MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964

MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964
Avião voa sobre a orla carioca em 31/03/2014, ostentando faixa com os seguintes dizeres: "PARABÉNS MILITARES - 31/MARÇO/64 - GRAÇAS A VOCÊS O BRASIL NÃO É CUBA". Clique na imagem acima para acessar MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964 - uma seleção de artigos sobre o tema.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

O canhão é nosso!

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Importância do Canhão

Alexandre Gonçalves

O Canhão El Cristiano tem sido confundido, nas discussões feitas entre o Estado brasileiro e o paraguaio, com um símbolo da dignidade paraguaia, vilmente confiscado pelo povo brasileiro durante a Guerra do Paraguai. Os dados, contudo, não são completamente corretos.

O mesmo canhão fora forjado, por ocasião da guerra, com o bronze dos sinos das Igrejas de Assunção, já formalmente separadas do Estado, que não tiveram direito de anuência ao mesmo, tendo sido tal fato compreendido no “Esforço de Guerra”. O confisco de tal bronze dos locais de culto católico, sagrado para muitos na ocasião, concretiza o que já era expresso no governo paraguaio durante a guerra, e que o levou a mesma: o autoritarismo que suplanta as necessidades e a vontade do povo.

Sendo um obus de grande capacidade para a época, o mesmo estreou na Batalha de Curupayti, quando o General Mitre, a frente do comando das tropas aliadas, logrou uma severa derrota e a baixa de mais de 8 mil de seus comandados. Definitivamente, dadas as proporções de formação do contingente aliado, o bronze do canhão, não ressoando mais durante os cultos, ressoou ao expulsar projéteis, para perfazer a morte de milhares de brasileiros.



Canhão "El Cristiano" exposto no pátio do Museu Histórico Nacional

Troféus de guerra, usualmente, não são devolvidos. Embora o mesmo não explicite a humilhação do antigo dono da peça, o mesmo serve para lembrar o que lá aconteceu e a bravura dos que nele participaram. Diversas peças de artilharia, mais modernas do que “El Cristiano”, também conquistadas em batalha – na II Guerra Mundial – encontram-se expostos no Museu do Exército, Forte de Copacabana, sem que, para tanto, a dignidade dos países do Eixo fosse contestada.
Aliás, cabe aqui fazer uma relação. Os países membros do Eixo souberam compreender o caráter defensivo da II Guerra Mundial, a megalomania de seus então representantes e os motivos expansionistas e nefastos que motivaram tal guerra. Cabe, contudo, aos governantes do Paraguai, compreenderem, hoje, – seja pela postura brasileira durante o conflito ou pela proteção brasileira legada ao Paraguai depois do mesmo – que tal guerra jamais foi contra o povo paraguaio, ou sua dignidade, mas contra um governante igualmente megalômano, que visava os mesmos motivos expansionistas outrora citados para qualificar os governantes do Eixo.

Uma peça de artilharia que, no passado, deixada para trás pelas forças paraguaias, foi confiscada para não permitir seu repetido uso para matar brasileiros – e aliados – não deve hoje ser devolvida sob falsos pretextos, esquecendo-se assim não só daqueles que a capturaram, mas de todos os heróis anônimos que por seu intermédio pereceram nos campos de batalha. Cabe sim, como mais um gesto de humanidade ao povo paraguaio, que a memória seja preservada, e que, como nação irmã que somos, na comunidade sul-americana, os relembremos o real foco da sua dignidade.



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Histórico da Guerra do Paraguai

Prof. Otto de Alencar de Sá Pereira
Pedro Andrade Corrêa de Brito

A Guerra contra o Paraguai foi um sonho de poder de Solano Lopez, semelhante, em menor escala, aos de Hitler e Mussolini. O Ditador da “República do Paraguay” Francisco Solano Lopez, “sucedeu”, no poder, a seu pai, Antônio Solano Lopez. O sonho dos dois, mas só quase realizado pelo filho, seria um engrandecimento do território paraguaio, para atingir o mar. O ditador queria instaurar um império com as terras paraguaias, somadas à região de Corrientes, na Argentina, ao Uruguai, e ao nosso Rio Grande do Sul. Esse “Império do Prata” o teria como imperador. Tentou, o mesmo, a propor casamento com a Princesa D. Isabel, à imitação dos Napoleões - o Primeiro, que era o seu ídolo, e o Terceiro, que era seu mentor, aliado, etc. Viviam uma época em que se formavam impérios de “parvenus”, como foram os citados, os do Haiti, o do México (o Imperador era um Habsburgo, mas seu mentor era Napoleão III).

Francisco Solano Lopez, às surdinas, criou um exército bastante poderoso para a época, oitenta mil homens, armado e treinado por oficiais franceses. Havia necessidade de um pretexto para a guerra. O Senador Carlos Carneiro de Campos, parente próximo do Marquês de Caravelas, foi nomeado pelo Imperador, Presidente da Província do Mato Grosso. Para chegar lá, os navios brasileiros deveriam tomar o Rio Paraguai, em território paraguaio, e, havia um tratado anterior, entre os dois países, que permitia essa navegação fluvial. Solano Lopez, fingindo desconhecer o tratado, aprisionou o navio, sua tripulação e o Presidente-nomeado da Província do Mato Grosso, além de alta quantia em dinheiro brasileiro, que o senador portava para estabelecer sua governança. Alegando ter o Brasil penetrado em águas paraguaias, Solano Lopez ordenou a invasão do Mato Grosso (epopéia narrada pelo Visconde de Taunay, em seu livro “A Retirada de Laguna”). Assim começou a guerra conhecida como Guerra do Paraguai - muito bem nomeada, pois foi mesmo o ditador desse país quem iniciou a guerra.

Para tal feito, o Paraguai alegou que as intervenções políticas que o Império do Brasil realizou no Uruguai eram absurdas, e enviando tropas ao Uruguai para restabelecer o partido que fora deposto pela influência Brasileira em guerra anterior, cruzou território argentino sem a permissão de deslocamento de tropas, e a Argentina, que pretendia manter neutralidade no conflito, viu sua soberania ser desconsiderada e declarou guerra ao Paraguai. Consequentemente, o exército de Solano Lopez anexou algumas províncias do norte da Argentina, como Corrientes. Lopez pretendia, na realidade, obter o apoio dos Blancos Uruguaios na guerra, e flertar com a província brasileira do Rio Grande do Sul para engrossar as fileiras paraguaias - província essa que já fora foco de movimento separatista, a Revolução Farroupilha - e tomando a província brasileira e o Estado uruguaio como aliados, enfim, conquistaria seu acesso direto ao mar.


A situação era extremamente delicada e um incidente diplomático entre o Império Brasileiro e o Reino Unido Britânico – Questão Christie - fez com que as relações diplomáticas entre os dois países fossem rompidas, o que impossibilita um argumento, várias vezes repetido, de que a Inglaterra teria pressionado o Brasil, diplomaticamente, a entrar em guerra com o Paraguai.


Com a Retirada de Laguna e a invasão paraguaia em terras argentinas, uruguaias e brasileiras, formou-se a tríplice aliança (Brasil, Argentina e Uruguai), contra o Paraguai. A primeira vista, e aos maus informados, parece uma covardia: três países contra um só. Entretanto, no princípio da guerra, como já foi dito, o Paraguai possuía um exército de 80 mil homens, o Uruguai só de 2 mil homens, a Argentina só de 12 mil e o Brasil, de 20 mil . Ficou decidido, na Tríplice Aliança, que o Comando-Geral das tropas caberia ao governo em cujo território estivesse combatendo; por isso, na primeira fase, foi o General Mitre, presidente da Argentina, o Comandante-em-Chefe.

Até esse momento, o Brasil não possuía Forças Armadas padronizadas e definitivas, o que fez a mobilização e o preparo das tropas brasileiras um dos agravantes da longa duração do conflito. A criação da Imperial Armada de Guerra do Brasil foi essencial para a vantagem da Tríplice Aliança no decorrer da Guerra e, uma vez que a manutenção do Rio (e afluentes) do Prata era essencial como ponto estratégico: grande parte das importantes batalhas da guerra foram travadas em rios. Tal fato contribuiu para tornar, assim, a nossa Marinha Imperial uma das mais poderosas das Américas.

Essa primeira fase foi calamitosa por duas razões: a primeira, Mitre não tinha moral para comandar os generais do Império do Brasil: o comando ficou desgovernado; a segunda, a Batalha de Curupaity, na qual Mitre levou os exércitos ao campo aberto, para enfrentar os paraguaios; ai surge o canhão “El Cristiano”, que derrubou milhares de aliados, na sua maioria, brasileiros. Mas, apesar dessa derrota aliada, o Exército Imperial consegue vencer os Paraguaios em Uruguayana. A derrota paraguaia nessa batalha parecia o fim da guerra e, o próprio Imperador Dom Pedro II, foi ao centro de combate, com os seus dois genros: o Conde D`Eu, e o Duque de Saxe, para assistirem a rendição de Uruguayana. A guerra, entretanto, não findara. “El Cristiano”, um canhão Bertha da época, foi levado pelos paraguaios mais para o norte, junto ao rio, para enfrentar a Marinha Imperial Brasileira. Começava a segunda fase da Guerra do Paraguai.

Dom Pedro II obtivera duas vitórias diplomáticas: a primeira, convencer o Presidente do Conselho de Ministros, Zacarias Vasconcellos, um liberal, a conseguir a nomeação do então Marquês de Caxias, um conservador, no Comando das tropas brasileiras, e nas operações de guerra.

A segunda, convencer os Presidentes Mitre – da Argentina – e Flores – do Uruguay, a aceitarem o Comando-Geral de um brasileiro – Caxias – uma vez que a guerra se desenvolveria, agora, só em território paraguaio. Essa segunda fase da guerra foi de grandes vitórias brasileiras, em terra e fluviais, como foram a Batalha do Riachuelo e a Passagem de Humaitá.Nessa última, “o Bertha paraguaio”, ou seja, “Cañon El Cristiano”, que tinha esse nome pois fora fundido com o bronze dos sinos de Assunção, foi abandonado pelos paraguaios, em fuga desabrida, depois da derrota.


Seguiram-se outras vitórias de terra e fluviais, nas quais o Brasil, graças não só a Caxias, mas aos seus subordinados - o General Osório, Marquês de Herval; o Conde de Porto Alegre; o General Mena Barreto; etc – e na Marinha, os dois grandes – Joaquim Marques Lisboa, Marquês de Tamandaré; e Almirante Barroso, Barão do Amazonas – sem contarmos centenas de heróis de terra e rio, como o mais célebre: o marinheiro Marcílio Dias. Termina a segunda fase com a tomada de Assunção pelas tropas brasileiras.


A terceira fase da guerra, comandada pelo Conde D’Eu, concluiu a guerra, com a grande vitória de Campo Grande. O antes prepotente Generalíssimo - como era denominado Solano em seu país - agora se encontrava acuado e foragido no interior do Paraguai e, resistindo a sua captura em 1° de março de 1870, foi morto por um golpe de lança e dois tiros na cintura, por soldados brasileiros, pondo-se fim definitivo à guerra.

“El Cristiano” foi levado para o Brasil com muitos outros troféus de guerra. O Império do Brasil, vitorioso, não ficou nem com um metro quadrado de território paraguaio, mas o Visconde do Rio Branco (pai do Barão), foi nomeado pelo Imperador, para democratizar o Paraguai, o que fez com grande eficiência. O Conde D’Eu, vitorioso da última fase da guerra, concluía o trabalho do Visconde, pedindo e obtendo, do governo provisório paraguaio, a libertação de todos os escravos paraguaios (antecipando-se, nesse ato, à própria esposa, a Princesa Isabel, por dezoito anos). Dom Pedro II passa, a ser então, cognominado “O Magnânimo”, uma vez que em diversas guerras internas e externas sob o II Reinado – e sobretudo a Guerra do Paraguai – perdoava os prisioneiros de guerra capturados, concedendo-lhes o Perdão Imperial, o que impedia que fossem fuzilados como era a prática de guerra de então com tropas capturadas. O Império do Brasil, após a guerra, entrou em seu momento de maior esplendor e poder, mas o preço da Maldita Guerra fora alto.

O Paraguai ficou com uma dívida de guerra de quarenta contos de réis, quantia expressiva para a época. Essa dívida, não se sabe por que, foi perdoada ao Paraguai, no governo Getúlio Vargas. Foi uma atitude fidalga do presidente Vargas – que instituiu a preservação do Patrimônio Histórico Nacional pelo Decreto-Lei 25/1937, ainda em vigor.

Milhares de vidas humanas foram perdidas na guerra. Para o Imperador, teria sido muito melhor a captura e a prisão de Solano Lopez do que sua morte; a guerra fora longa e dura. Exatamente por esse motivo, não houve grandes festas e recepções aos combatentes Brasileiros após voltarem da peleja; houve a sensibilidade do Imperador do Brasil em não comemorar a vitória de uma guerra defensiva, assim como houve também a ponderação de preservar a independência e soberania do Paraguai como um Estado livre, ante os anseios argentinos, que pediam a partilha do território paraguaio entre Argentina e Brasil.

O principal fator que assegurou a preservação do Paraguai como país independente foi a atuação firme do Império do Brasil na proteção de seu território, sendo mantido como Protetorado – de fato - do Império até 1876 , quando a Argentina reconheceu, enfim, seis anos após o término do maior conflito da América do Sul, o Paraguai oficialmente como Nação soberana.