MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964

MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964
Avião voa sobre a orla carioca em 31/03/2014, ostentando faixa com os seguintes dizeres: "PARABÉNS MILITARES - 31/MARÇO/64 - GRAÇAS A VOCÊS O BRASIL NÃO É CUBA". Clique na imagem acima para acessar MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964 - uma seleção de artigos sobre o tema.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Revolução egípcia contra o Faraó Mubarak

O ENIGMA DO EGITO

03/02/2011

Nivaldo Cordeiro

http://www.nivaldocordeiro.net/

Preciso dizer ao caro leitor mais algumas palavras sobre a situação do Egito. O conflito evoluiu em desfavor do governo constituído, com as brigas de rua fazendo muitas mortes e a repressão militar caindo com mão pesada. Eu volto ao assunto porque li a coluna de Clóvis Rossi na Folha de São Paulo de hoje (O espírito de 1776), na linha da estupidez dos analistas de esquerda espalhados pelo mundo. Evidente que não há qualquer paralelo entre a Revolução Americana e a situação egípcia. Os EUA eram um país a construir e o Egito é um país islâmico, dos mais antigos.

Clóvis quis dar um tom heróico aos sublevados. Não há nada disso. No Egito só podemos esperar duas alterações políticas possíveis: ou se mantém o regime e assume um outro general ou assumem os revolucionários islâmicos, como foi feito no Irã. Fora disso é delírio perigoso de analisa torcedor, que se recusa a ver o real e prefere projetar miragens sobre os fatos.

O governo de Obama está em um conflito, entre a ética da consciência e ética da responsabilidade. É uma falsa armadilha, mas bem sabemos que Hillary Clinton e o próprio Obama devaneiam com uma solução democrática à moda ocidental para o Egito e demais países islâmicos. O que houve no Irã e depois no Iraque só demonstra que essa solução é impossível nos países islâmicos. Nunca devemos esquecer que as formas de governo construídas no Ocidente são a sua especificidade, de difícil reprodução. O fracasso no Iraque, depois de anos de ocupação, é a prova viva de que nem mesmo a ação estrangeira tem o poder de parir uma democracia islâmica. Mas ambos sabem que o perigo mudancista no Egito é imenso.

O Egito é país decisivo para que a paz entre islâmicos e israelenses se mantenha. Se eventualmente assumir um governo hostil a guerra pode ser questão de dias, talvez de horas. Não é brincadeira, pois o incêndio seria imediato e a conflagração poderia se generalizar.

Clóvis Rossi está tão inseguro de suas previsões que em três parágrafos busca apoio de outros analistas internacionais, igualmente comprometidos com a propaganda da causa revolucionária no meio islâmico. Estão todos errados. Preciso dizer que não apenas os interesses dos EUA estão em perigo, mas de todo o mundo. Um conflito generalizado entre Israel e o mundo islâmico arrastará consigo as potências, mesmo que elas não queiram. Análises erradas têm graves conseqüências, sobretudo por parte daqueles que têm responsabilidade de governo.


***

O Globo

Batalha épica em praça egípcia

Thu, 03 Feb 2011 07:32:30 -0200

REVOLTA NO MUNDO ÁRABE

Mubarak envia partidários para atacar opositores. Três morrem e 1.500 se ferem após violentos confrontos

Fernando Duarte

Ironicamente, no dia em que os serviços de internet foram restabelecidos no Egito, a verdadeira face do regime de Hosni Mubarak foi mostrada ao mundo: partidários do governo infiltrados saíram às ruas, montados em cavalos e camelos, armados com facões, pedras e bastões, deflagrando uma batalha campal contra oposicionistas na Praça Tahrir, símbolo dos protestos que há dez dias sacodem o país. Os opositores revidaram, quebrando o calçamento e atirando blocos de cimento contra os manifestantes pró-Mubarak, derrubados e espancados.

Logo suplantados em número pelos opositores, os governistas infiltrados subiram em prédios, atirando do alto tijolos e coquetéis molotov contra a multidão perto do Museu Egípcio, incendiando uma de suas árvores. Nas portas dos edifícios, policiais à paisana impediam os opositores de entrar para deter os ataques.

Segundo o governo, três pessoas morreram e mais de 600 ficaram feridas. Mas médicos que atenderam os feridos diziam que o número passou de 1.500, com mesquitas servindo de hospitais. Os partidários de Mubarak, que chegaram em ônibus ao Centro, tiveram o reforço das autoridades e até cavalos e camelos, usados para investir com chibatadas contra a multidão. O Exército não impediu sua passagem e se restringiu a policiar o Museu Egípcio e a apagar as chamas.


Jornalistas são presos e agredidos

Desde cedo, as ruas do centro da capital receberam passeatas pró-Mubarak. Ainda que não seja anormal ver apoio ao presidente numa população de 80 milhões de habitantes, o timing levantou suspeitas.

Menos de 12 horas depois do discurso em que o presidente anunciou a decisão de não se candidatar nas eleições de setembro - e depois de ordenar que os opositores deixassem a praça -, pelo menos 20 mil pessoas estavam prontas para marchar com uma infinidade de cartazes com a foto de Mubarak e carros de som, algo nunca visto nos protestos de oposição. Mas a grande ajuda veio da polícia uniformizada e secreta, cujos agentes estavam atentos também aos jornalistas na passeata.

Embora alguns organizadores jurassem que o destino da multidão era a praça da mesquita Mustafa Mahmoud, que não é perto da Tahrir, logo foi tomado o rumo do local ocupado pela oposição.

- Não vamos brigar com ninguém, mas queremos mostrar ao mundo que Mubarak é um homem bom. Há muita gente querendo ver nosso país se transformar no Iraque, com terrorismo e ocupação de tropas americanas - disse o engenheiro Abdel Ali.

A visão de uma câmera de TV fazia com que os manifestantes exigissem mostrar seu apoio ao presidente, com uma jovem, nascida em 1981, o mesmo ano em que Mubarak assumiu o poder, declarando estar nas ruas para defender o homem que considerava seu verdadeiro pai. Para aumentar a adesão, foi declarado ponto facultativo em várias repartições públicas e, segundo relatos, houve ofertas de cachês de até 200 libras egípcias (o equivalente a R$56) para participantes.

Por volta de 14h, os primeiros grupos chegaram à praça e não demoraram 15 minutos para que houvesse os primeiros enfrentamentos. A ira dos partidários do governo também se dirigiu a jornalistas, incluindo o repórter da rede CNN Anderson Cooper, que recebeu socos e chutes na cabeça. Ele e sua equipe foram atacados quando atravessavam um grupo de manifestantes pró-governo. Um homem tentou arrancar a câmera da CNN, enquanto outros investiam contra a equipe. Em outro momento, um jornalista da TV al-Arabiya, de Dubai, foi atacado e desmaiou.

Jornalistas num dos hotéis próximos à Tahrir receberam a visita de seguranças armados, ordenando que ninguém filmasse ou tirasse fotos das sacadas. Quatro profissionais israelenses e um belga foram presos. O Comitê de Proteção aos Jornalistas, com sede em Nova York, acusou o governo egípcio de orquestrar os ataques, na tentativa de encobrir a verdade. "Condenamos os ataques e pedimos a todas as partes para evitar a violência contra jornalistas", disse um comunicado do CPJ. O governo, no entanto, classificou as acusações de envolvimento na repressão de "ficção".

Até o fim da noite de ontem ainda havia enfrentamentos, com ambulâncias tentando abrir caminho para socorrer os feridos. De acordo com a TV estatal, a ordem do Exército era evacuar a praça, que seria bloqueada.

- A atmosfera estava incrivelmente violenta, e os dois lados perderam as estribeiras. Mas passamos quase uma semana em Tahrir sem que ninguém ficasse ferido, manifestando de forma pacífica nosso desejo por democracia. Fomos atacados covardemente - disse Karim Ennarah, um dos manifestantes da oposição.


Cem brasileiros ainda estão no país

O embaixador do Brasil no Cairo, Cesare Mantonio, disse que será necessário repensar o esquema de atendimento aos brasileiros após os acontecimentos na Praça Tahrir - embora ainda não haja planos de evacuação já que o Aeroporto do Cairo permanece aberto. De acordo com a embaixada, há cerca de cem turistas brasileiros ainda no Egito, o mesmo número da população de residentes. Os problemas com os voos têm dificultado a saída, mas há quem reclame de falta de orientação, como a estudante Thaís Justen, que vive em Heliópolis, a dez quilômetros do centro, onde a falta de policiamento levou os moradores a formar milícias para evitar saques.

- Simplesmente me disseram para ficar em casa ou ir para o aeroporto esperar meu voo para o Brasil, que só na sai na sexta-feira.

Ontem, mais uma companhia aérea, a britânica BMI, anunciou a suspensão de serviços até segunda ordem.


***

Estadão

Grupos pró-Mubarak atacam multidão e convertem praça em campo de guerra Thu, 03 Feb 2011 07:35:25 -0200

Choques deixaram pelo menos 3 mortos e mais de 639 feridos; grupos que apoiavam o governo seriam formados por funcionários públicos, policiais à paisana e pessoas que receberam o equivalente a cerca de R$ 30 para engrossar a turba que enfrentou opositores

Jamil Chade - O Estado de S.Paulo

O local símbolo das manifestações pelo fim da ditadura egípcia, a Praça Tahrir, no centro do Cairo, virou ontem um campo de batalha entre partidários e opositores do presidente Hosni Mubarak. Segundo o governo, os confrontos deixaram 4 mortos e mais de 1.500 feridos, sob um clima geral de pânico sem precedentes nos nove dias de manifestações.

Opositores, porém, afirmam que o número de vítimas foi maior. A ação, segundo eles, mostraria a contradição entre o discurso de Mubarak - que se comprometeu a promover reformas, dialogar com outras forças políticas e não concorrer à reeleição em setembro - e as práticas de seu aparato parapolicial. Pouco antes dos choques, a TV estatal tinha transmitido uma ordem oficial, cuja fonte não esclareceu, para que todos os manifestantes abandonassem a prática.

Em mais de sete horas de confronto - com trocas de pedradas, socos, chicotadas e coquetéis molotov, além de investidas com cavalos e camelos -, o Exército nada fez para conter os manifestantes dos dois lados e a polícia nem sequer apareceu. As primeiras ambulâncias surgiram apenas quatro horas depois. No início da madrugada, um prédio da Praça Tahrir foi incendiado.

O diplomata líder da oposição e Nobel da Paz Mohamed ElBaradei pediu que o Exército intercedesse para proteger a população. Ele também culpou o governo pelas mortes e disse que as cenas de violência são "atos de um regime criminoso". "Estou preocupado. Essa é outra indicação de um regime criminoso usando atos criminosos", disse.

Segundo o Estado apurou, parte dos manifestantes pró-regime recebeu o equivalente a R$ 30 para participar do protesto e outra parte era de policiais a paisana. Muitos ainda eram funcionários públicos que tiveram dispensa. Segundo membros da oposição, alguns eram criminosos soltos das prisões de segurança máxima.

O conflito entre os dois grupos de milhares de pessoas pretendia decidir quem controlaria a Praça Tahrir. Opositores afirmam que só sairão da praça "mortos", enquanto governistas prometiam "limpar" o local, que fica ao lado do Museu do Cairo.

Até a madrugada de hoje, os manifestantes antigoverno conseguiam aplacar a investida dos partidários do regime, resistindo com pedras e coquetéis molotov. As manifestações de apoio ao presidente começaram pela manhã em diversas partes do Cairo, formando uma grande marcha até a praça onde se concentravam os opositores.

Pouco após os dois grupos se encontrarem, uma chuva de paus e pedras teve início, sob gritos de horror das pessoas presas no meio da multidão. Dezenas tiveram a cabeça atingida e tentavam parar o sangue com suas próprias roupas.

Em seguida, cerca de 40 pessoas montadas em cavalos e camelos cavalgaram pela praça, chicoteando manifestantes contrários a Mubarak. Alguns foram derrubados e espancados.

Jornais independente do Cairo, que chegaram hoje às bancas, afirmam que a violência foi premeditada. Segundo eles, há dois dias, bairros pobres da periferia receberam a visita de policiais, que organizaram as gangues. As ordens teriam vindo do vice-presidente Omar Suleiman.


***

O Globo

ONU: Brasil não trata do assunto Thu, 03 Feb 2011 07:32:54 -0200

NOVA YORK. O Conselho de Segurança da ONU, presidido neste mês pelo Brasil, está monitorando a situação no Egito mas ainda não tomou nenhuma medida nem mostra urgência em tratar do assunto. A data prevista para a reunião do Conselho sobre o Oriente Médio foi mantida para o dia 24, segundo a agenda anunciada ontem pela chefe da missão do Brasil na ONU, a embaixadora Maria Luiza Viotti, em sua primeira entrevista à imprensa internacional como presidente do conselho.

- A situação está sendo lidada no nível interno (no Egito), e o Conselho de Segurança é o último recurso. Não temos expectativa de convocação de reunião - disse.

Falando na capacidade de representante do Brasil, ela afirmou:

- Estamos acompanhado a situação muito de perto, esperamos que o Egito, uma nação irmã, seja capaz de fazer seu sistema político evoluir de uma maneira que atenda às aspirações do povo, com paz e estabilidade.

(F.G.)


***

Alerta vermelho: o Hamas e a irmandade muçulmana do egito promovem a agitação social no cairo.

29 de janeiro de 2011

Fonte: stratfor.com

TRADUÇÃO DE FRANCISCO VIANNA

A matéria que segue abaixo é de uma reportagem da STRATFOR.com feita com dados obtidos de uma fonte direta ligada ao Hamas. O Hamas, o grupo terrorista que tomou conta de Gaza foi formado como uma extensão da Irmandade Muçulmana do Egito (IME); tem interesse em exagerar seu papel de coordenação com a IME nesta crise. As informações que se seguem não foram confirmadas. Não obstante, há muita preocupação crescendo em Israel – e nos Estados Unidos em particular – quanto ao papel da IME nas demonstrações populares e se uma abertura política será feita pela organização islâmica no Egito.

A polícia egípcia não está mais patrulhando a fronteira com a faixa de Gaza, o passo do Rafah. Homens armados do Hamas estão entrando e saindo livremente do Egito e há uma estreita colaboração do grupo palestino com a IME. A irmandade islâmica se engajou completamente nas manifestações de rua pedindo a saída de Osni Mubarak, e o grupo parece satisfeito com a queda do gabinete de governo. Ambos, Hamas e IME insistem num novo gabinete de governo que não inclua membros do partido governista, o Partido Nacional Democrático.

As forças de segurança à paisana estão empenhadas em destruir propriedade pública, a fim de dar a impressão de que muitos manifestantes representam uma ameaça pública. A IME está, enquanto isso, formando comitês de proteção das propriedades públicas e também coordenando as atividades dos manifestantes, inclusive fornecendo-lhes alimentos, bebidas e primeiros socorros.

Tudo leva a crer que a irmandade islâmica, juntamente com o Hamas, tem como objetivo transformar o Egito numa república islâmica nos moldes do Irã ou da Síria. Com isso, o contrabando de armas e peças de foguetes nunca foi tão livre e intenso do Egito para a Faixa de Gaza pelo Passo de Rafah.

Se tal situação se agravar, Israel poderá tomar de volta a Faixa de Gaza pela força das armas, mesmo na eventualidade de uma guerra contra um futuro e eventual estado clerical islâmico no Egito. Os EUA e a União Européia monitoram a situação no Cairo com atenção e apreensão redobradas.

Saudações,

Francisco Vianna

***

FARTOS DO FARAÓ

Por: Javier Valenzuela para o jornal espanhol ‘El País’

TRADUÇÃO DE FRANCISCO VIANNA

Sexta feira, 28 de janeiro de 2011

MADRI – Em 2003, os egípcios, como a maioria de seus irmãos árabes, foram unânimes: recusaram a pretensão de Bush e, "levar a democracia" ao Iraque por meio de bombardeios, mísseis e carros de combate, conforme disse o autocrata Osni Mubarak, que trazia a sua conta. Também disseram o mesmo os muçulmanos mais moderados, considerando a pretensão americana uma ingerência – uma espécie de cruzada judaico-cristã nos assuntos internos da umma (*). E o disseram em e bom som os reformistas e democratas, como o escritor Naguib Mahfouz, o cineasta Youssef Chahine e o sociólogo Diaa Rachwan.

A estes últimos, como costuma ser, pouca atenção mereceram tanto nos Estados Unidos como na Europa. E, de fato, o que declaravam era muito interessante: impor a democracia no mundo árabe pela força das armas ocidentais era uma colossal loucura; esta via, além de imoral, era contraproducente, só contribuindo para dar argumentos para se recrutar os islâmicos e até os jihadistas. As liberdades individuais só chegarão aos países árabes por movimentos nascidos em seu interior, muito embora, isso sim, os ocidentais possam ajudar, e muito, de duas maneiras: aumentando a pressão sobre os regimes autocráticos e expressando de modo ostensivo seu compromisso com os democratas, livre, porém, de qualquer imposição externa.

Pois bem, na terça feira última, milhares de valentes egípcios ocuparam a praça de Al Tahrir, no coração do Cairo, gritando "liberdade, liberdade, liberdade", e exigindo a saída de Osni Mubarak e condenando sua escandalosa pretensão de deixar como herança ao seu filho Gamal a presidência da república. Seguiam o exemplo de seus irmãos tunisinos, que acabam de derrubar o ditador Ben Alí.

Se for confirmado, assim, o anunciado na tarde do dia 14 último, da queda de Ben Alí, fica patente que a juventude urbana dos países árabes do norte da África, majoritária demograficamente, compartilha a mesma sede de liberdade, trabalho e dignidade e está ciente, graças às TVs por satélite (as ocidentais e a Al-Jazeera) e à Internet, do que ocorre em seu entorno e em todo o planeta. O êxito inicial da ‘revolução do jasmim’ e o sangue derramado em Tunis vão despertar a sua esperança, assim que os regimes autoritários, em especial os da Argélia e do Egito, se preparam para enfrentar um período de turbulências.

No caso argelino, a lembrança da atroz guerra civil que assolou o país na década de 1990 pode vir a ser um freio nos movimentos contestatórios; no caso egípcio, o exemplo tunisino é chover no molhado: nos últimos anos os protestos juvenis, democráticos e sindicais vão aflorando de modo persistente, em que pese a repressão.

Três dados básicos dão a medida do que estamos falando: o Egito, com 81 milhões de habitantes, é o país mais povoado do mundo árabe; a média de idade de seus habitantes é de 24 anos, e sua renda per capita é de 6.000 dólares anuais, ou seja, cinco vezes inferior à espanhola. Um barril de pólvora.

VISÃO OCIDENTAL

Mas os democratas egípcios consideram a sua revolução ainda mais difícil do que a dos tunisinos. Caso o apoio ocidental à ‘revolução do jasmim’ tenha sido escasso ou nulo, serão ainda menos efetivos os protestos democráticos do vale do Nilo. Para os Estados Unidos, é crucial dispor aí de um regime policial sólido que garanta a segurança de Israel. E a governança européia fica paralisada de medo de que a queda de Mubarak suponha a chegada ao poder dos Irmãos Muçulmanos, fundamentalistas ou não. A Europa continua agindo na base da idéia errônea de que a autocracia é a única alternativa possível à teocracia no norte da África.

Há, no entanto, algum elemento de esperança. Na terça feira, Obama, em seu tradicional discurso sobre o Estado da União, disse algo que o honra: "Permitam me dizer com clareza: os Estados Unidos apóiam o povo da Tunísia e as legítimas aspirações democráticas de todos os povos". Foi muito mais longe do que os líderes europeus.

Fala-se da influência do Twitter e do Facebook nos protestos democráticos norte-africanos. Não se fala tanto, por outro lado, da influência de Obama e seu discurso feito no El Cairo em junho de 2009. É provável que algum dia se evidencie que, ao proclamar o fim da visão de Bush de ‘choque de civilizações’ entre o Islã e o Ocidente, ao expressar profundo respeito pelos árabes e muçulmanos e ao manifestar que o princípio fundamental da revolução americana também é o da aplicação da umma, Obama esteve contribuindo para uma mudança histórica.

Em 1981, um militar egípcio islâmico chamado Al Islambuli assassinou a traição Anwar Sadat. "Matei o faraó", proclamou ele, ao ser preso. Dois anos antes a revolução khomeinista tinha triunfado no Irã. Foram dois acontecimentos que marcaram o começo da ascensão do islamismo político. Hoje, de fato, podemos formular a pergunta que fez o especialista Olivier Roy num recente artigo: "Onde foram parar todos os islamitas?". Continuam aí, sem dúvida, mas é possível que a maré teocrática, iniciada há três décadas, esteja começando a baixar.

Em todo caso, o certo é que os democratas egípcios estão fartos do atual faraó.

Fonte: Jornal espanhol © El País, SL

___________________________________

(*) Umma é um termo árabe (أمة) que exprime a ideia de nação, de comunidade. A título de exemplo, al-Umam al-Muttahida, é a forma árabe de dizer ONU. No islã, o termo refere-se à comunidade constituída por todos os muçulmanos do mundo, unida pela crença em Alá, no profeta Maomé, nos profetas que o antecederam, nos anjos, na chegada do dia do Juízo Final e na predestinação divina.

Saudações

Francisco VIANNA