poderá obter verdadeira importância e exercer o papel dirigente que, segundo a doutrina científica, lhes corresponde na revolução, se for ampliada a sua influência entre os setores não proletários da sociedade, entre os quais os componentes das Forças Armadas.

Os comunistas recorrem à infiltração com o objetivo de tirar as Forças Armadas do controle institucional democrático e colocá-las a serviço da luta revolucionária. Afirmam expressamente que partindo da experiência histórica da luta de classes, os marxistas delineiam como uma de suas tarefas primordiais a de arrebatar os exércitos do controle da burguesia.

A experiência histórica dos comunistas remonta à atividade bolchevique para ganhar os militares, a qual contém fórmulas utilizadas até os nossos dias. O professor soviético V. Fomin reafirmou em 1971 que “conserva seu valor e atualidade” a atividade de Lênin e do Partido Bolchevique, que “realizaram um trabalho inflexível e sistemático no Exército para ganhar as tropas, romper o Exército burguês e criar posteriormente as Forças Armadas da revolução socialista” (Revista Internacional, fevereiro de 1971).

De conformidade com os textos marxistas-leninistas são válidas até os dias de hoje as seguintes experiências de infiltração:

- agitação e propaganda no seio das Forças Armadas, fundamentalmente por intermédio da imprensa, que sempre foi considerada pelos comunistas um poderoso instrumento de influência ideológica;

- criação de uma aliança revolucionária entre o partido e os militares, condição considerada indispensável para o avanço da revolução;

- criação de células do partido dentro das Forças Armadas.

O trabalho de infiltração nas Forças Armadas também objetiva dividí-las, uma vez que os comunistas supõem que em seu interior, em alguns países, ganham terreno tendências “patrióticas e democráticas”. Qualquer que seja o caminho revolucionário que se tome – armado ou não armado –, há necessidade de um trabalho político no interior das Forças Armadas com a finalidade de inclinar parte delas, quando estejam presentes as condições objetivas e subjetivas, para o lado da revolução.

O princípio geral de dividir o adversário e explorar suas contradições para debilitá-lo e, inclusive, utilizar parte de suas forças, sempre foi utilizado pelos comunistas de todo o mundo embora, segundo a doutrina, um aliado desse tipo, seja temporário, vacilante, pouco seguro e condicional.

Outro método comunista de imobilizar as Forças Armadas consiste em sua neutralização. Em inibir seu interesse pelas grandes decisões políticas, seguindo a máxima de que quem não pode ser cooptado deve ser neutralizado, buscando impedir que prestem ajuda efetiva à “burguesia em sua luta com o proletariado”, no caso de um eventual golpe de Estado ao estilo do ocorrido na Checoslováquia em 1948. Ora, o povo, desarmado e sem proteção armada institucional, render-se-á fatalmente à investida comunista. Desarmado o povo brasileiro já está...

Um outro objetivo da neutralização é o de impedir qualquer ação das Forças Armadas contra a implantação de um regime socialista, lançando palavras-de-ordem “contra o golpe de Estado” e “contra a guerra civil”. A suposta “defesa dos direitos humanos” e a liberação dos arquivos dos Serviços de Inteligência, sob a alegação de que isso levaria à suposta localização de mortos e desaparecidos durante a luta armada dos anos 60 e 70, como ocorre hoje no Brasil, são ações que também objetivam neutralizar as Forças Armadas e mantê-las em uma posição defensiva, como se culpadas fossem de, constitucionalmente, defenderem a Lei e a Ordem, impedindo que o país fosse transformado em uma republiqueta popular democrática.

Em uma outra etapa, na medida em que a socialização avança, os comunistas buscam tranqüilizar as Forças Armadas apoiando e elogiando hipocritamente o seu profissionalismo e a sua neutralidade política. Por outro lado, e finalmente, em um clima de aguda crise econômica, política, moral e social, é imprescindível para os comunistas recorrerem a métodos estritamente políticos para conter e neutralizar qualquer intento intervencionista das Forças Armadas em defender os “interesses das oligarquias”.



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O pensamento de Gramsci

Carlos Azambuja 27 Abril 2005

Arquivo

"Diz Goethe, quando a gente não sabe o que fazer, uma palavra é como uma tábua para o náufrago”.

(Olavo de Carvalho, “O Jardim das Aflições”)

O italiano Antonio Gramsci, um dos fundadores do Partido Comunista Italiano, foi o primeiro teórico marxista a compreender que a revolução na Europa Ocidental teria que se desviar muito do rumo seguido pelos bolcheviques russos. Nesse sentido, ofereceu um novo “Que Fazer” ao Ocidente desenvolvido. Aquilo que ele chamou de “sociedade civil” – rede de instituições educativas, religiosas e culturais que disseminam modos de pensar – era, na Rússia, incapaz de fornecer uma doutrinação moral e intelectual de caráter unitário, uma vez que o Estado czarista fundamentava-se na ignorância, na apatia e na repressão, e não no consentimento voluntário dos súditos. Na ausência de uma articulação complexa da “sociedade civil” em condições de absorver a insatisfação, a única defesa da velha ordem era constituída pelo aparelho do Estado, que Gramsci denomina de “sociedade política”. O conjunto difuso da “sociedade civil”, que propaga a ideologia da classe dominante, não existia na Rússia.

Segundo Gramsci, o objetivo da batalha pela mudança é conquistar, um após outro, todos os instrumentos de difusão ideológica (escolas, universidades, editoras, meios de comunicação social e sindicatos), uma vez que os principais confrontos ocorrem na esfera cultural e não nas fábricas, nas ruas ou nos quartéis.

Dessa forma, Gramsci abandonou a generalizada tese marxista de uma crise catastrófica que permitiria, como um relâmpago, uma bem sucedida intervenção de uma vanguarda revolucionária organizada. Ou seja, uma intervenção do Partido. Para ele, nem a mais severa recessão do capitalismo levaria à revolução, como não a induziria nenhuma crise econômica, a menos que, antes, tenha havido uma preparação ideológica.

Segundo a linguagem colorida de Gramsci, o proletariado precisa transformar-se em força cultural e política dirigente dentro de um sistema de alianças, antes de atrever-se a atacar o poder do Estado-burguês. E o Partido deve adaptar sua tática a esses preceitos, sem receio de parecer que não é revolucionário.

Lênin sustentava que a revolução deveria começar pela tomada do Estado para, a partir daí, transformar a sociedade. Gramsci inverteu esses termos: a revolução deveria começar pela transformação da sociedade, privando a classe dominante da direção da “sociedade civil” e, só então, atacar o poder do Estado. Sem essa prévia “revolução do espírito”, toda e qualquer vitória comunista seria efêmera.

Para tanto, Gramsci definiu a sociedade como “um complexo sistema de relações ideais e culturais” onde a batalha deveria ser travada no plano das idéias religiosas, filosóficas, científicas, artísticas, etc. Por essa razão, a caminhada ao socialismo proposta por Gramsci não passava pelos proletários de Marx e Lênin e nem pelos camponeses de Mao-Tsetung, e sim pelos intelectuais, pela classe média, pelos estudantes, pela cultura, pela educação e pelo efeito multiplicador dos meios de comunicação social, buscando, através de métodos persuasivos, sugestivos ou compulsivos, mudar a mentalidade, desvinculando-a do sistema de valores tradicionais, para implantar os valores ateus e materialistas.

O comunismo de Gramsci é a “versão ocidental” do comunismo, e ao proclamar o diálogo e aceitar o debate, próprios dos sistemas verdadeiramente democráticos, trabalha sobre todas as formas de expressão cultural, atuando sob a cobertura do pluralismo, com a contribuição de todos aqueles que por compartilhar a ideologia marxista, por snobismo, por conveniência ou por negligência, se somam voluntária ou involuntariamente a essa nova expressão do “frentismo”, chamando “fascistas” ou “retrógados” aqueles que se opõem a essa forma de pensar e atuar.

Nessa confusão de idéias, chega-se a substituir a contradição hegeliana de “burguês – proletário” (tese e antítese) pela de “fascista – anti-fascista”. O inimigo não é patrão e sim o fascista. Assim surge o mito do fascismo, que nada tem a ver com o fascismo histórico, sem dúvida questionável.

Quem quer que defenda os valores tradicionais da cultural ocidental é tachado de “fascista” e considerado genericamente como “um mal”. O grande erro dos comunistas, segundo Gramsci, foi o de crer que o Estado se reduz a um simples aparato político. Na verdade, o Estado atua não apenas com a ajuda do seu aparato político, como também por meio de uma ideologia que descansa em valores admitidos que a maioria dos membros da sociedade têm como supostos. A referida ideologia engloba a cultura, as idéias, as tradições e até o sentido comum. Em todos esses campos atua um poder no qual também se apóia o Estado: o poder cultural.

A necessidade de uma reforma intelectual e moral para lograr uma mudança de mentalidade nas sociedades ocidentais que foram constituídas por convicções, critérios, normas, crenças, pautas, segundo a concepção cristã da vida, é de suma importância para o triunfo da revolução mundial.

Porém, nesse propósito de formação de uma nova consciência proletária, o gramscismo encontra um obstáculo: a religião. De acordo com os estudos de Gramsci, a Igreja Católica, encarada como inimiga irreconciliável do comunismo, utiliza elementos fundamentais e comuns na sociedade, chegando a toda população, tanto urbana como rural. O catolicismo, segundo Gramsci, é uma doutrina geral simplificada a fim de ser entendida por todos. Analisando esse fato, Gramsci chegou à conclusão que uma das chaves da sobrevivência do catolicismo ao longo dos séculos foi o fato de que em seu seio conviveram harmonicamente humildes e elites, sentenciando que “a Igreja romana sempre foi a mais tenaz em impedir que oficialmente se formem duas religiões: a dos intelectuais e a das almas simples”.

Concluiu qu e é a Igreja Católica que inspira a formação desse sentido comum cristão e, por conseguinte, era preciso erradicá-lo mediante uma ação não violenta já que essa via seria repelida pelas sociedades ocidentais, onde influi e gravita o consenso e a vontade das maiorias. Gramsci afirmou que “os elementos principais do sentido comum são ministrados pelas religiões e, por isso, a relação entre o sentido comum e a religião é muito mais íntima do que a relação entre o sentido comum e os sistemas filosóficos dos intelectuais”. “Então - prossegue Gramsci – todo o movimento cultural que tenda a substituir o sentido comum e as velhas concepções do mundo deve repetir incansavelmente os próprios argumentos, variando suas ‘formas’”.

Dessa forma, as novas concepções se difundem utilizando sofismas, dando novas interpretações a fatos históricos e chegando a parafrasear o Evangelho em alguns casos, mostrando distintos “ensinamentos” de determinadas passagens bíblicas, tal como a expulsão dos mercadores do Templo de Deus, utilizando-os como argumentos para justificar a violência e fortalecer a imagem do “Cristo guerrilheiro”, criada pelos “cristãos revolucionários”.

Essas concepções, porém, não deverão ser apresentadas em formas puras, uma vez que o povo não as aceita na medida que provoquem uma mudança traumática. Para isso, devem ser apresentadas como combinações, explorando “a crise intelectual e a perda da fé na concepção que se deseja mudar”.

Por isso, diz Gramsci, não se deve enfrentar frontalmente a Igreja Católica, e sim criar os enfrentamentos em seu seio. Enfrentamentos que não sejam apresentados como provocados por causas exógenas e sim endógenas.

Acrescente-se que o marxismo de Gramsci se apresenta como uma interpretação “filosófica” distinta do marxismo conhecido. Não há filosofia e práxis; existe uma igualdade entre pensamento e ação ao ponto em que tudo é considerado ação. Em conseqüência, a “filosofia da práxis” deve ser elaborada partindo de uma equivalência entre filosofia e política, e deverá ser construída como ciência da história, posto que filosofia e história são indissociáveis. Diz Gramsci que “a filosofia da práxis supera as precedentes, por isso é original, especialmente porque abre uma via completamente nova, ou seja, renova totalmente o modo de conceber a filosofia mesma”.
Quanto ao papel dos intelectuais, ele deixa claro que a tarefa de agente da mudança na nova concepção de mundo não pode ser desenvolvida pelos intelectuais burgueses, considerados “o elo mais débil do bloco burguês”. Devem surgir “novos” intelectuais da massa do povo. Dessa forma, a tarefa a ser desenvolvida por essa “nova” elite será a de formar uma vontade coletiva e lograr a reforma moral e intelectual, agregando que uma reforma cultural que eleve os extratos submersos da sociedade não pode ocorrer sem uma prévia reforma econômica e uma mudança na sua posição social. Por isso, afirmou que “uma reforma intelectual e moral tem que ser vinculada forçosamente a um programa de reforma econômica”.


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O Estado e a Revolução

Carlos Azambuja 23 Fevereiro 2005

Arquivo

"De outro lado, a palavra 'ética' vinha mesmo a calhar, porque muitos dos intelectuais envolvidos na campanha haviam se tornado, nos anos que se seguiram à derrota da guerrilha, leitores e devotos do teórico da 'revolução cultural', Antonio Gramsci, o qual nos planos que delineia para a tomada do poder pelos comunistas, destaca uma tese que denomina de implantação do 'Estado ético'. (...) Mas, diz Göethe, quando a gente não sabe o que fazer, uma palavra é como uma tábua para o naufrago".

(Olavo de Carvalho, “O Jardim das Aflições”)

Diz-se que em março de 1969, o então presidente do Senado e dirigente do Partido Socialista, Salvador Allende – que no ano seguinte seria eleito, pelo Congresso, presidente da República - recomendou ao Ministro do Interior a leitura da obra de Lênin “O Estado e a Revolução”, expressando que ali aparecia a interpretação sustentada por eles, os marxistas, sobre o governo, o Estado e a sociedade burguesa.

É conveniente resumir os principais conceitos leninistas contidos nesse livro, em benefício do vasto setor da jovem opinião pública que não viveu os chamados “anos de chumbo” dos anos 60 e 70 no Brasil e em outros países, e também daqueles que não dispõem de tempo, paciência e nem estômago para literaturas desse tipo.

Embora Lênin tenha escrito esse livro em agosto de 1917, antes, portanto, da Revolução Bolchevique que liquidou a república instaurada em fevereiro desse ano após a queda do czarismo, seus postulados, para os comunistas de diversos matizes, ainda permanecem vigentes apesar do desmonte do socialismo real.

Em sua concepção de Estado, Lênin parte do princípio basicamente falso, porém muito conveniente para seus objetivos políticos, de que todo Estado, sem exceção, é um órgão de opressão de uma classe por outra. Opressão que é exercida fundamentalmente por meio do Exército, da Polícia e da Burocracia. Para Marx – analisando a Comuna de Paris - o Estado é “uma excrescência parasitária”; um poder central “tornado agora supérfluo”.

Prossegue Lênin, argumentando que a tarefa dos comunistas não consiste simplesmente em apoderar-se da máquina estatal e sim destruí-la, substituindo-a por outra onde mande e governe “a nova classe”. Assim, é instituído um novo Estado, o Estado proletário e a consequente ditadura do proletariado, a qual substancialmente é “um poder não compartilhado por ninguém”. É “uma organização centralizada da força, uma organização da violência”.

Conseqüente com a sua tese básica, Lênin reconhece que esse novo Estado, embora proletário, nem por isso deixa de ser Estado, e “enquanto exista o Estado não existe liberdade”. Dessa forma, Lênin caracteriza friamente, além da propaganda, a verdadeira essência dos países que vieram a ser governados pelo comunismo.

Posteriormente, já no Poder, Lênin definiu mais precisamente o conceito de ditadura do proletariado como “uma luta tenaz, cruenta e incruenta, violenta e pacífica, militar e econômica, pedagógica e administrativa, contra as forças e tradições da velha sociedade”. De uma forma mais científica, Lênin afirmou que a ditadura do proletariado era “um poder ilimitado, não restringido por nenhuma lei, absolutamente por nenhuma norma; um poder que se apóia diretamente na violência”.

Essa concepção da ditadura do proletariado, derivada da noção contida na obra “O Estado e a Revolução” implica necessariamente na aplicação do terror sob todas as suas formas. Em 1920, Lênin iria confessar que anteriormente à Revolução Bolchevique o partido havia condenado o terror “unicamente por motivos de conveniência”.

Em 1922, Lênin propôs a introdução de um absurdo parágrafo especial sobre o terror no Código Penal, assinalando que “os tribunais não devem eliminar o terror” e que era preciso “outorgar-lhe (ao terror) fundamento e legalidade como princípio”.

Na verdade, o terror em massa teve início em dezembro de 1917, com a formação da CHEKA, o órgão repressivo do “novo Estado proletário” e cujas funções foram assim descritas pelo “Semanário da CHEKA”, nº 1, 1918: “a CHEKA não é uma comissão investigadora, não é uma corte, não é um tribunal... não julga os inimigos e sim os extermina... não perdoa e sim pulveriza a todos os que se encontram no outro lado da barricada”.

Tudo isso sucedeu nos primeiros dias da revolução, continuou e aumentou durante a vida de Lênin e culminou com a orgia de sangue no reinado de Stalin que justificou o crescimento do Estado repetindo uma frase atribuída a Marx, segundo a qual o Estado nasce, cresce e fenece. Para Stalin, o Estado soviético estava ainda em fase de crescimento...

Fiel aos princípios enunciados em “O Estado e a Revolução”, Lênin não poderia tolerar a existência de outros partidos políticos. Todos foram aniquilados e seus dirigentes fuzilados.

Muitos jovens certamente dirão: Caramba! Eu não sabia!


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Comunismo e terror

Carlos Azambuja 17 Fevereiro 2005

Arquivo

A ditadura do proletariado é a dominação não restringida pela lei e baseada na força”.

(Lenine em “O Estado e a Revolução”)

Em 2005 a Organização das Nações Unidas comemorará 60 anos de sua fundação. Nesses 60 anos, entretanto, ainda não foi capaz de definir o que seja TERROR e TERRORISMO. Para alguns países, aqueles que explodem bombas, seqüestram e matam são terroristas. Outros países, todavia, os consideram lutadores pela liberdade.

Na Rússia de Lênin esse assunto nunca foi motivo para debates e indecisões. Desde o primeiro momento após a Revolução Bolchevique, o terror foi definido como “uma política de intimidação sistemática dos opositores, que inclui a sua exterminação física”, segundo a Grande Enciclopédia Soviética.

Essa foi uma definição ditada pela experiência, uma vez que a prática do comunismo se identifica com o terror. Utilizando a terminologia militar para descrever a atividade do Partido Comunista, Lênin escreveu no jornal “Iskra” em 1901: “Em princípio nós nunca negamos o terror e não podemos renunciar a ele. O terror é uma dessas operações militares que pode ser vantajosa e inclusive vital em um momento dado da batalha, quando um exército se encontra em certa posição e em determinadas condições”.

Como se observa, a utilização do terror depende das circunstâncias, das conveniências do momento, e de nenhuma forma deve ser rechaçado como princípio. Lênin aborda esse tema com maiores detalhes em seu livro “Esquerdismo, Doença Infantil do Comunismo”, investindo contra o revolucionarismo pequeno-burguês, que não é capaz de entender que cada forma de luta tem sua oportunidade específica e que o terror não pode ser empregado à la loca.

Logo após declarar que os marxistas renegavam os atentados e o terror individual, Lênin se explica: “Claro que nós condenamos o terror individual unicamente por motivos de conveniência. Porém, as pessoas capazes de condenar, por princípio, o terror da Grande Revolução Francesa, ou, em geral, o terror exercido por um partido revolucionário vitorioso assediado pela burguesia de todo o mundo, essas pessoas já foram condenadas para sempre ao ridículo e ao opróbrio”

Lênin considera que o terror individual não é útil enquanto o partido luta pelo Poder, porém nada impede que se aplique sem piedade o terror em massa tão logo o comunismo detenha o governo em suas mãos. Como o demonstra o exemplo histórico da URSS, o pretexto do “assédio burguês”, alegado por Lênin não tem valor algum. Hoje, Cuba, nessa mesma linha leninista, para justificar o terror, alega o bloqueio econômico.

A CHEKA, o primeiro órgão do terror, foi criada por um decreto de Lênin em 20 de dezembro de 1917, apenas um mês após a tomada do Poder e antes da Guerra Civil. Posteriormente, ao longo do tempo, adotou outras denominações: GPU, OGPU, NKVD, KGB. Atualmente o SERVIÇO FEDERAL DE INFORMAÇÕES é o sucessor dessas organizações.

Embora terminada a Guerra Civil o terror se estendeu e aprofundou-se, atingindo todas as camadas da população, grupos sociais e partidos políticos, convertendo-se em uma instituição permanente.

Em carta dirigida ao Comissário de Justiça, Dimitry Kursky, Lênin lhe enviou um projeto sustentando que “os tribunais não devem eliminar o terror e sim lhe outorgar fundamento e legalidade como princípio, claramente, sem falsificações nem adornos”.

Esse projeto de Lênin foi transformado no artigo 57 do Código Penal da extinta União Soviética, permitindo a matança legal de 10 milhões de pessoas


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Terrorismo como ele é

Carlos Azambuja 07 Julho 2008

Artigos - Terrorismo

Paradoxalmente, as organizações terroristas, que desprezam a lei e a ordem existentes, são freqüentemente respaldadas por essas mesmas leis que almejam destruir.

“É essencial fazer o processo de interrogatórios funcionar. A guerra contra o terrorismo não será decidida pelo poderio da mão-de-obra ou da artilharia, como na 2ª Guerra Mundial, mas localizando os terroristas e sabendo quando e onde os ataques futuros poderão acontecer. Esta é uma guerra na qual a Inteligência é tudo. Vencer ou perder depende de informações de Inteligência”.
(Cadeia de Comando – A Guerra de Bush do 11 de setembro às Torturas de Abu Ghraib, Seymor Hersh, editora Ediouro, 2004)

O texto abaixo é uma síntese de diversos artigos já publicados pelo autor sobre o tema Terrorismo. Contém, porém, alguns dados inéditos sobre o tema.

A possibilidade de uma organização não-estatal relativamente pequena e fraca infligir um dano catastrófico, é algo genuinamente novo nas relações internacionais e representa um desafio sem precedentes à segurança. Todo o edifício da teoria das relações internacionais é construído em torno do pressuposto de que os Estados são os únicos participantes significativos na política mundial. Se uma destruição catastrófica pode ser infligida por agentes que não são Estados, então muitos conceitos que fizeram parte da política de segurança ao longo dos dois últimos séculos – equilíbrio de poder, dissuasão, contenção e assemelhados – pedem sua relevância. A teoria da dissuasão, em particular, depende de o usuário de qualquer forma de arma de destruição em massa ter um endereço e, com ele, ativos que possam ser ameaçados em retaliação.

As regiões fronteiriças entre Afeganistão e Paquistão, e entre Paquistão e Índia, reúnem 65 diferentes grupos de guerrilheiros e terroristas. Somando-se a mais de 30 grupos atuando no Iraque, o resultado significa que a Ásia Central é a região mais turbulenta do planeta.

Segundo Nigel Inkster, diretor da área de Ameaças Transnacionais e Risco Político do Instituto Internacional de Estudos Estratégicos, o número de grupos violentos “não estatais” aumentou em 10% no último ano - são cerca de 400 em todo o mundo (coletiva de imprensa, disponível no site do instituto: www.iiss.org).


- Definição de terrorismo

Definir o que é terrorismo não é uma tarefa fácil. O terrorismo é uma forma de propaganda armada. É definido pela natureza do ato praticado e não pela identidade de seus autores ou pela natureza de sua causa. Suas ações são realizadas de forma a alcançar publicidade máxima, pois têm como objetivo produzir efeitos além dos danos físicos imediatos. Pode ser dito que o terrorismo é o emprego sistemático e premeditado da violência contra alvos não-combatentes a fim de intimidar governos e sociedades. Em toda a sua existência, a ONU não conseguiu obter um consenso para uma definição do que é terrorismo.

Vilipendiado pela maioria das pessoas, defendido pelos seus instigadores, a verdade é que o terrorismo conseguiu prioridade na cobertura da mídia. Sua incidência mais que dobrou nos últimos 20 anos e se transformou em um dos mais prementes problemas políticos da atualidade. Suas características multifacetadas, suas letalidade e imprevisibilidade, que não custam caro, tornam a prevenção e controle difíceis, dispendiosos e não confiáveis.

As definições abaixo comprovam que não há uniformidade nem mesmo entre os órgãos de Inteligência e de Segurança de um mesmo país sobre o tema terrorismo:

“O uso ilegal da força ou violência contra pessoas ou propriedades para intimidar ou coagir um governo, uma população civil, ou qualquer segmento dela, em apoio a objetivos políticos ou sociais” (FBI);

“O calculado uso da violência ou da ameaça de sua utilização para inculcar medo, com a intenção de coagir ou intimidar governos ou sociedades, a fim de conseguir objetivos, geralmente políticos, religiosos ou ideológicos” (Departamento de Defesa dos EUA);
“Violência premeditada e politicamente motivada, perpetrada contra alvos não combatentes por grupos sub-nacionais ou agentes clandestinos, normalmente com a intenção de influenciar uma audiência” (Departamento de Estado dos EUA).

Nessa lista de definições, o ponto comum fica evidente mas há diferenças de ênfase. O FBI frisa a coerção, a ilegalidade e as agressões contra a propriedade em apoio a objetivos sociais bem como políticos. O Departamento de Estado coloca a ênfase na premeditação, frisa a potencial motivação política de grupos sub-nacionais, mas não faz referência à violência espontânea ou à significação psicológica da ação ameaçada. O Departamento de Defesa, com mais abrangência, dá igual destaque à violência real ou ameaçada, cita uma faixa mais ampla de objetivos e inclui entre os possíveis alvos não só governos como também sociedades inteiras.

As definições de terrorismo conhecidas provocam interrogações. Uma delas: por quais critérios os terroristas devem ser considerados por executarem atos ilegais ou ilegítimos? Essa é uma questão que desperta a atenção dos cientistas políticos. Há concordância generalizada de que é importante examinar o contexto em que o terrorismo e os terroristas operam. Ou seja, os fatores históricos, sociais, econômicos, étnicos e até psicológicos que têm alguma influência sobre o pensamento, o comportamento e a ação dos terroristas (http://www.midiasemmascara.org/artigo.php?sid=5606&language=pt).

No Brasil, mesmo com a crescente pressão internacional, o governo não irá mais propor ao Congresso a tipificação do crime de terrorismo. Essa decisão – segundo o jornal O Globo de 15 de novembro de 2007 – de sepultar o projeto antiterrorista consta de um relatório do grupo criado pela Estratégia Nacional de Combate à Corrupção e Levagem de Dinheiro (Enccia), formado por representantes dos ministérios da Justiça, Defesa, Relações Exteriores, Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) e membros do Ministério Público Federal e do Judiciário. Após um ano de estudos, esses especialistas ent enderam que a classificação de terrorismo como crime “é inviável”. O Gabinete de Segurança Institucional, em relatório enviado ao Ministério da Justiça, comunicando essa decisão, alegou que qualquer definição “seria mortal para os movimentos sociais e grupos de resistência política”.

Também não existe lei no Brasil que defina o que é uma organização criminosa, segundo o ministro Cayres de Brito, do STF, em 17 de agosto de 2007, durante uma sessão do julgamento dos 40 quadrilheiros do Mensalão. A menos que se apreenda uma ata da criação de uma organização criminosa, dificilmente se poderá ter provas de sua existência, segundo o ministro.

Essas lacunas constituem, sem dúvida, um fator de força para o terrorismo e o crime organizado.

- O terrorismo e a Convenção de Genebra

Um dos mais condecorados militares, o general francês Massu, em seu livro A Batalha de Argel, fez a apologia da “tortura funcional, que poupa a vida da vítima mas obtém a informação necessária”. Defendeu a violação da Convenção de Genebra na Argélia, argumentando que os combatentes argelinos não eram soldados regulares e, por isso, não têm direito à proteção dada ao prisioneiro comum. O terrorista vitima não-combatente, põe bombas em aviões civis, em trens de passageiros comuns, matando mulheres e crianças. Argumento diverso não é o dos consultores jurídicos do governo Bush: “A Convenção de Genebra trata da guerra e não do terrorismo” (http://www.midiasemmascara.org/artigo.php?sid=2792).

- Objetivos e características do terrorismo

- O objetivo básico do terrorismo é buscar estabelecer um clima de insegurança, uma crise de confiança que a comunidade deposita em um regime, que facilite a eclosão ou o desenvolvimento de um processo revolucionário. Ou seja, objetiva criar artificialmente as condições objetivas que tornem factíveis uma revolução;

- O alvo, para os terroristas, é irrelevante, pois o que lhes interessa “não é a natureza do cadáver, mas sim os efeitos obtidos”, conforme escreveu Carlos Marighela, no final dos anos 60, em seu Minimanual do Guerrilheiro Urbano;

- Os prédios públicos, instituições e instalações que desempenham funções importantes e simbolizam a ordem vigente são os alvos preferidos. Também ataques indiscriminados e ao acaso contra a população, visando atingir suas atividades quotidianas, em supermercados, lojas, restaurantes, aeroportos, estações rodoviárias e ferroviárias, trens e metrôs, objetivando, nesse caso, fomentar um clima generalizado de medo e o sentimento de que ninguém está seguro, em parte alguma, seja qual for sua importância política, como foi o caso do atentado em 11 de setembro de 2001 às Torres Gêmeas, em Nova York, e 11 de março de 2004 a um trem de passageiros, em Madri;

- Uma das características que define o terrorismo moderno é a sua internacionalização, resultante de três fatores, até certo ponto complementares: a cooperação existente entre organizações terroristas; o fato de Estados nacionais soberanos apoiarem grupos terroristas e utilizarem o terror como meio de ação política, especialmente no Oriente Médio; e a crescente facilidade com que terroristas cruzam fronteiras para agir em outros países;

- Os terroristas não têm origem no proletariado e sim na chamada classe média, uma vez que a causa do terrorismo não é a pobreza e sim problemas políticos. A motivação política é a característica fundamental do terrorismo;

- Embora os grupos terroristas envolvam cerca de 80 diferentes nacionalidades, os mais ativos têm sido os palestinos, sendo que, para os grupos religiosos islâmicos, tanto o capitalismo como o socialismo são um mal. Eles dizem agir em nome de Maomé, com quem alegam ter ligação direta;
- As organizações dedicadas ao terrorismo começaram a agir sem vínculos entre si e sem inspiração ou ajuda externa. Hoje, todavia, coordenam suas atividades, prestam serviços umas às outras, emprestam-se homens e armas, compartilham campos de treinamento, e algumas têm por trás de si Estados que as financiam, que lhes dão guarida, armam, fornecem documentação e comandam suas operações;

- O terrorismo deve ser combatido de uma forma total e coordenada, sob pena de fugir ao controle. Uma defesa puramente passiva - o contra-terrorismo - historicamente não tem constituído um obstáculo suficiente para conter o seu desenvolvimento. O anti-terrorismo, ao contrário, sugere uma estratégia ofensiva, com o emprego de toda uma gama de opções para prevenir e impedir que atos terroristas ocorram, levando a guerra aos terroristas. Essa, todavia, não é uma tarefa simples. Exige Serviços de Inteligência altamente capacitados e governos determinados, uma vez que, nesse caso, as represálias são levadas a efeito antes que haja qualquer ataque. Antes, portanto, que sejam causados quaisquer tipos de danos. O anti-terrorismo é, portanto, uma resposta a algo que ainda não ocorreu. Nesse sentido, talvez não constitua surpresa o fato de Otto Von Bismarck, o grande chanceler alemão, ter comparado a guerra preventiva a “cometer o suicídio por medo de morrer”. É geralmente considerado legítimo recorrer à defesa violenta em resposta a graves ameaças que inflijam extensos sofrimentos humanos ou coloquem em risco a própria sobrevivência da sociedade. Todavia, esse critério da grave ameaça é escorregadio na aplicação específica. Como na maioria dos julgamentos humanos, a avaliação da gravidade da ameaça envolve sempre alguma subjetividade. A grave ameaça prescreve uma escolha de opções, mas a escolha de opções violentas também formata, muitas vezes, a construção da grave ameaça;

- É impossível proteger por todo o tempo todos os alvos em potencial, ficando assim, sempre, os terroristas, com a vantagem da iniciativa. Para que essa proteção fosse efetiva seria necessário implantar um Estado-policial, exatamente o tipo de situação que os terroristas gostariam que fosse criada, pois, assim, teriam um inimigo fascista para combater... em nome da democracia. Uma democracia não pode utilizar um cidadão em cada cinco para ser policial; não pode fechar suas fronteiras e nem restringir as viagens dentro do país; nem manter uma vigilância constante sobre cada hotel, cada prédio, cada apartamento em cada andar; e nem gastar horas revistando carros nas ruas e bagagens de viajantes nos aeroportos e em terminais rodoviários;

- Finalmente, assim sendo, uma das únicas defesas contra o terrorismo é a possibilidade de realizar uma infiltração com a finalidade de interceptar e conhecer antecipadamente quando e onde um alvo deverá ser atacado. Essa, contudo, é, como já foi dito, uma tarefa para um excepcional Serviço de Inteligência, aliada a dois componentes essenciais: vontade política e decisões que não temam riscos, mormente agora, em que o fundamentalismo islâmico substituiu o marxismo e o anarquismo como principal ideologia revolucionária utilizada para justificar, gerar e difundir o terrorismo. Todavia, é um fato de que quanto mais brutais forem as represálias contra o apoio da população às atividades terroristas, menor será o apoio ao governo. Por outro lado, também é verdadeiro que os grupos que se valem da coerção e do terror para conseguirem o apoio da população, colocam em risco os seus interesses de longo prazo e apresentam à Inteligência oportunidades para recrutar informantes e penetrar nas organizações terroristas ou insurgentes.

O objetivo de recordar os conceitos acima foi a publicação pela imprensa da oportunista - esse é o adjetivo correto - decisão dos representantes dos 192 países que compõem a Organização das Nações Unidas (ONU), aprovada em 8 de setembro de 2006, às vésperas do quinto aniversário do ataque às Torres Gêmeas, de “adotar uma estratégia global contra o terrorismo”. Isso, sem antes, durante toda a sua trajetória desde que foi fundada, conseguir definir para o mundo o que seja terrorismo de uma forma aceitável a todas as pessoas e Estados (http://www.midiasemmascara.org/artigo.php?sid=5220&language=pt).


- O terrorismo é a arma dos fracos

O terrorismo é a arma dos fracos. Existe, todavia, uma tendência nas sociedades ocidentais de identificar o “lado fraco” com o “lado justo”. Essa tendência faz com que as organizações insurgentes ou terroristas, ou ainda de ideologias religiosas reacionárias, mesmo agindo contra a maioria da opinião pública, contra os desejos da maioria do povo, aproveitem-se dessa tendência – “lado fraco”, “lado justo” - e usem a mídia para tentar aumentar o apoio à sua causa, embora nas atividades terroristas os civis inocentes tornem-se o alvo principal.

Apesar de ser considerada a arma dos fracos, o general Aleksandr Sakharovski, um dos chefes da KGB, definiu, em 1967, o novo rumo a ser seguido pelo comunismo internacional: "No mundo de hoje, quando as armas nucleares tornaram obsoleta a força militar, a nossa principal arma deve ser o terrorismo”. (citado por Olavo de Carvalho - O Orvalho Vem Caindo, Diário do Comércio, 05 de novembro de 2007).

Paradoxalmente, as organizações terroristas, que desprezam a lei e a ordem existentes, são freqüentemente respaldadas por essas mesmas leis que almejam destruir. Leis que garantem os direitos individuais e que buscam evitar que o governo penetre na privacidade das pessoas, que não permitem prisões indiscriminadas, que proíbem o uso de pressões irresistíveis durante interrogatórios e que determinam o seguimento estrito dos procedimentos legais. Tais leis servem como um dispositivo importante na proteção aos insurgentes e aos terroristas. Além disso, em nome da democracia, as leis geralmente não se opõem a que as organizações levem a cabo operações abertas para organizar-se, recrutar novos membros, publicar jornais e panfletos e até angariar fundos (http://www.midiasemmascara.org/artigo.php?sid=4988).

Apesar de todos os obstáculos legais, “é essencial fazer o processo de interrogatórios funcionar. A guerra contra o terrorismo não será decidida pelo poderio da mão-de-obra ou da artilharia, como na 2ª Guerra Mundial, mas localizando os terroristas e sabendo quando e onde os ataques futuros poderão acontecer. Esta é uma guerra na qual a Inteligência é tudo. Vencer ou perder depende de informações de Inteligência. Estamos diante de um inimigo que não luta, ataca ou planeja de acordo com as leis da guerra”. (Cadeia de Comando – A Guerra de Bush do 11 de setembro às Torturas de Abu Ghraib, Seymor Hersh, editora Ediouro, 2004).

Nesse sentido, o Novo Manual de Contra-Insurgência dos EUA (http://www.defesanet.com.br/zz/war_fm3-24.htm) define, em seu capítulo terceiro, que é “indispensável a preparação da Inteligência, no ambiente operacional e antecedendo as operações a serem realizadas”, ficando evidente a máxima que, na atualidade, numa campanha de contra-insurreição bem sucedida, é impositivo que “a Inteligência conduza as operações”.

No Brasil, recentemente, foi alterado o regulamento da Agência Brasileira de Inteligência–Abin, sendo criado um Departamento de Contra-Terrorismo, organismo que, conceitualmente, busca levar a guerra aos terroristas, imobilizando-os antes mesmo que pratiquem qualquer ato criminoso. Ou seja, uma busca pelo que ainda não foi feito, o que exige órgãos de Inteligência de alta qualidade. Tudo isso, contudo, não deixa de ser um paradoxo, pois como funcionará um Departamento de Contra-Terrorismo se nem os experts da ONU e nem os do governo brasileiro conseguiram ainda definir o que seja Terrorismo?

Tampouco, no Brasil, se conseguiu definir o que é uma organização criminosa (ministro Cayres de Brito, do STF, em 27 de agosto de 2007).

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Notícias de Jornal Velho: treinamento de guerrilha em Cuba
Carlos Azambuja 02 Fevereiro 2005

Arquivo

“Em vez de comandar uma coluna guerrilheira, o grande sonho de minha vida, vou ter que comandar uma coluna de carros oficiais em Brasília”.
(José Dirceu, por ocasião de um Seminário do PT dias 15 e 16 de abril de 1989).


Durante 13 anos (1961-1974), aproximadamente 300 militantes da luta armada no Brasil receberam treinamento de guerrilha em Cuba e na China (em números redondos, 250 em Cuba e 50 na China).

Os que sobreviveram foram anistiados e estão sendo recompensados financeiramente. Recompensados por terem sido derrotados na luta para instaurar no Brasil uma democracia popular, seqüestrando, matando, assaltando e "justiçando" alguns de seus próprios companheiros e até militares estrangeiros, como o Major do Exército da então Alemanha Ocidental, Edward Von Westernhagen, em 1 de julho de 1968, no Rio, o Capitão do Exército norte-americano Charles Rodney Chandler, em São Paulo, em 12 de outubro de 1968, e o Marinheiro inglês David Cuthberg, no Rio, em 5 de fevereiro de 1972. Os dois primeiros, observem, antes da assinatura do Ato Institucional nº 5. Isso é um paradoxo!

Militantes das Ligas Camponesas, ainda antes de 1964, e do Movimento Nacionalista Revolucionário (MNR), em 1965 e 1966 e mais tarde, até 1974, da Ação Libertadora Nacional (ALN) - organização na qual os cubanos mais apostavam -, da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), do Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR8) e do Partido Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR) receberam treinamento de guerrilha em Cuba. E militantes do Partido Comunista do Brasil (PC do B) e da Ação Popular (AP), freqüentaram a Academia Militar de Pequim nos anos de 1965 e 1966.

É interessante e altamente instrutivo conhecer a opinião de alguns militantes treinados em Cuba:
Maria Augusta Carneiro Ribeiro (“Natacha”, “Márcia”, “Renata”, “Sofia”), militante da Ação Libertadora Nacional (ALN), que integrou o grupo de banidos em setembro de 1969, em troca da liberdade do embaixador dos EUA no Brasil, seqüestrado no Rio de Janeiro pelo MR8, conta que 20 dias depois de os banidos chegarem ao México, veio o convite, através de enviados do governo cubano, para treinarem em Cuba, quando, então, assumiriam um compromisso com Fidel Castro: “Faríamos toda a propaganda anti-americana que ele queria e em troca, ele nos daria apoio para treinar, viver lá e voltar” (livro “Exílio: entre Raízes e Radares”, de Denise Rolemberg, 1999).

Em Havana, os militantes recebiam pseudônimos, documentos e eram instalados em aparelhos. Embora tivessem liberdade de circular pela cidade, não eram estimulados a entrar em contato com a população, segundo as orientações recebidas, por questões de segurança. Os militares cubanos os agruparam em turmas de aproximadamente 12 pessoas, de acordo com a organização a que pertenciam. Primeiro, era ministrado um Curso de Explosivos com um mês de duração, em um quartel na província de Havana, onde passavam a semana. Aí, aprendiam fórmulas, a montagem e a desmontagem de explosivos. Em seguida, iniciavam o Curso de Tiro ao Alvo e de Manipulação de Pistolas e Fuzis, que consistia em montá-los e desmontá-los com os olhos abertos e, depois, fechados.

Por fim, as turmas eram conduzidas para o interior do país, onde passavam cerca de 8 meses, no treinamento propriamente dito de guerrilha rural. Os militares cubanos cuidavam da preparação física dos militantes, davam aulas de tática e de cartografia, simulavam emboscadas, promoviam marchas e exercícios de tiro e de sobrevivência na mata.

Embora isso fosse levado muito a sério pelos integrantes de todas as organizações, as condições de treinamento que, supostamente, os colocariam no ambiente e nas situações de uma guerra de guerrilha foram considerados decepcionantes e despertaram críticas de vários militantes:

“Nós fomos para lá acreditando que íamos encontrar um treinamento que nos desse as condições próximas às que teríamos na guerrilha rural no Brasil. Mas nada disso ocorreu. Nós ficamos num barracão de madeira, onde havia uma cama para cada um; uma coisa rudimentar, mas havia. As refeições eram todas servidas por caminhões do Exército. Até para tomar banho tinha um cano... era um acampamento! Nós protestamos contra isso. Tentamos ganhar os cubanos para o fato de que nós queríamos dormir no mato todos os dias, por mais que isso fosse terrível. Porque aquilo ali era uma brincadeira. O próprio Zé Dirceu dizia que o treinamento era um teatrinho de guerrilha e o pior, um vestibular para o cemitério” (Daniel Aarão Reis, “Exílio, Entre Raízes e Radares. Denise Rolemberg, 1999).

Embora bem-intencionados, os instrutores eram primários do ponto de vista teórico e político. Longe da realidade que encontrariam na guerrilha, até as marchas eram feitas em trilhas. Apenas uma vez foi realizado um exercício com a duração de 24 horas, procurando se aproximar das condições reais: a chamada marcha da sobrevivência. Na ocasião, deixava-se o acampamento com as mochilas vazias e era preciso comer frutas, caçar, pegar água nos riachos, dormir ao relento: “Esse dia foi realmente terrível. Se a gente tivesse feito todo o treinamento nessa base, de duas uma: ou a gente não teria agüentado ou teria realmente adquirido uma certa familiaridade com aspectos sérios de uma guerrilha rural”. (Daniel Aarão Reis, “Exílio: Entre Raízes e Radares”).

Militantes do MR8 acabaram convencendo a direção de que o treinamento era dispensável, decidindo que os banidos que haviam chegado ao Chile em janeiro de 1971 não o fariam, causando-lhes enorme decepção. “A gente achava que não valia a pena, que era perda de tempo e consolidou a linha de que o treinamento sério seria montar sítios no Brasil, onde as pessoas ficariam 6 meses de mão na enxada (...) Aquele treinamento, na melhor das hipóteses, dava uma visão crítica do foquismo cubano; na pior, dava a ilusão de que você sabia fazer a guerrilha rural”. (Daniel Aarão Reis, “Exílio...” ).

Mas nem todas as organizações brasileiras interpretaram dessa forma a experiência. Prevalecia uma mitificação de Cuba, que as levava a assumir uma atitude subserviente e acrítica em relação aos militares cubanos. Valorizando o treinamento, os militantes valorizavam a si mesmos e a organização à qual pertenciam.

Para os brasileiros, em geral, originários da classe média urbana, que sequer haviam servido o Exército, o treinamento representou um enorme esforço, mesmo levando em conta sua artificialidade. Poucos conseguiam se sair bem dos exercícios e suportar o desgaste físico: “Me lembro que teve um exercício de derrubar árvores com um machado. Nos primeiros 50 golpes que eu dei brotaram logo bolhas enormes em minhas mãos”, conta Daniel Aarão Reis. Vera Silvia Araújo Magalhães fala do treinamento como “um esforço dilacerante, uma barra-pesada psicológica, e uma tensão que tornava a vida um tormento”. Maria Augusta Carneiro Ribeiro encarava esses exercícios como “um pesadelo e uma exaustão física permanente, um horror, um sofrimento”. (livro “Exílio...”).

Ao final do treinamento os militantes saiam do país com documentos preparados em Cuba ou na Argélia ou então, conseguidos por simpatizantes na Europa, ou seja, roubados em festas ou onde fosse possível. No horizonte, entrar no Brasil e dar continuidade à luta. A maior parte desses guerrilheiros treinados em Cuba e que conseguiram voltar, morreram em combates de rua. Os Órgãos de Inteligência possuíam informações sobre essas pessoas, conseguidas através dos depoimentos dos que eram presos ou fornecidas por aqueles que decidiram mudar de lado. O caso mais conhecido foi o do “Grupo Primavera”, ou “Molipo”, ou “Grupo dos 28”, saído da ALN, que foi dizimado, restando apenas quatro sobreviventes, entre os quais José Dirceu, que embora tenha sido aquinhoado pelos cubanos, com o grau de “comandante” (“Comandante Daniel”), regressou ao Brasil clandestinamente, com outro nome e homiziou-se numa cidade no Sul do país, não tendo participado de nenhum combate de rua, como fizeram seus companheiros mortos.

O testemunho de Maria Augusta Carneiro Ribeiro dá uma idéia do que significava, naquele contexto, a possibilidade da morte: o fato de pertencer a uma organização de vanguarda dava um sentido à vida e ao futuro e “não importava se esse futuro era morrer”. Achava que morreria ao voltar o que não a afastava desse objetivo: Segundo ela, “não era uma coisa prazerosa, mas muito lógica. Queria viver, mas era mais importante o papel que estavam me dando. Eu aceitava e achava que era correto”. Além disso, sentia-se em dívida com a Organização, por ter sido libertada através de uma ação de seqüestro.

Antes de regressar ao Brasil, Maria Augusta submeteu-se a uma cirurgia dentária, na Itália, objetivando mudar a fisionomia a fim de dificultar sua identificação no Brasil. No atual governo, foi nomeada para o cargo de “Ouvidora da Petrobrás”.

A ineficiência do treinamento oferecido pelos cubanos foi evidente, até mesmo para militantes completamente envolvidos pelo projeto da guerrilha. Talvez sua função fosse menos a de preparar guerrilheiros para uma luta, onde as condições e os recursos do inimigo eram tão desiguais mas, como interpretou Vera Silvia Araújo de Magalhães, a de compor “uma mitificação dos militantes, com uma verdadeira identificação a super-heróis”. Correspondia, portanto, à idealização do guerrilheiro voluntarista, cuja disposição seria capaz de mudar o mundo. Neste sentido, talvez o treinamento fosse justificado mas, talvez por isso tornou-se, na realidade, “um estímulo a um delírio” e “um vestibular para o cemitério”.

No caso dos militantes do MR8, eles partiam de Cuba para a Argélia em uma rota que passava pela Checoslováquia e por Moscou. Depois de um certo tempo na Argélia, onde a organização possuía uma base, iriam para o Chile e daí para o Brasil. No entanto, nos primeiros anos da década de 70, antes de chegarem ao Chile a situação já havia mudado consideravelmente: as organizações haviam sido desmanteladas pela chamada repressão e, em Santiago, a deposição de Allende anunciava um outro momento.

Nesse sentido, a próxima estação não seria o Brasil, mas o mundo.

José Anselmo dos Santos (cabo Anselmo”, Augusto”, ”Daniel”, ”Paulo”, ”Renato”, ”Sergio”), em documento por ele próprio redigido, diz ter viajado para Cuba, com outros cinco ex-marinheiros, em 1967, onde receberam treinamento de guerrilha urbana e rural. Todos ficaram em Cuba até fins de 1970.

“Nos cursos de treinamento para atuar como guerrilheiro urbano, além do manuseio de armas curtas, é feito um ensaio permanente para criar hábitos de segurança no local de habitação, nos movimentos diários, em casa e na rua, e mesmo nos momentos de vigília.

Esconderijos disfarçados nas paredes, nos pisos e nos móveis para conter documentos ou objetos comprometedores. Sinais nas fechaduras, portas da casa, portas de armários, malas, gavetas, para indicar se durante a ausência algum terceiro havia penetrado, visto ou aberto. Em alguns casos, os locais de habitação ou esconderijos domésticos devem estar minados com artefatos explosivos ou incendiários, de tal maneira que se um terceiro abre uma porta ou mala, fecha um circuito que alimenta uma explosão.

Para estar seguro, um indivíduo na clandestinidade deve desconfiar dos mais insignificantes acontecimentos que não possa explicar na sua vida de relacionamento com outras pessoas. Deve desconfiar de qualquer referência à polícia ou à política. Deve desconfiar de qualquer comentário relativo ao terrorismo. Deve desconfiar de qualquer pessoa que faça perguntas, sejam elas de que tipo for, até mesmo a informação mais banal. Para movimentar-se na rua deve, antes, certificar-se se, à saída de casa, se não está sendo seguido. Para t anto, existem regras: nunca deve tomar o primeiro coletivo e deve fazer uma série de verificações, voltas, checagens e contra-checagens antes de chegar ao local de destino. E com maior cuidado ainda deve proceder quando da volta para casa.

Se vai a um cinema, o que não é aconselhável, deve escolher um assento depois de bem estudar as saídas, a fim de escapar em caso de perseguição.

No local de residência essa medida começa no momento da escolha. Pelo menos os 500 metros de circunferência devem estar bem estudados; os quintais, as ruas, as vielas, as janelas e até mesmo os cachorros.

O dia-a-dia é uma tensão constante. Insuportável, pelo cálculo frio que exige uma situação permanente de fuga. As três regras que os instrutores cubanos aconselham: desconfiança constante; vigilância constante; movimentação constante, no caso de uma guerrilha rural. No caso da cidade, nunca viver mais de 3 meses num único local, e passar os dias vagando, “conhecendo o terreno”. Na impossibilidade de uma vida legal, considerando a estrutura social como “inimigo que deve ser destruído a qualquer custo”, qualquer notícia de caráter oficial tem o peso de uma bofetada. Qualquer notícia ligada à Segurança Nacional vale como uma pressão psicológica e os cuidados se redobram. A amizade e o afeto são perigos que devem ser constantemente combatidos. A beleza deve ser desprezada, a moral social combatida e desvirtuada, e os hábitos de diversão pequeno-burgueses, execrados”.

Prossegue o “Cabo” Anselmo: “Em Pinar del Rio, o grupo composto por seis ex-marinheiros nicaraguenses, peruanos, equatorianos e portugueses, passamos a receber treinamento, ler e discutir o livro de Regis Debray “Revolução na Revolução”, cujas páginas abriam uma divergência de grandes proporções no Movimento Comunista Internacional, já que, sem grande profundidade de análise, Debray negava violentamente os principais dogmas leninistas e maoístas. Os velhos comunistas que se autodenominavam marxistas-leninistas não podiam ser dirigentes, vanguardas, em qualquer país latino-americano, uma vez que, habituados nas cidades, não serviam para as selvas e montanhas. Ademais, não era necessária para um guerrilheiro uma perfeita educação marxista-leninista.

Segundo Mao-Tsetung, o Partido deveria dirigir o fuzil. Para os professores cubanos, o grupo guerrilheiro já era o Partido, substituindo as velhas estruturas burocráticas dos partidos comunistas tradicionais, seguidores da URSS e da China.

Aprendemos a montar e desmontar fuzis soviéticos e outros. Cada aprendiz disparou milhares de tiros com fuzis, metralhadoras, bazukas de fabricação norte-americana, chinesa, soviética, canhões, revólveres e pistolas. Foi-nos ensinado como montar bombas agressivas e incendiárias. Aprendemos a fazer cálculos para colocar cargas explosivas para destruir pontes, esburacar rodovias, tombar árvores, partir trilhos de ferrovias ou fazer um veículo voar pelos ares. Entramos em intimidade com uma série de recursos e dispositivos da indústria militar e outros de preparação rudimentar provocadores de explosões manuais, elétricas ou retardadas. Conhecemos que a sabotagem urbana, com o objetivo de desorganizar, atrasar e fazer entrar em colapso a produção e a economia, pode assumir variedades incríveis: congestionamento de trânsito provocado; explosão de tanques de gasolina dos autos e conseqüente incêndio de maneira rápida e fácil; rompimento premeditado de aparelhos telefônicos públicos e outros veículos de utilidade pública; depredação de instalações nos locais de diversão pública; paralisação no fornecimento de energia elétrica e outras variedades, todas visando a insatisfação, o mal-estar público, criando assim um clima favorável ao proselitismo e à crítica orientada para a desmoralização dos responsáveis pela máquina administrativa.

Outra sistemática utilizada como arma para criar pânico e também para testar dispositivos de segurança são os telefonemas anônimos anunciando bombas colocadas em aviões, locais públicos, embaixadas e consulados, repartições. Mesmo que tais bombas não existam, mobilizam-se corpos policiais, bombeiros e desviam-se pessoas de suas atividades rotineiras num estado psicológico de medo. E se os trabalhadores nas indústrias e serviços, os administradores de empresas internacionais, o pessoal do serviço público, chega a sentir-se inseguro para o cumprimento de suas tarefas, a desmobilização da administração nacional é conseqüente.

Aprende-se a colocar minas no terreno e a escolher locais e distribuir os homens para uma emboscada, cada um com sua tarefa específica. O restante do tempo divide-se em aprender noções de orientação, balística, cálculo de distâncias, distinção de sons noturnos, segurança e guarda nos acampamentos, construção de depósitos de suprimentos e munição, defesa pessoal e táticas de guerrilhas”.

Carlos Eugênio Sarmento Coelho da Paz (“Clemente”, “Quelé”, “Guilherme”), o último dos comandantes da Ação Libertadora Nacional (assumiu após a morte de Joaquim Câmara Ferreira (“Toledo”, morto em São Paulo em 23 de outubro de 1970). Participou de assaltos, assassinatos e do justiçamento de um companheiro. Nesse justiçamento, o de Marcio Leite Toledo, ele integrou o Tribunal Revolucionário que o condenou e foi um dos que cumpriram a sentença, integrando o grupo que assassinou o companheiro, na rua Caçapava, em São Paulo, em 23 de março de 1971.

A respeito desse episódio recordamos a definição de “Inimigo de Classe” dada por Jorge Semprum (prisioneiro, por 2 anos, do campo de concentração nazista de Buchenwald, de onde foi libertado ao final da guerra; foi expulso do Comitê Central do Partido Comunista Espanhol em 1965 por defender uma linha reformista; de 1988 a 1991 foi ministro da Cultura da Espanha; autor de v&a acute;rios livros): “Não é, de fato, somente quando um comunista se torna agente do ‘inimigo de classe’ que seus camaradas decidem expulsá-lo ou até mesmo executá-lo. É também quando ele se torna agente de si mesmo, ator e não mais somente instrumento da razão-do-partido, do espírito-do-partido. É quando ele decide tornar-se o indivíduo singular, um ser bastante louco, bastante irrresponsável por querer marcar a história do movimento comunista com sua iniciativa pessoal. Mas ele só marcará essa história com o exemplo de sua punição exemplar, com a iniciativa da aceitação, abjeta e ao mesmo tempo gloriosa, dessa punição, em benefício da honra histórica da revolução”. (livro A Montanha Branca”).

Nesse sentido, Marcio Leite Toledo tornou-se agente de si mesmo e foi executado em benefício da honra histórica da revolução.

Em dezembro de 1972, “Clemente” abandonou seus comandados e fugiu para o Chile. E daí, no ano seguinte, para Cuba.

Em seu livro “Nas Trilhas da ALN”, editora Bertrand Brasil, 1997, “Clemente” traça um quadro contundente dos cursos a que eram submetidos os latino-americanos na ilha da liberdade:

“A interferência deles (dos cubanos) já nos custaram caro demais; a volta dos companheiros do MLP (MOLIPO) sem nossa autorização foi um desastre, 18 mortos e mais tantos presos... e tudo por uma rasteira política de infiltração, querendo influenciar nosso movimento de dentro, para adequar nossa política às necessidades deles. (...) Entendo que militantes nossos, afastados da realidade brasileira e querendo voltar para lutar, questionem a Coordenação Nacional, fundem uma corrente ou saiam da Organização, mas os cubanos não tinham o direito de autorizar a saída deles do país sem nos comunicar, quando havia meios para isso. Cederam os esquemas, promoveram a volta e ajudaram a convencer combatentes que tinham dúvidas. Chegaram a São Paulo procurando militantes queimados, usando esquemas já abandonados por falta de segurança, aparelhos que não mais existiam, despreparados e desinformados dos avanços da repressão. Achavam que não autorizávamos suas voltas para não perdermos o comando da Organização. Infelizmente, sentiram na pele que estávamos cercados, fazendo ações de sobrevivência, assaltando bancos e supermercados na véspera do vencimento de aluguéis, e tentando não desaparecer. (...) O que me revolta é que caíram como moscas, e hoje ninguém assume suas responsabilidades (fls 78 e 79).

No curso de Estado-Maior, em Cuba, esmiúço a história da revolução cubana e constato evidentes contradições entre o real e a versão divulgada América Latina afora (...) Muitas ilusões foram estimuladas em nossa juventude pelo mito do punhado de barbudos que, graças ao domínio de táticas guerrilheiras e à vontade inquebrantável de seus líderes, tomou o poder numa ilha localizada a noventa milhas náuticas de Miami. Balelas, falsificações (...) O poder socialista instituiu a censura, impediu a livre circulação de idéias e impôs a versão oficial. Os textos encontrados sobre a revolução cubana são meros panfletos de propaganda ou relatos factuais, carentes de honestidade e aprofundamento teórico (...).

A ameaça iminente de agressões facilitou a militarização do país. Milícias Populares e Comitês de Defesa da Revolução formam uma teia considerável que abastecem o S2 de informações sobre posições políticas, atitudes sociais e escolhas sexuais dos cidadãos (...) O Partido Comunista é o único permitido, e em seus postos importantes reinam os combatentes de Sierra Maestra ou gente de sua confiança, em detrimento dos quadros oriundos do movimento operário e do extinto Partido Socialista Popular, representante em Cuba do Movimento Comunista Internacional e aliado da União Soviética.

Os contatos com as organizações de luta armada são feitos através do S2, conseqüência esperada das deturpações do regime. A revolução na América Latina não seria uma questão política e sim, usando as palavras do caricato “Totem” (NOTA: codinome atribuído ao general Arnaldo Uchoa, comandante do Exército em Havana em 1973. “Totem” lutou na Venezuela e Angola e esteve no Chile durante o governo Allende. No final dos anos 80 foi condenado à morte e fuzilado, sob a acusação de envolvimento com o narcotráfico), “de mandar bala”. Nos relacionamos com agentes secretos (...) Eles tentam influenciar na escolha de nossos comandantes, fortalecem uns companheiros em detrimento de outros; isolam alguns para criar uma situação de dependência psicológica que facilite a aproximação; influenciam o recrutamento; alimentam melhor os que aderem à sua linha e fornecem informações da Organização; concedem status que vão desde a localização e qualidade da moradia à presença em palanques nos atos oficiais; não respeitam nossas questões políticas e desconsideram nosso direito à autodeterminação (...) “Fabiano” (referência a Carlos Marighela) negociou com os cubanos de igual para igual, mas “Diogo” (referência a Joaquim Câmara Ferreira) concedeu demais. Sentiu-se enfraquecido pelas quedas em São Paulo que culminaram na morte do nosso líder, e permitiu algumas ingerências nas escolhas de quadros para a volta e os postos que ocupariam na Organização. No Brasil, recebemos com espanto a volta de um comandante indicado pelos cubanos e aceito por Diogo. O episódio não chegou a ter maiores conseqüências, pois o comandante desertou no caminho e foi morar na Europa” (fls 178 a 181). (referência ao “comandante Raul”, Washington Adalberto Mastrocinque Martins, escalado pelos cubanos para ser o comandante da Coluna guerrilheira, na Área Estratégica, no Bico do Papagaio, que desertou no caminho de volta ao Brasil e viveu na Europa até a Anistia).

Depois de meses de reuniões de autocrítica, entre “Clemente” e o que restava da ALN, em Cuba, ainda fazendo cursos, todos decidiram, por unanimidade, abandonar a luta armada. Muitos voltaram ao partido do qual haviam saído, o PCB e outros, como “Clemente”, optaram por abandonar a luta armada.

A montanha de mortos fora em vão.

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Os Exércitos Democráticos do Povo

Carlos Azambuja 21 Maio 2009

Artigos - Movimento Revolucionário

O personagem central é um major politicamente correto e bajulador, que vende sua alma aos condecorados oficiais soviéticos. Enquanto isso, a tropa faz de tudo para prejudicar e levar ao ridículo a oficialidade. Assim era a vida nesse Exército Democrático do Povo, em seus momentos mais insanos e rudes.

Exércitos Democráticos do Povo era a denominação dada aos exércitos dos países da Europa Oriental que, pela força, viram-se obrigados a seguir o almanaque stalinista do socialismo real.

Sobre os absurdos impostos pelo comunismo na preparação dos exércitos desses países, foi recentemente editado no Brasil o livro “A República das Putas”, de autoria de Josef Skvorecky. O livro, escrito em 1968, após a invasão da Checoslováquia pelas tropas soviéticas, que esmagaram a Primavera de Praga, aborda a preparação do exército checo para a guerra contra os Estados Unidos.

O personagem central é um major politicamente correto e bajulador, que vende sua alma aos condecorados oficiais soviéticos. Enquanto isso, a tropa faz de tudo para prejudicar e levar ao ridículo a oficialidade. Assim era a vida nesse Exército Democrático do Povo, em seus momentos mais insanos e rudes. Apesar dos regulamentos e regras opressivas, os personagens se desdobram para encontrar o caminho da liberdade.

Transcrevemos um trecho desse livro com algumas adaptações objetivando facilitar a leitura e a compreensão.

“Ao final do expediente, o major sentou-se à mesa, abriu uma gaveta, puxou um volumoso caderno e começou a reler o que escrevera ao longo dos últimos meses. Tratava-se de um trabalho de Estado-Maior que consumira todas as suas horas de folga, o que o deixava muito orgulhoso. O trabalho tinha a pretensão de ser um tratado militar pedagógico e, talvez, transformado em Manuel de serviço. Seu título era “Um Curso de Treinamento de Intimidação”, com o subtítulo “A Arte de dar Esporro, para os Oficiais das Forças Armadas da Checoslováquia”. Observe-se que no tempo do socialismo real, era praxe que os títulos de qualquer publicação deveriam ser quilométricos.

Na primeira página, o major havia escrito um pensamento: “O Soldado sem Senso de Humor é um Mercenário – J. V. Stalin” (essa frase fora inventada pelo major para o caso de o trabalho cair em mãos não autorizadas). Na página seguinte havia um sumário dividindo a matéria em seções: “Berrando”, “Dando Esporro”, “Intimidando”, e assim por diante. Cada uma dessas seções era, por sua vez, dividida em capítulos e, no final de cada capítulo havia um breve resumo baseado na “História do Partido Comunista”.

O major passou a reler seu trabalho com um prazer quase sexual. O primeiro capítulo – “Uma Introdução Histórica: as Origens e o Desenvolvimento do Berro” – continha informações sobre Julio César e sua importância para a teoria clássica do berro. Os capítulos seguintes estudavam o tema ao longo de vários períodos históricos, dando ênfase especial ao tema “O Berro nos Exércitos Feudais”, que continha uma subseção – “O Berro entre os Mercenários” -, depois “O Berro nos Exércitos Capitalistas” e, finalmente, “O Berro no Exército Vermelho e no Exército Checoslovaco do Povo”.

A seguir vinha uma passagem analítica sobre “O Berro Classificado por Tipos”, com uma longa apresentação dedicada ao “Berro nas Igrejas”, a qual possuía subseções abordando o berro nas Igrejas Católica, Protestante e Ortodoxa (enfatizando a missão pacífica da Igreja Ortodoxa) e nas Sinagogas (dando ênfase à essência reacionária do Sionismo). Finalmente, para concluir, “O Berro nos Altares Ateístas, Casas de Oração e Igrejas”.

Após tudo isso, seguia-se o capítulo “Reflexões de Marx, Engels, Lênin e Stalin sobre o Berro”, entremeado de citações a eles atribuídas, mas totalmente desconhecidas. A seguir, um capítulo altamente instrutivo denominado “A Dialética do Berro. Pode-se Berrar com um Oficial Superior? Suas Conseqüências”. E, como conclusão, uma breve recapitulação que continha uma mensagem: “Como Berrar Melhor”.

Outras seções do trabalho analisavam temas altamente complexos, como, por exemplo, “Berrando com Soldados, Oficiais Convocados e Oficiais do Corpo Feminino do Exército” e “Berrando com Oficiais de Serviço”.

Havia também um ensaio histórico muito bem pesquisado, intitulado “Aníbal e o Declínio do Berro nos Exércitos Cartagineses”. A abordagem de classe construída pelo major era sempre correta, como “Spártaco, o Pai do Berro Democrático”. Por outro lado, o aspecto intelectual era de alto calibre: “O Berro como Instrumento da Paz Mundial”.

A amplitude do material constante de um outro capítulo comprovava a erudição do autor e seu senso prático: “Como ser Condecorado por Berros Exemplares”.

O major folheou por longo tempo suas anotações, fez algumas mudanças, acréscimos e aprimoramentos, mas acabou vencido pela exaustão, deitou-se no sofá, caiu no sono e sonhou. Sonhou que os oficiais, comportando-se exatamente segundo o espírito do que escrevera, fizeram com que ele fosse levado a uma Corte Marcial. Após ser julgado, foi condenado à pena de morte sob a acusação de traição à pátria, “por divulgar segredos militares”.”


(Publicado originalmente no jornal Ombro a Ombro de julho de 1998.)

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A técnica da insurreição e do golpe de Estado
Carlos Azambuja 09 Abril 2009

Artigos - Cultura

Trotsky, tranqüilo, sorri: “A insurreição não é uma arte. É uma máquina. Para colocá-la em movimento são precisos técnicos, e só técnicos a poderiam, eventualmente, parar”.


"Sou da linha trotskysta: revolução permanente".
(Declaração do presidente Hugo Chávez em janeiro de 2007).

Na polêmica que se seguiu ao golpe de Estado ocorrido na Rússia em outubro de 1917, Lenin foi considerado o estrategista, o ideólogo, e Trotsky o criador da técnica do golpe de Estado.

Segundo diversos analistas, o perigo de que os governos devem defender-se não advém da estratégia de Lenin, mas da tática de Trotsky.

A estratégia de Lenin não pode ser dissociada da situação concreta da Rússia de 1917. O próprio Lenin, em seu livro Esquerdismo, Doença Infantil do Comunismo, observou que a originalidade da situação política na Rússia em 1917 provavelmente nunca iria repetir-se em qualquer país do mundo. Sua estratégia não constitui, pois, um perigo imediato para os governos. A tática de Trotsky, sim. Constitui.

Para a estratégia de Lenin há necessidade da existência de um Kerensky (um governo fraco). A tática de Trotsky, ao contrário, independe desse detalhe e sua existência ou não, em nada a influencia. Há os que afirmam que mesmo que Lenin tivesse ficado na Suíça e não tivesse desempenhado papel algum em outubro de 1917, Trotsky teria tomado o poder.

O que é importante, na realidade, é a tática insurrecional, a técnica do golpe de Estado. Na revolução comunista a estratégia de Lenin não conduz, por si só, à tomada do poder, pois a febre da insurreição, a epidemia de greves, a paralisia da vida política e econômica, a ocupação de fábricas pelos operários, a desorganização das Forças Armadas, a política da burocracia, a leniência da magistratura, a resignação da burguesia e a impotência do governo não são o bastante para a tomada do poder. Essa situação revolucionária prepara, não há dúvida, o ataque decisivo, mas há, no entanto, necessidade de alguém que saiba “usá-la” e conduzir o ataque.

Para a tática de Trotsky as chamadas condições objetivas e subjetivas são apenas um detalhe.

Na Rússia, em 1917, Lenin pensava em obter maioria na Duma, sublevar as massas contra o governo de Kerensky, submergir o país sob a maré proletária, dar o sinal de insurreição a todo o povo, proclamar a necessidade da queda de Kerensky e da ditadura do proletariado.

A seguir, um diálogo imaginário:

“Concordo”, diz Trotsky, “mas antes de mais nada é preciso ter o controle da cidade e ocupar seus pontos estratégicos. Para tal, a insurreição tem que ser organizada e conduzida por uma tropa de choque com um punhado de pessoas. Para isso não necessitamos recorrer às massas. Um pequeno grupo nos é suficiente”.

Mas Lenin não queria que a revolução bolchevique viesse a ser classificada de “blanquista” (ou seja, acusada de ter sido feita por um punhado de conspiradores e não por meio da luta de classes do proletariado, conduzida por seu estado-maior, o partido, conforme a ortodoxia do marxismo).

“Muito bem”, responde Trotsky, “mas todo o povo é demasiado para a insurreição. Devemos contar é com um pequeno grupo, implacável e agressivo, treinado na tática insurrecional”.

“É conveniente”, admite Lenin, “concentrar os nossos esforços nas fábricas e nos quartéis. A revolução será feita aí e é aí que fica o seu nó vital. É aí que, em discursos inflamados, devemos explicar e ampliar o nosso programa, pondo a questão nos seguintes termos: ou a aceitação integral de nosso programa ou a insurreição”.

“Muito bem”, diz Trotsky, “mas quando as massas tiverem concordado com o nosso programa, teremos que organizar a insurreição. Para tal, devemos escolher, nas fábricas e nos quartéis, elementos de confiança e prontos para o que der e vier. Do que temos necessidade não é da massa de operários, é de uma tropa de choque”, insiste Trotsky.

“Para que a insurreição seja de inspiração marxista, isto é, encarada como uma arte”, concorda Lenin, “devemos simultaneamente e sem perda de tempo, organizar o Estado-Maior das tropas insurrecionais, repartir as nossas forças, lançar os regimentos fiéis nos pontos nevrálgicos da cidade, cercar o teatro Alexandra, ocupar o Forte Pedro e Paulo, prender o Estado-Maior Geral e enviar contra os oficiais-alunos e os cossacos, destacamentos dispostos a sacrificarem, se necessário, até o último homem a fim de impedir que o inimigo atinja o centro da cidade. Devemos mobilizar os operários armados, chamá-los ao combate, ocupar as centrais telefônicas e telegráficas, instalar aí o nosso Estado-Maior, pô-lo em contato com todas as fábricas, todos os regimentos e todos os pontos onde se desenvolver a luta armada”.

“Muito bem”, diz Trotsky, “mas...”.

“Tudo o que afirmei é um pouco vago”, reconhece Lenin, “mas com isto eu quero provar que, no estado em que nos encontramos, só poderemos ser fiéis ao marxismo e à revolução se encararmos a insurreição como uma arte. Você conhece as principais regras com que Marx regulou esta arte. Pois bem, aplicadas à atual situação da Rússia estas regras significam: ofensiva simultânea, tão inesperada e rápida quanto possível sobre Petrogrado, concentração de forças superior aos 20 mil homens que o governo dispõe. Articulação entre as nossas três principais forças – a Marinha, os operários e as unidades militares – de modo a ocupar e defender as centrais telefônicas, o telégrafo, as estações de trens e as pontes. Selecionar, dentre os elementos de nossos grupos de ataque, os operários e marinheiros mais resolutos, formar destacamentos para ocupar todos os pontos importantes e participar em todas as operações decisivas. Por último, constituir grupos de operários armados com espingardas e granadas, que marcharão sobre as posições inimigas (escolas de oficiais, centrais telefônicas e telegráficas). O triunfo da revolução russa e, ao mesmo tempo, da revolução mundial, depende de dois ou três dias de luta”.

“Tudo isso é muito correto”, explica Trotsky, “mas demasiadamente complicado. É um plano vastíssimo, uma estratégia que abrange demasiado território e muitas pessoas. Não é uma insurreição. É uma guerra. Para ocupar Petrogrado não há nenhuma necessidade de tomar o trem na Finlândia. Quando se parte de muito longe fica-se, muitas vezes, no meio do caminho. Desencadear uma ofensiva de 20 mil homens desde Kronstadt para ocupar o teatro Alexandra é ‘um pouco’ demasiado para um golpe de mão. Em estratégia, o próprio Marx seria vencido por Korniloff. Urge fixarmo-nos na tática, agir com um punhado de homens e num terreno limitado, concentrar esforços nos objetivos prioritários, bater forte e feio. Não creio que seja muito complicado: as coisas perigosas são sempre extremamente simples. Para atingir o nosso objetivo não devemos recear os fatores que nos são adversos nem fiarmo-nos nos que são favoráveis. É preciso agir sem alarido, silenciosa e calmamente. A insurreição é uma máquina silenciosa. A sua estratégia exige uma série de circunstâncias favoráveis. A insurreição não precisa de nada. Basta-se a ela própria”.

As palavras acima, atribuídas a Lenin e Trotsky não são uma ficção. São extratos de cartas enviadas ao Comitê Central do Partido Bolchevique, em outubro de 1917, por ambos.

Os que conhecem todos os escritos de Lenin, em particular os que se referem à técnica insurrecional das jornadas de dezembro, em Moscou, durante a revolução de 1905, devem mostrar-se bastante surpreendidos com a ingenuidade da sua concepção de tática e estratégia insurrecionais, nas vésperas da Revolução de Outubro. Todavia, devemos reconhecer que após o revés da tentativa de revolução, em julho de 1917, foi ele o único – à exceção de Trotsky - que não perdeu de vista o objetivo principal da estratégia revolucionária: o golpe de Estado.

Após algumas hesitações (em julho, o Partido Bolchevique tinha um único objetivo e de natureza parlamentar: a conquista de maioria nos Sovietes) o germe da insurreição tornara-se para Lenin, “o motor de toda a sua atividade”. Durante sua estada na Finlândia – onde se refugiara após as jornadas de julho, para não ser preso por Kerensky – toda a sua atividade se resumia à preparação teórica da insurreição. De outra forma não se explicaria a ingenuidade do seu projeto de uma ofensiva militar sobre Petrogrado, apoiada, no interior da cidade, pela ação dos guardas vermelhos. Tal ofensiva teria redundado em um desastre.

Na sua carta de 17 de outubro de 1917, Lenin defendia a tática de Trotsky: “Não se trata de blanquismo. Efetivamente um golpe militar será blanquista quando não for organizado pelo partido de uma classe determinada; quando os seus organizadores não atenderem ao movimento político, em geral, e à situação nacional, em particular. Entre um golpe militar, condenável sob todos os pontos de vista, e a arte da insurreição armada, há uma grande diferença”.

Mas Trotsky, tranqüilo, sorri: “A insurreição não é uma arte. É uma máquina. Para colocá-la em movimento são precisos técnicos, e só técnicos a poderiam, eventualmente, parar”.

Essa tática de ação insurrecional de Trotsky passou a fazer parte da estratégia revolucionária da III Internacional e, por conseguinte, do Movimento Comunista Internacional.

Um elemento indispensável à insurreição é a greve geral, que tornaria a insurreição semelhante a um murro dado em um aleijado, pois para que ela tenha êxito, é necessário que a vida das cidades esteja paralisada pela greve geral.

Finalmente, é inexato que o governo provisório de Kerensky não tenha adotado as medidas necessárias para a defesa do Estado. Todavia, o método defensivo de Kerensky consistia em aplicar as medidas de segurança e de polícia tradicionais, em que até hoje confiam os governos liberais. Não se pode acusar Kerensky de imprevidência. Ocorre que o método de aplicar somente a repressão, ao invés de medidas políticas, administrativas e econômicas, a fim de assegurar a defesa do Estado contra a técnica insurrecional moderna, é uma ação ineficaz.

Os governos, quase sempre, à tática revolucionária, revelando ignorância dos princípios elementares de defesa do poder, opõem uma tática defensiva baseada em medidas policiais, esquecendo que essas medidas, de conformidade com qualquer manual de contra-insurreição, devem ser 90% políticas, econômicas e administrativas e apenas 10% repressivas.

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Foro de São Paulo – Encontro de Partidos e Movimentos Sociais

Carlos Azambuja 13 Maio 2009

Notícias Faltantes - Foro de São Paulo

O historiador Carlos Azambuja traz informações sobre o mais recente encontro do Foro de São Paulo, criminosamente omitidas pela quase totalidade da imprensa brasileira.

Dias 27 e 28 de abril de 2009, no hotel Saviy, em Buenos Aires, foi realizado um Encontro de Partidos Populares e Movimentos Sociais, organizado pelo Foro de São Paulo, a fim de discutir o tema “Crise Internacional e Alternativas Populares”.

Participaram o deputado Héctor Tejan, Carlos Baraibar e Rony Couto, pelo Uruguai; o senador Felix Rojas, da Bolívia; pelo Brasil Ricardo Abreu de Melo; pelo Equador Margarita Valejos; pela Nicarágua Carlos Fonseca; pelo Paraguai ministro Camilo Soares, Lidio Dominguez; Francisco Delgado, Conselheiro Político da embaixada de Cuba na Argentina; da Argentina Mario Thoer, Carlos Girotti, a deputada Adele Segarra, Patrício Echegaray, Secretario-Geral do Partido Comunista Argentino, além de delegações do Pólo Democrático da Colômbia, do PPT da Venezuela, do PC e do Movimento Nova Esquerda do Peru, e do PC Chileno.

Na abertura dos trabalhos, do qual participaram o Subsecretário de Integração Econômica Americana e do Mercosul, Eduardo Sigal, o embaixador da República da Venezuela Arévalo Mendez e outras autoridades, foram desenvolvidos quatro painéis:

- A crise internacional e o novo momento da América Latina;

- Os governos populares da América Latina: novas alternativas;

- O papel do Estado, alcance e perspectivas para aprofundar as mudanças;

- O papel dos movimentos sociais no atual movimento político.

Na tarde de 27 de abril todos os delegados participaram de um ato no Luna Park, que teve Néstor Kirchner como orador central e sob a palavra de ordem “o país que queremos, a força que necessitamos”. O ato foi organizado por partidos políticos e movimentos sociais do espaço Unidade Popular.

No dia 28 de abril os participantes compareceram à palestra da Ministra da Defesa, Nilda Garré, que falou sobre as políticas de defesa que se aplicam em nosso continente desde a Guerra Fria até o presente, as novas concepções com que estão trabalhando os atuais governos latino-americanos, as iniciativas a respeito e a criação de uma política de defesa comum a partir da criação da UNASUL.

Todos os partidos e movimentos sociais que participaram do Encontro ressaltaram a importância do debate, a análise do processo latino-americano, as fortalezas e debilidades do mesmo.