MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964

MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964
Avião voa sobre a orla carioca em 31/03/2014, ostentando faixa com os seguintes dizeres: "PARABÉNS MILITARES - 31/MARÇO/64 - GRAÇAS A VOCÊS O BRASIL NÃO É CUBA". Clique na imagem acima para acessar MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964 - uma seleção de artigos sobre o tema.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Guerra do Rio: Um circo de propaganda

UM CIRCO DE PROPAGANDA

PESSOAL,
A HISTÓRIA REAL!
L. VALENTIN COLOCA NO MEIO DESSE TEXTO, DE HOJE, ALGO QUE ELE ESCREVEU EM 1994, QUANDO AINDA LIGÁVAMOS O CRIME ORGANIZADO AO “JOGO DO BICHO”!
QUEM QUISER FICAR BEM INFORMADO, DENTRO DA REALIDADE, DEVE LER TUDO O QUE ESTÁ AQUI!
DADOS IMPORTANTÍSSIMOS!

***

Um Circo de Propaganda

L Valentin

28/11/10

Hoje, dia 28 de novembro de 2010, a população da cidade do Rio de Janeiro está sofrendo, quase vinte anos depois, as conseqüências do abraço entre a política e o crime organizado. Só para lembrar, o crime começou sua verdadeira escalada para o poder quando Brizola enxergou a chance de organizar o sistema de propinas - que era totalmente aleatório naquela época - que o crime fornecia às autoridades.
Quem viu e a assistiu sabe. A famosa reunião do staff de Brizola quando se elegeu governador do Rio pela primeira vez, acontecida no Hotel Quitandinha em Petrópolis. A reunião privada onde foram delineados os procedimentos para receber propinas e a ordem para que a Polícia não mais subisse as favelas. A testemunha desses fatos, de credibilidade comprovada, os contou, não como um desprestígio, mas como uma jogada de alta inteligência executada pelo “Mestre” (era assim que chamava Brizola).

O tempo passou e confirmou tudo. Em 1994 escrevi:

A Corrupção do Bicho

13/04/94

No natal de 1993, na Polinter do Rio de Janeiro, aconteceu uma festa de arromba. Mas não era bancada pelos policiais que ali serviam, mas sim pelos bicheiros José Petrus - o Zinho - Paulo Roberto Andrade e Aylton Guimarães Jorge - O Capitão Guimarães. Esses eram 3 dos quatorze chefões do jogo do bicho, condenados pela Justiça e presos ali.

Outra festança semelhante foi dada na véspera do Ano Novo. Vinho, champanhe, uísque cerveja e uma ceia para 50 pessoas. Esses quadrilheiros foram condenados pela ação da juíza Denise Frossard e estão vivendo na cadeia como reis, graças a ajuda de delegados, diretores de presídios e do vice-governador Nilo Batista.

Os condenados estão no presídio há oito meses, sendo que Castor de Andrade, Raul Costa Melo - Raul Capitão - e Emil Pinheiro estão soltos, por problemas de saúde. Todos os outros deveriam cumprir pena no presídio Ary Franco, para presos comuns, com exceção dos três da Polinter que possuem curso universitário. Com ajuda das autoridades do governo estadual, todos foram transferidos para a Colônia Penal Vieira Neto em Niterói, onde passam o dia inteiro fazendo exercícios e caminhadas, como em um spa.

A festa de reveillon foi autorizada pelo próprio Nilo Batista. Um dos convidados, Waldomiro Teixeira Gomes - o Cromado - foi preso na porta da delegacia, por que tinha roubado o Opala de um desembargador da Justiça. Outro convidado foi o cantor Agnaldo Timóteo.

Na Polinter são comuns os churrascos aos sábados, regados a cerveja gelada e gordas gorjetas. No dia 28 de setembro, Paulo Andrade - filho de Castor - e sua mulher deram uma festança dentro do presídio para mais de 30 convidados, para festejar os vinte anos de casamento.

Comentário:

No Rio de Janeiro, a população está acostumada com o poder do jogo de bicho e aceita seus líderes como aceita um dono de empresa ou um comerciante honesto. Ele faz filantropia, gera empregos, apóia escolas de samba. Mas, diferentemente dos cidadãos cumpridores da lei, sua fonte de renda é ilegal, não pagam impostos, têm seu próprio código de leis, têm seu próprio sistema judiciário e estão acima dos sistemas controladores da sociedade comum.

O jogo do bicho é um organismo parasita que se hospeda na sociedade e agindo oculto, aos poucos, vai se apossando das suas funções vitais, terminando por dominá-lo completamente. Para conseguir isso, corrompe a tudo e a todos.

As "gentilezas" feitas por autoridades aos chefões do bicho foram explicadas quando em abril, a fortaleza do capo di tutti capo - Castor de Andrade - foi estourada pela polícia.
Em 13/04/94 o procurador geral Antônio Carlos Biscaia estourou a fortaleza do bicheiro Castor de Andrade. Pontos principais:

Foram apreendidos 70 livros de contabilidade e 160 disquetes de computador
Pelo menos 150 nomes de figurões estão relacionados como recebedores de propinas
Tudo estava minuciosamente registrado, com nomes, valores, e tipo de verba
Castor de Andrade tinha mania de registrar tudo detalhadamente

Veja a lista de nomes e valores:

Nome
Valor US$
Tipo
Div. Repressão a Entorpecentes
250.000

Delegado Jorge Mário Gomes
200.000

Div. Anti seqüestro
150.000

Prefeito César Maia
125.000

Nilo Batista
96.000

Campanha de Collor
55.000

Pol. Federal Edson de Oliveira
50.000

Herbert de Souza (Betinho)
40.000

Ex Prefeito Marcello Alencar
40.000

Pró Matre
20.000

Camarote no sambódromo para João Havelange
17.500

Jamil Haddad
14.390

Técio Lins e Silva
13.000

Isabel Alencar (vôlei)
11.000

Paulo Maluf
10.600

Del. Elson Campello
10.000

Dep. Fed. Cidinha Campos
7.000
mensal
Agnaldo Timóteo
7.000

Ludmila Mayrink da Costa
3.000
mensal
Eurico Miranda
Não divulgado

Del. Antônio Nonato da Costa
Não divulgado
mensal
Comentários:

Nas décadas de 70 e 80 o jogo do bicho era visto até como folclore, mas já tinha poder suficiente para começar a dominar a sociedade. O quadro que a contabilidade do Castor apresentou foi assombroso. São 150 nomes. Por ele vimos que a cúpula de dirigentes da sociedade estavam engajados na luta para minar os próprios pilares da sociedade fortalecendo, em contrapartida, as leis da contravenção e do crime. O governador, o vice, toda polícia civil, a policia federal, políticos, esportistas, artistas e entidades filantrópicas.

Quando a entidade tem muitas pessoas, destina-se a ela uma quantia para ser dividida entre seus componentes. Veja o exemplo da Delegacia de Entorpecentes e Divisão anti-seqüestro.

Nada aconteceu a ninguém. O prefeito Marcello Alencar, seria eleito governador nas próximas eleições. Brizola, candidato a Presidente da República. César Maia, candidato a governador. Todos estão aí.

O jogo do bicho expandiu-se: atua na prostituição, no pedofilismo, no seqüestro, no roubo e desmanche de carros, no roubo de cargas, no contrabando de armas e no tráfico de entorpecentes e nos grupos de extermínio. Virou organização. Estamos na era do crime organizado, a lei de nossa antiga sociedade nada vale.

Hoje, ao nos depararmos com a atuação dessa organização - e isso acontece a todo instante - não mais podemos ficar indignados, não podemos chamar a polícia nem pedir socorro à justiça. Todos são dela prepostos. Para sobreviver, somos obrigados a relegar antigas noções e nos adaptarmos à nova lei vigente. Devemos escutar e calar, ver e esquecer, receber as propinas legalizadas pelo uso, saber como giram as engrenagens da máquina e azeitá-las, além de beijar as mãos dos novos imperadores.
Maquiavel, no século XVI já nos ensinava: "No meio dos maus, aquele que quiser agir como bom não vai ter sucesso". (veja "O Príncipe") Portanto, nossa preocupação atual é saber identificar quem é mau e a definição de agir como bom, para seguir o conselho de Maquiavel e ter sucesso.
Da minha parte, já propus diversas vezes a revolução e modificação da sociedade para combater o crime, entre outras sugestões, que hoje me parecem inviáveis. Dessa forma, só resta uma última solução. Todos sabemos que o roubo é a maneira mais eficiente e menos trabalhosa de se adquirir riquezas. Então sugiro que todos nos tornemos ladrões. Com um país inteiramente composto de ladrões, breve não haverá quem produza.

Dessa forma, não vai haver o que roubar e travaremos uma guerra uns com outros, pelo que resta circulando. Assim a organização criminosa implode, como um câncer seca, quando se lhe corta o alimento. Então, daqui a algumas décadas, talvez possa surgir uma sociedade decente nesse país.
Pobre Brasil !

L Valentin


Hoje, em 2010, a coisa não continua na mesma. Piorou demasiadamente. Inocente, crédula, sem opinião crítica, a população assiste, mais uma vez, as autoridades fingirem que atacam o tráfico. Assiste ainda as FFAA, brincando de polícia e ladrão. Tudo encenação.
O governo federal estima que o tráfico de drogas movimente 600 milhões de reais por ano. Isso dá 50 milhões de reais por mês. Fazendo-se uma estimativa de gastos, pode-se dizer que 30 milhões sejam investidos no negócio, 10 milhões sejam para gastos pessoais da chefia e 10 milhões sejam destinados à propina, para uma lista como a acima encontrada com o bicheiro.
Vamos raciocinar: Um fuzil AK47 custa 15 mil reais. Um quilo de cocaína 50%, na fronteira, custa cerca de 6 mil reais. Portanto, ter 30 milhões de reais todo mês para gastar com armamento, droga e logística, dá para manter qualquer organização bem armada e bem equipada.
Já 10 milhões de reais por mês, para manter os chefes do tráfico, é uma soma que passa pelos sonhos de todo político corrupto. E ainda sobram 10 milhões do mês para propina. Sobra até uns tico-ticos para os contínuos das repartições. Se o raciocínio acima está errado, para onde vai toda essa dinheirama? Quem, verdadeiramente, fica com a parte do leão dessa jogada? O pé de chinelo, portando um fuzil, de bermudão, sandália havaiana e sem camisa, no alto do morro?
Então, com a atual “operação abafa” os políticos e autoridades estão cuspindo no prato que comem? Nada disso, cara pálida. É tudo um circo para a mídia nacional e internacional fazer propaganda. Por trás das cortinas desse teatro, onde se acomoda a realidade, se o tráfico acabar, de onde sairá a propina para molhar a mão das autoridades e políticos? De onde sairá a grana para os advogados que estão envolvidos com os criminosos? Só Fernandinho Beira Mar tem vinte! E a cocaína para a alta sociedade e os vips da TV? Pode faltar? Onde estará o tolo que irá matar a galinha dos ovos de ouro?
O circo está armado e a propaganda feita. Aguardam-se os resultados. Na conferência ECO92, no mesmo Rio, Collor armou o tal circo. Quando a conferência acabou, o pó circulou com mais intensidade. Agora, daqui algumas semanas, tudo volta ao que era antes. Novos acordos com os bandidos serão feitos e todos ficarão satisfeitos, até que um novo descompasso qualquer entre os “sócios” obrigue que seja preciso armar o circo novamente.
Até lá!

L Valentin
28/11/10
Anita Driemeier
e-mail : anitadriemeier@gmail.com

Obs.: Texto recebido de meu amigo João Roberto Gullino (F. Maier).