MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964

MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964
Avião voa sobre a orla carioca em 31/03/2014, ostentando faixa com os seguintes dizeres: "PARABÉNS MILITARES - 31/MARÇO/64 - GRAÇAS A VOCÊS O BRASIL NÃO É CUBA". Clique na imagem acima para acessar MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964 - uma seleção de artigos sobre o tema.

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Sargentão Dunga


Sargentão Dunga

Ernesto Caruso

05/07/2010

Uma outra visão.

Aumentativo com a intenção de denegrir; injusta e ofensiva a um segmento da sociedade que muito trabalha, servindo à Pátria nos quartéis, navios e bases aéreas, contribuindo na preparação dos soldados. Uma vida difícil, dedicada, laboriosa, por vezes, isolado em uma fronteira, longe da família e sem as oportunidades que as cidades oferecem de lazer e bem estar.

Não se imagina que um sargento ao entrar de serviço em um domingo qualquer, como os outros militares, cumpre 24 horas nessa atividade; no dia seguinte, não vai para casa, permanece no exercício das suas funções na burocracia ou na instrução; mais 8 horas de trabalho. Na terça-feira, às 7 horas lá está ele, pronto para mais uma jornada. Ficara um domingo e uma segunda-feira, mais de 32 horas, trabalhando. Ora, 24 horas significam 3 jornadas de 8 horas. Em qualquer outra atividade, teria uma folga de 48 ou 72 horas.

Pois é. O jeito do Dunga, nas entrevistas, não muito à vontade, por sua personalidade, bastante fustigado, porque não convocou certos jogadores, lhe deu o epíteto de sargentão, como mandão, ranzinza, irritado. Obviamente, porque a seleção foi eliminada nas quartas de finais, sem considerar a classificação entre as oito melhores equipes do campeonato.

A imagem que passava nas entrevistas não era a mesma no convívio com os jogadores, sem chegar a pieguice e exageros do Maradona. A seleção brasileira transmitia um bom relacionamento entre o técnico e os jogadores. Também não parecia ser um mandão, pois as decisões vinham de estudos compartilhados com seu auxiliar direto, demonstrado pela televisão.

Ansiava preservar os jogadores, na sua concepção de gestão e os defendia.

O relacionamento com a imprensa não foi dos melhores, diferente do jeito de ser de um Zagalo. Quem sabe, portador de uma timidez interiorana que o inibe em público. Demonstrava imparcialidade na concessão de entrevistas, atendo-se a um tratamento equânime, sem essa de “exclusiva”. Não é um bajulador, nem apegado a cargo por subserviência.

A imprensa (ou parte) não lhe poupou, diferente do tratamento dado a Zagalo em 1998. Esse não sofreu uma crítica sequer por ter escalado um Ronaldo, “tonto” dentro do campo, como se viu. Ao chegar (Quem não se lembra?) perguntou de forma a justificar a sua decisão: “Quem teria peito de não escalar o Ronaldinho?” Mais ou menos assim.

Desta feita, o clima gerado fez com que a CBF anunciasse no domingo, sem o mínimo de consideração, dois dias após a derrota para a Holanda, que o técnico Dunga e a comissão técnica foram destituídos do cargo. Uma agressão muito pior do que o “pisão” — condenável, mas no clamor do jogo — do L. Fabiano.

O programa Fantástico da Globo exibiu uma reunião de técnicos do “cérebro” e da mente. Um deles disse que o tapa do Dunga no alambrado, apresentado e visto por todos, tinha o mesmo significado do “pisão” do Fabiano, acrescentando que a agressividade era reflexo do comportamento do Dunga.

Quem não esbravejou, deu soco no sofá, bateu o pé no chão, reação de cada um, mais ou menos intensas. Há gente que enfarta, não?

Viu-se no repórter que deu a notícia da demissão do técnico a satisfação estampada no rosto.

Na chegada no aeroporto, a narrativa sobre o L. Fabiano é deprimente, como um jogador acuado, tentando escapar daquele cenário reprovador. Esqueceram dos nossos atletas postos para fora das lides, como Elano no jogo contra a Costa do Marfim, ferido pelo “pisão” de Tiote e Felipe Melo por Pepe no jogo com Portugal.

Concentração passou a ser chamada de “reclusão da era Dunga”.

Gostar ou não de um técnico, de um jogador, lamentar a derrota, é direito do torcedor, mas agredir os membros da seleção é o mesmo que depredar estádios devido ao desempenho do clube, como já ocorreu.

Lula disse na véspera que não se podia responsabilizar jogadores e o Dunga, que teve um desempenho aprovado até aquele momento adverso.

No dia seguinte a demissão de toda a comissão; degola corretiva. Não tiveram a mínima consideração de recebê-los.

Se a seleção fosse vitoriosa, aí, sim, seria homenageada com pompa no Palácio, por Lula. Não se pode entender que mesmo, com essa viagem à África, obviamente planejada, com presença no jogo final da Copa, não dava para aguardar o momento da demissão, apaziguar os ânimos e prestigiar a seleção no retorno à Brasília. Ou que fosse feito pelo presidente no continente africano.

Os mesmos que censuram o modo Dunga, nada de mau viram no gesto coercitivo da sua demissão. Devem ter gostado. Se fosse uma decisão de militar, seria chamado de sargentão ou general arrogante.

De parabéns os argentinos, que não sofreram a campanha de descrédito da imprensa e prestigiados na chegada a Buenos Aires, com batedores e alegria.

Minha continência ao Sargentão Dunga, que foi grande Capitão nos campos das vitórias, e à Seleção brasileira.