MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964

MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964
Avião voa sobre a orla carioca em 31/03/2014, ostentando faixa com os seguintes dizeres: "PARABÉNS MILITARES - 31/MARÇO/64 - GRAÇAS A VOCÊS O BRASIL NÃO É CUBA". Clique na imagem acima para acessar MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964 - uma seleção de artigos sobre o tema.

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Um blefe arriscado

Um Blefe Arriscado

Publicado: 13/08/2010 08:40

Ronaldo Ausone Lupinacci*

ronaldo.lupinacci@terra.com.br

Há não muito tempo atrás, o presidente venezuelano Hugo Chavez começou a armar seu país, reforçando consideravelmente o respectivo poderio bélico, sem que se apresentasse como justificativa alguma ameaça real. Depois, passou a falar de “ventos de guerra” que estariam começando a soprar na América do Sul com a instalação de bases militares norte-americanas na Colômbia(1), destinadas a ajudar no combate ao narcotráfico.

Voltou Chavez a falar de guerra nos últimos dias, para se contrapor à denúncia do ex-presidente colombiano Uribe, acerca do acobertamento, pela Venezuela, de redutos da guerrilha comunista (FARC). Se Chavez não merece ser levado muito a sério, o mesmo não se pode dizer de Fidel Castro. Não porque Fidel tenha maior credibilidade, mas porque é muito mais perigoso. A prova de tal afirmação se encontra, inclusive, na calorosa recepção que lhe ofereceram a superlativamente cega burguesia nacional - e os não menos cegos - políticos, artistas, intelectuais e... até autoridades religiosas tupiniquins, quando da visita do ditador cubano ao Brasil, no ano de 1990.

Sucede que Fidel Castro reapareceu, agora, no centro do noticiário internacional exatamente para falar sobre os riscos de uma guerra nuclear, que seriam iminentes em decorrência da instabilidade motivada por sucessivos incidentes na península coreana, e, sobretudo, pelas fricções desencadeadas entre o Irã e os Estados Unidos, acerca do programa nuclear impulsionado por Mahmoud Ahmadinejad, naquele mesmo país em que se apedrejam mulheres supostamente infiéis.

O retorno de Fidel deu-se mediante vistoso show publicitário, com a presença da imprensa estrangeira, denotando que tudo foi bem calculado para causar forte impacto nos meios políticos, e no público em geral. Como pretexto, Castro valeu-se de que dias antes o chefe do Estado-Maior conjunto dos Estados Unidos havia assegurado existir um plano de ataque ao Irã, caso este se equipasse com armamento nuclear(2).

Outros fatos, de menor envergadura, vêm ocorrendo no sentido de compor um cenário de tensão, como, por exemplo, a interceptação de dois bombardeiros russos (aptos a disparar ogivas atômicas) pelo sistema de defesa do Canadá na costa atlântica da América do Norte, onde não havia nenhum motivo plausível para trafegarem(3). Parece, portanto que está sendo fabricado, pouco a pouco, um quadro de confrontação bélica de grandes proporções. O risco é real?

Não parece, por enquanto. Tudo indica que se acha em processo de montagem, isto sim, uma (mais uma!) gigantesca farsa política. Contudo, uma farsa que pode se tornar perigosa, tanto quanto é perigoso brincar com o fogo. É evidente que a Coréia do Norte, na qual faltam até os alimentos, carece das mínimas condições para enfrentar militarmente os Estados Unidos, ou quem quer que seja. Isso, desde que não conte com o patrocínio de sua tutora, a China... Por igual, o Irã, desde que não conte com sua protetora, a Rússia. Estarão todos eles dispostos a produzir uma guerra de extensão planetária? Só se pode pensar que não. Todavia, o blefe encerra um risco. E, o risco pode se tornar realidade, infelizmente, uma vez que estão presentes os dois ingredientes básicos de um conflito bélico: a insanidade humana e o gigantesco arsenal de armas de destruição coletiva.

Por ora, entretanto, o que mais importa analisar é o blefe. Para responder às indagações que surgem a tal respeito, é preciso excogitar o que resultaria de um teatral cenário de guerra, gerado por provocações contínuas, como as que vêm acontecendo (entre outras, o Irã disse já ter cavado valas para sepultar soldados norte-americanos invasores de seu território(4)). E, excogitar, também, das vantagens para aqueles de quem Fidel Castro é mero porta-voz, ou títere como todos os dirigentes visíveis dos regimes comunistas. Emergem, então, duas hipóteses que se entrelaçam.

Sempre foi projeto dos revolucionários a instalação de um super-governo mundial, uma república universal, na qual a identidade de cada Estado não passaria, talvez, de mera fachada. Isso consta da Declaração de Oslo de 1962, emitida pela Internacional Socialista(5), como já constara do Estatuto da Internacional Comunista aprovado em 1920. Passos importantes foram dados, rumo à referida república universal, tais como a constituição da hoje extinta União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), mas substituída pela Comunidade de Estados Independentes, da União Européia, e, mais recentemente da UNASUL, ora em fase de organização na América Latina. A crescente ingerência de organismos internacionais (ONU, OEA), coadjuvados por ONGS bem financiadas, em questões internas de alguns países compõe a mesma estratégia. Supõe-se, então, que os republicanos universalistas estejam descontentes com a morosidade da caminhada, e, com as resistências que estão enfrentando (nos Estados Unidos, em Honduras, na Colômbia e na Hungria, por exemplo), e pretendam, agora, pisar no acelerador. Dispõem de trunfos poderosos, sobre os quais não sobra espaço para falar hoje. Esta primeira hipótese não foi aventada por mim; em linhas gerais foi considerada, juntamente com algumas outras similares, por estudiosos europeus há mais de vinte anos atrás, ou seja, ainda no período da chamada Guerra Fria. Daí a sua consistência.

Assim, se pode imaginar, que num dado momento de apreensão e pânico generalizados, causados por uma série de incidentes potencialmente graves, seria criada uma coordenação supranacional, como entidade para assegurar a “paz”. Tal entidade governativa, em seguida à obtenção da “paz”, e contando com o esfacelamento das soberanias, passaria a por em prática o programa neocomunista-ecologista, através dos instrumentos clássicos de transformação do regime sócio-econômico (propaganda, força e burocracia), ou quiçá de outros, talvez até no estilo Khmer Rouge, adotado no desditoso Cambodge nos anos 70.

Ao lado disso, há um conjunto de fatos correlatos, tendentes ao progressivo isolamento dos Estados Unidos, que se encaixa muito bem naqueles mesmos propósitos acima aventados. A opinião pública norte-americana ficaria, assim, pressionada por fatores de ameaça, a começar pela destruição de sua economia. Em outras palavras, far-se-ia a reedição da chantagem utilizada durante a Guerra Fria expressa na fórmula alternativa red or dead (vermelho ou morto). O isolacionismo dos Estados Unidos também não é invenção minha, até porque já se patenteou no passado.

Mas, afora o risco de que tal sinistro jogo político degenere em guerra, é possível antever uma outra conseqüência, que tenderá a se antecipar ao clima de confronto armado. Os progressos dos republicanos universalistas – que não são outros senão os esquerdistas, isto é comunistas, socialistas e afins - até agora dependeram da mantença da opinião pública num estado de bobeira geral, de anestesia, gerada no ambiente de desinformação induzida pela guerra psicológica, que pode cessar quando as coisas ficarem mais claras. E, se isso vier a acontecer, fatalmente eclodirão divisões dentro de cada país, especialmente naqueles onde a disputa ideológica se apresenta mais acirrada. Se o blefe se confirmar será, sem dúvida, muito arriscado.

*O autor é advogado e agropecuarista.(1)

http://oglobo.globo.com/mundo/mat/2009/08/10/chavez-diz-que-ventos-de-guerra-comecam-soprar-na-america-do-sul-757339865.asp(2) http://www1.folha.uol.com.br/mundo/779451-fidel-aparece-de-uniforme-militar-no-parlamento-cubano-pela-1-vez-em-4-anos.shtml(3) http://www1.folha.uol.com.br/mundo/775695-canada-diz-ter-interceptado-dois-bombardeiros-russos-no-atlantico.shtml(4) http://www1.folha.uol.com.br/mundo/781128-ira-cava-valas-para-enterrar-soldados-dos-eua-diz-militar.shtml(5) http://pt.wikipedia.org/wiki/Internacional_Socialista(publicado em http://www.jornalnovafronteira.com.br/?p=MConteudo&i=1426 em 13.08.10)