MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964

MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964
Avião voa sobre a orla carioca em 31/03/2014, ostentando faixa com os seguintes dizeres: "PARABÉNS MILITARES - 31/MARÇO/64 - GRAÇAS A VOCÊS O BRASIL NÃO É CUBA". Clique na imagem acima para acessar MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964 - uma seleção de artigos sobre o tema.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Guerra do Rio: O fracasso da política de Cabral é um sucesso!

Blog do Jorge Roriz

As políticas turísticas de segurança de Sérgio Cabral

Posted: 26 Nov 2010 06:07 PM PST

Caras e caros, este é um texto bastante importante para entender o que estava e o que está em curso. Vamos lá.
A bagunça no Rio está nos jornais e sites noticiosos do mundo inteiro. Seria notícia a qualquer tempo e em qualquer circunstância, mas chama ainda mais a atenção porque a cidade sediará a Olimpíada de 2016, e o Brasil, a Copa do Mundo de 2014 — a capital fluminense é “o” cartão postal da disputa. E todos se fazem a pergunta óbvia: terá uma cidade com essas características condições de receber esses dois mega-eventos? Falta ainda bastante tempo. Até lá, políticas sensatas, se aplicadas, podem render frutos. Mas cumpre fazer algumas considerações.
As UPPs já eram parte de uma bem-urdida política de marketing. Com ela, o governo conseguiria duas coisas: pacificar a “comunidade”, este substantivo de sentido cada vez mais etéreo, combater o crime e evitar a violência. Uma coleção de objetivos louváveis não faz necessariamente uma política pública eficiente. Bem, a coisa deu no que deu. Em algum momento, alguém rompeu algum acordo — quando o jornalismo parar de aplaudir Sérgio Cabral, talvez se descubra o que houve —, e a situação desandou. Mas reitero: a UPP, ainda que possa trazer algum benefício para os sem-estado, era um programa mais turístico do que de segurança pública. Como? Estou exagerando? Então leiam esta reportagem do Estadão de 18 de agosto (leiam com atenção). ESCULHAMBEI ESTE TROÇO AQUI. FALEI SOZINHO!!!
Recém-incorporadas ao discurso da candidata do PT à Presidência, Dilma Rousseff, as Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) criadas pelo governador Sérgio Cabral Filho (PMDB) foram adotadas pelo Ministério do Turismo. Com investimento inicial de R$ 184 mil do governo federal, será lançado dia 30, no Morro Dona Marta, com a presença confirmada do presidente Lula, o projeto-piloto Rio Top Tour. O objetivo da iniciativa, anunciada no site do ministério, é “aproveitar o potencial turístico do local a partir da inclusão dos moradores“.
O evento, em plena campanha eleitoral, estava marcado para o dia 13, como havia informado a coluna Palanque. O primeiro anúncio foi feito por Cabral, via Twitter. Ontem, no debate entre os candidatos a vice dos presidenciáveis, promovido pelo Estado, o companheiro de chapa da petista, Michel Temer (PMDB), citou o exemplo das UPPs, tema que virou quase um mantra na campanha.
O texto de divulgação do projeto – realizado em convênio com a Secretaria de Turismo, Esporte e Lazer do Estado – é só elogios ao programa da Secretaria de Segurança do governo peemedebista: “Depois de um dia de praia, uma caminhada no calçadão e uma visita ao Cristo Redentor, nada mais agradável para o turista que conhecer mais de perto a cultura e tradição de um lugar tão rico como o Rio. Melhor ainda se esse contato se der em uma comunidade que hoje é símbolo de uma nova cidade, com seus serviços, produtos, segurança e hospitalidade prontos para atender todos os visitantes”.
O release diz que o morro, “até pouco tempo marginalizado pela violência e pelo crime organizado, caminha para se tornar esse ponto turístico dentro da Cidade Maravilhosa”. Por e-mail, o ministério informou que o projeto, “executado pelo Estado, é viabilizado por meio de um convênio que contempla uma UPP, embora não estejam necessariamente vinculados”. Ou seja, o Rio Top Tour não seria voltado exclusivamente para locais onde as UPPs estão consolidadas. Essa, contudo, não é a informação que aparece no release divulgado no dia 13, quando o ministro do Turismo, Luiz Barretto, visitou a favela.
“O objetivo é que o Rio Top Tour seja estendido para as demais comunidades que foram pacificadas com as UPPs. A segunda comunidade a receber o projeto será o Morro da Providência”, diz o texto. Barretto afirmou na ocasião estar “certo de que teremos um modelo a ser implementado em outras comunidades da cidade que também precisam desta valorização”.
Segundo o projeto, 50 moradores do Dona Marta – que tem mais de 5 mil moradores – receberão treinamento e haverá uma linha de crédito especial. Estão previstos estandes de informação no morro e em bairros próximos, placas e adesivos para promover pontos turísticos e a distribuição de folhetos em português e inglês. “O charme dos belos mirantes e das paisagens ganhou visibilidade em 1996, quando Michael Jackson gravou trechos de um videoclipe em uma laje no alto do morro”, destaca o ministério.
E agora?Não é mesmo uma linguagem encantadora, sedutora? A bandidagem, por alguma razão, desarranjou a poesia turística de Cabral, Lula, Dilma e companhia. E a poesia antes oferecida aos turistas foi substituída pela exibição de força. Até havia pouco, a simples menção de contar com a colaboração das Forças Armadas, por exemplo, era considerada absurda. Quando o Exército era excepcionalmente chamado, lá iam os recrutas. Desta vez, são forças regulares.
E muitos — dos jornalistas ao ministro da Defesa, Nelson Jobim, passando por Sérgio Cabral — falam em “dia histórico”, “decisão histórica” e outras hipérboles. Sem dúvida, estamos diante de uma mudança histórica da política de marketing. Em vez da paz, a guerra. Os turistas continuam de olho. Nunca antes nestepaiz uma política desastrada foi tão aplaudida.

Viva o Rio, abaixo a mistificação! Ou: o fracasso da política de Cabral é um sucesso!

Tentando, só tentando, botar um pouco de ordem na barafunda. É claro que sou favorável às Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs). Eu sou a favor, aliás, de tudo o que pacifique e não mistifique. O que tenho escrito aqui há quase dois meses, quando a bandidagem ainda fazia o obsequioso silêncio pré-eleitoral (por que acordou depois é um mistério bem-guardado até agora), é que não existe pacificação sem prisão de marginais. Para algum lugar, eu inferia, eles tinham ido, não é mesmo? Das três uma: a polícia do Rio pode prender os bandidos, matar os bandidos ou exportar os bandidos. Decretar a sua inexistência, bem, isso não era possível.
O mesmo se diga em relação às drogas. Como as UPPs eram anunciadas com antecedência — “Olhem que nós estamos chegando” — e como o objetivo não era pôr fim ao tráfico, mas torná-lo mais decoroso, não se apreendia um grama de nada. Nadica mesmo! Tanto é assim que o preço do bagulho se manteve. Bandido não abre mão de sua margem de lucro. Se o “material” rareia e se há dificuldades logísticas para a oferta — ou mesmo impedimentos para a procura —, a margem se mantém de que modo? Elevando o preço. A lei de mercado, leitor, é a segunda natureza dos humanos — existe na legalidade e na ilegalidade. Se a ação de Cabral desafiava essa natureza, então ela não era o que dizia ser. É uma questão óbvia.
Pois não é que a Polícia anuncia que já aprendeu duas toneladas de drogas depois que a UPP do B — a Unidade de Polícia Prendedora — entrou em ação? Não só isso: 192 pessoas foram presas. E dou de barato, até evidência em contrário, que não estavam lendo Os Lusíadas quando isso aconteceu. Pelo menos 43 teriam morrido. Bem, dada a política anterior de Sérgio Cabral, cujo fracasso é um sucesso!!!, os quase 200 bandidos estariam soltos, e as duas toneladas de drogas, inundando o mercado.
O que estou deixando evidente é que a Unidade de Polícia Pacificadora como política de segurança pública é uma falácia, ainda que, atenção!, a presença do estado nos morros possa trazer alguns benefícios, coibindo delitos no dia-a-dia numa área em que a presença do estado é quase nenhuma. Reitero: é um fracasso COMO POLÍTICA DE SEGURANÇA PÚBLICA! Bandido tem de ser preso. Drogas e armas têm de ser apreendidas. Sem prejuízo, obviamente, de se procurar ter uma base do estado nas comunidades.
As favelas do Rio precisam, sim, ser pacificadas. Mas, antes de tudo, precisam ser LIBERTADAS, essa é a questão. É preciso ser um tantinho inocente para não perceber o que estava em curso: uma política de acomodação e disciplinamento do tráfico, o que acabou resultado em mão-de-obra criminosa ociosa. Ou bem ela vai para a cadeia ou bem vai fazer o que sabe: tomar na marra os objetos de seu desejo.
Nas entrevistas, Sérgio Cabral, agora muito pudoroso — não é aquele do palanque…— fala na dimensão histórica do que está em curso no Rio. E, nota-se, trata da bagunça como coisa já resolvida, já solucionada. Não dá! Alguns leitores não entenderam o sentido daquele texto da madrugada em que afirmo que, até agora, está dois a zero para o óbvio. Quis chamar a atenção, ali, para o fato de que 1) há algum tempo vinha apontado a farsa que era a UPP na forma como vinha sendo vendida; 2) há muitos anos acho que as Forças Armadas têm, sim, de entrar nessa guerra — porque é uma guerra. E não é para matar, não!, mas para salvar vidas, libertar a população refém do narcotráfico.
Assim, dada a realidade, parece-me que as ações em curso procedem. E todos temos de torcer para que os bandidos sejam postos na cadeia. Mas isso não deve nos impedir de apontar que uma mistificação estava em curso. É simplesmente ridículo que Cabral tente vender as decisões de agora como uma simples continuidade do que havia. Beltrame prendeu mais bandidos ligados ao narcotráfico em três dias do que em quatro anos. E apontar esses desacertos é uma obrigação. Mais: o objetivo tem de ser, sim, eliminar o tráfico também nas áreas pacificadas; não existe um modo limpinho e higienizado de vender pó e maconha.
Todo apoio à prisão da bandidagem e às ações que buscam pôr ordem no Rio. Mas a gente não precisa parar de pensar só porque decidiu ser patriota.

Por Reinaldo Azevedo