MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964

MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964
Avião voa sobre a orla carioca em 31/03/2014, ostentando faixa com os seguintes dizeres: "PARABÉNS MILITARES - 31/MARÇO/64 - GRAÇAS A VOCÊS O BRASIL NÃO É CUBA". Clique na imagem acima para acessar MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964 - uma seleção de artigos sobre o tema.

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Capitanismo: No espírito de Lamarca

O capitão Luis Fernando e Tarso Genro

ENCAMINHANDO MSG RECEBIDA CONTENDO MATÉRIA PUBLICADA NA REVISTA CARTA CAPITAL, DIRIGIDA POR COMUNISTAS – UM DELES PERTENCEU A MESMA CÉLULA DE ATIVISTAS NO JORNALISMO DO PECEBÃO QUE O WLADIMIR HERZOG.
Jorge Baptista Ribeiro
jorjagulha@uol.com.br

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É lamentável o comportamento desse capitão, mas é oportuno lembrar que muitos rebanhos teem a sua "ovelha negra"!`É do rebanho, mas é diferente... Invocar sempre a Constituição Federal na defesa de liberdades democráticas e, ao mesmo tempo, exaltar personagens tais como Fidel Castro, Hugo Chávez, Stédile et caterva, é uma contradição que faz lembrar o velho ditado "dize-me com quem andas que te direi quem és"...
26/06/2010

No espírito de Lamarca

Protagonista - O capitão Sousa desafia o Exército com suas ideias de esquerda

Por Leandro Fortes, de Porto Alegre

O mineiro Luís Fernando Ribeiro de Sousa não tinha a noção, mas o ônibus lotado de soldados da Polícia do Exército que foi retirá-lo de uma gincana escolar, aos 12 anos, em Brasília, era um sinal do futuro. Interno do Colégio Militar, ele não sabia que o evento, ocorrido em 1988, fora organizado pela União da Juventude Socialista (UJS), ligada ao Partido Comunista do Brasil (PCdoB). Passados 22 anos, 17 dos quais dedicados ao Exército, o capitão Sousa ainda é um problema para a força terrestre, e pelo mesmo motivo: as companhias. Único oficial da ativa do Exército assumidamente ligado ao Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST) e pré-candidato do PT gaúcho à Câmara dos Deputados, corre o risco de ser expulso da corporação basicamente por ousar ser de esquerda em um ambiente ainda contaminado pela doutrina de Segurança Nacional da ditadura.

Afastado dos quartéis há um ano, por ordem do Comando do Exército, Sousa dificilmente voltará ao serviço ativo, mesmo se conseguir driblar a fúria dos superiores. O motivo: em dezembro do ano passado, o capitão foi atropelado em uma avenida de Porto Alegre. Um carro atravessou o sinal vermelho, passou por cima do oficial e fugiu. O militar teve fratura no joelho e esfacelamento ósseo próximo do fêmur da perna esquerda. Operado, teve a recuperação prejudicada pelo diabetes, doença diagnosticada em 2005, justamente quando ele alega ter-se iniciado uma campanha de perseguição política contra ele no Exército. Deverá, por isso, ser declarado incapaz e "reformado" aos 34 anos.

Sua encrenca, na verdade, é com a velha-guarda da caserna, ainda ligada ideologicamente à doutrina do regime militar. "Sou de uma geração que não tem nada a ver com a ditadura nem com os militares que deram o golpe em 1964", dispara. Oficial da arma de intendência, Sousa servia como encarregado da administração do Arsenal de Guerra de General Câmara (RS), quando, em março de 2009, foi informado de que não iria mais cumprir expediente até que diversos procedimentos disciplinares contra ele fossem concluídos, todos referentes, direta e indiretamente, à sua atuação política.

A caserna começou a ficar desconfortável para Souza em julho de 2004, no tempo em que ele servia no Centro de Instruções de Operações Especiais do Exército, localizado no subúrbio carioca de Guadalupe. À época, o militar decidiu candidatar-se à Câmara de Vereadores do Rio de Janeiro pelo antigo Partido dos Aposentados da Nação (PAN). Até então, era um oficial bem avaliado, mestre de saltos formado pelo 25° Batalhão de Infantaria Paraquedista do Exército, também no Rio. Teve 500 votos e não foi eleito. Em outubro daquele ano, sofreu uma repreensão na ficha disciplinar por ter se ausentado do quartel para fazer o registro partidário.

O capitão não aceitou a punição em silêncio. Acusou o comando do quartel de tê-lo punido fora do prazo legal de 30 dias, conforme previsto no Regulamento Disciplinar do Exército, o onipresente RDE. Durante a leitura da nota de punição, um ato de humilhação levado a cabo em frente a outros oficiais, o capitão esperou o mestre de cerimônias acabar para lançar, como ele diz, um "brado" no ar: "Um dia a Constituição Federal entrará nos quartéis e injustiças como essas não mais acontecerão". Pela ousadia, pegou quatro dias de prisão e acabou transferido sumariamente para outro quartel, o Comando da Brigada de Infantaria Paraquedista, também no Rio.

Em 2005, ainda na Guanabara, aproximou-se da Coordenação de Movimentos Sociais, entidade que congrega diversas organizações populares e de esquerda, como a Central Única dos Trabalhadores (CUT) e a União Nacional dos Estudantes (UNE), além de sindicatos e pastorais católicas. No fim do ano, decidiu usar o período de férias para participar, em Caracas, do Fórum Social Mundial. Queria conhecer um de seus ídolos, Hugo Chávez. O outro é o ditador cubano de pijamas Fidel Castro. Mas foi proibido de deixar o País pelo Comando Militar do Leste, sem qualquer justificativa oficial.

Em fevereiro de 2006, Sousa pegou mais quatro dias de prisão por ter dado entrevista a CartaCapital, na qual renegou a ditadura e denunciou o abuso de poder dentro dos quartéis, principalmente por conta da discrepância entre as transgressões disciplinares e as punições aplicadas contra militares que contestam a aplicação sumária do RDE - norma baseada numa Medida Provisória de 2001, jamais transformada em lei. "Não fui punido por dar declarações à imprensa, mas pelo teor das declarações", diz. "O direito constitucional de liberdade de expressão simplesmente não existe nas Forças Armadas."

Candidato, em 2006, a deputado federal pelo nanico Partido Trabalhista Nacional (PTN), o capitão só conseguiu se desincompatibilizar temporariamente do Exército (expediente previsto em lei) para concorrer graças a um mandado de segurança na Justiça do Rio. No mesmo ano, foi apresentado a João Pedro Stedile, principal líder do MST, de quem se tornou grande admirador. Novamente derrotado nas urnas, voltou à caserna. Em 2007, concluiu a Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais (Esao), de onde foi transferido para General Câmara, no Rio Grande do Sul.

Em janeiro de 2009, denunciou ao Ministério Público Federal a política interna do Exército, ainda em curso, de transferir militares que se aventurem em candidaturas políticas. No ano anterior, dos 20 oficiais que concorreram nas eleições municipais de 2008, 12 (60%) acabaram transferidos. Entre os 66 praças candidatos, 43 (65%) também foram obrigados a se mudar de estado. "É uma maneira de desarticular a base política dos militares", diz o capitão. Por se dirigir ao MPF, foi acusado de "desprestígio ao Exército", acabou alvo de uma sindicância e um Inquérito Policial Militar. Para não ser preso, lançou mão de dois habeas corpus.

Em 9 de março de 2010, quando Sousa ainda se recuperava do atropelamento em Porto Alegre, o general Enzo Peri, comandante do Exército, decidiu submetê-lo ao Conselho de Justificação, a mais alta instância de julgamento interno das Forças Armadas, com o intuito de expulsá-lo da corporação. Na peça acusatória, feita no Comando Militar do Sul, o capitão é acusado de atentar contra o "pundonor" (honra) do Exército. O processo, bastante documentado, ainda está em andamento. Apesar da farta documentação, o Centro de Comunicação do Exército negou, por email, a existência de quaisquer ações disciplinares contra o oficial.

Fonte: http://www.cartacapital.com.br/