MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964

MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964
Avião voa sobre a orla carioca em 31/03/2014, ostentando faixa com os seguintes dizeres: "PARABÉNS MILITARES - 31/MARÇO/64 - GRAÇAS A VOCÊS O BRASIL NÃO É CUBA". Clique na imagem acima para acessar MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964 - uma seleção de artigos sobre o tema.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

O que fazer com o Movimento Continental Bolivariano?



O que fazer com o Movimento Continental Bolivariano?

Eduardo Mackenzie

A Procuradoria não pode se negar a abrir uma investigação sobre os membros colombianos e estrangeiros do Movimento Continental Bolivariano (MCB). A exortação do presidente da República Álvaro Uribe para que esse organismo ajuize esta gente deve ser atendida, e rapidamente, pois o assunto é de importância estratégica. Mal faria o Procurador encarregado, Guillermo Mendoza, ao buscar pretextos para aprazar ou arquivar essa investigação. Nomear uma comissão para ver “se há provas”, quando estas já existem, não é um bom sintoma.

Os membros do MCB sabem em que estão metidos. O MCB não acolhe em suas fileiras as FARC, senão que tem esse movimento terrorista como núcleo central. Desde antes de sua fundação, quando o MCB se chamava “Coordenadora Continental Bolivariana” (CCB), as FARC já estavam lá orientando tudo. Quem esqueceu que um número de delegados da reunião da CCB em Quito entrou em contato pessoal com Raúl Reyes, número dois das FARC, em seu acampamento de Angostura, pouco antes do ataque no qual Reyes e outros perderam a vida?

Posteriormente, o comunista dominicano Narciso Isa Conde, cabeça visível do MCB, confirmou que as FARC fazem parte dessa organização e que os princípios destas, como a “combinação de todas as formas de luta”, fazem parte do arsenal político-ideológico do MCB. Quer dizer, o MCB incluiu em sua presidência “coletiva” Alfonso Cano e, de maneira simbólica, para que não restem dúvidas, o defunto e tristemente célebre Tirofijo. Yul Jabour, do Partido Comunista Venezuelano, reiterou que o MCB não exclui nenhuma forma de luta e que em conseqüência acolhe “qualquer movimento insurgente, inclusive a guerrilha das FARC”. O ELN colombiano também pediu para entrar. Por que Guillermo Mendoza faz como se não visse - nem entendesse - nada a respeito?

O MCB não é só uma “reativação” da frente internacional das FARC, dirigida agora por ‘Iván Márquez’, com escritório em Caracas, como acaba de confirmar o governo equatoriano, mas é um embrião de internacional terrorista como a que os bolcheviques construíram em 1919.

Como é óbvio, a senadora “liberal” Piedad Córdoba se pronunciou rapidamente contra a investigação pedida pelo presidente Uribe. Ela pretende passar ao Procurador Guillermo Mendoza, através da imprensa, uma contra-ordem no sentido de que derrube ou engane com mentiras esta iniciativa de alguma maneira. Já veremos o que Mendoza vai fazer.

Os colombianos devem saber bem o que é o MCB. Uma certa imprensa o está apresentando como um simpático movimento de esquerda. Como fez quando apareceu o M-19 em 1974. Sabemos bem em que terminou essa comédia. Na realidade, o MCB, organismo opaco e secreto, será dentro em pouco a organização internacional mais perigosa do continente. Seus chefes estão construindo nas barbas de todos os governos latino-americanos, sob a aparência de uma inofensiva e bem intencionada organização política que luta “pela paz”, embora não ocultem que as FARC estão bem instaladas lá.

O MCB é um organismo de guerra. É a aventura mais ambiciosa desde o desmantelamento, em 1978, da Junta de Coordenação Revolucionária (JCR), de triste memória. Essa internacional terrorista de extrema esquerda roubou, seqüestrou e assassinou milhares de pessoas no continente e acumulou um tesouro de guerra com o qual financiou quase todos os movimentos armados do continente, que na época não eram poucos.

A JCR chegou a ter bases clandestinas em quatro países (Argentina, Chile, Uruguai e Bolívia), simpatizantes em outros dois (Colômbia e Paraguai) e discretos escritórios na França e Portugal. Um de seus agente lá era Carlos, o Chacal, hoje encarcerado na França.

Fundada em outubro de 1972 no Chile, por delegados de três movimentos terroristas (dois argentinos: o PRT/ERP, de Roberto Santucho e os Montoneros, de Mario Firmenich; e o MIR do chileno Miguel Enríquez), a JCR se propôs a realizar a “revolução continental”. Depois somaram-se o ELN dos irmãos Peredo da Bolívia e os Tupamaros do Uruguai.

A JCR foi mais longe que as redes organizadas pelos cubanos. Esse projeto que implantava e treinava guerrilhas em vários países, porém no campo, será esmagado em todas as partes, salvo na Colômbia. A proposta da JCR era levar a luta armada às cidades e propiciar movimentos “de massas” urbanos para destruir as democracias. Durante oito anos causou desastres em vários países, porém finalmente foi brutalmente esmagada pelas ditaduras militares do Cone Sul. (Ver Les Annés Condor de John Dinges, La Découverte, Paris, 2004).

Após a derrubada da URSS, a ambição das FARC era ter de novo um aparato de coordenação continental que as respaldassem em nível logístico, político e militar, e que desenvolvesse – ao mesmo tempo – atividades ofensivas em outros países e não somente na Colômbia. Esse projeto não se concretizou durante anos, pois Cuba estava na ruína; porém agora, graças a Chávez, está tomando forma. Com o respaldo material da Venezuela e a orientação ideológica de Cuba, com os petrodólares venezuelanos e o tráfico de drogas das FARC, com agentes na Europa e talvez no Oriente Médio, o MCB estará em condições de abrir um novo período de graves desestabilizações no hemisfério. Os países que estão em sua mira não são só Colômbia, Peru, Panamá, México e Honduras. São todos os demais, inclusive Chile, Argentina e Brasil (onde haverá nos próximos meses mudanças de governos e não precisamente favoráveis à esquerda). Nem os Estados Unidos podem se considerar fora da lista. Chávez anunciou que quer derrubar o sistema político desta grande potência. O que Caracas procura é utilizar como alavanca de seus interesses as alas radicais do Partido Democrata e os grupos extra-parlamentares, para paralisar a ajuda de Washington às democracias atacadas.

O desafio que o MCB estabelece é, pois, enorme. Os países que estão na mira não têm alternativa diferente que a seguida pelos Estados Unidos e a União Européia em sua luta contra a Al-Qaeda: infiltração, vigilância eletrônica constante e desmantelamento antecipado dos núcleos combatentes. É nesse contexto que a Procuradoria colombiana e os organismos de segurança dos outros países latino-americanos devem ver o chamado do presidente Uribe sobre o MCB.

O MCB terá dois aparatos: um visível, com uma hierarquia mais ou menos identificável, e outro clandestino, com pessoal, equipamentos e logística ocultas. Porém, se o chavismo consegue vender a sigla MCB como um grupo “progressista” e de pessoas boas, organizado para fazer o bem em todas as partes, o aparato visível fará pressão na Colômbia para atrair o Partido Liberal e o Polo Democratico e conseguir um colapso eleitoral. É óbvio que Piedad Córdoba e sua claque mais o Polo Democratico colaborarão nessa empreitada, por nenhum deles ter diferenças de fundo com o MCB. Sua propaganda cuidará de que todo mundo esqueça que a nova internacional não escondeu jamais suas ambições nem seus métodos, os quais incluem a violência armada.

Na vida dos Estados estes podem escolher, em geral, duas vias para preservar seus interesses e sua segurança: mediante relações mais ou menos amistosas com os outros Estados e governos, ou mediante a manipulação de movimentos subversivos disseminados em todas as partes. Chávez escolheu a segunda via. Uma via fracassada. Com o MCB, Chávez completa sua panóplia de organismos de intervenção. Já tinha o Foro de São Paulo, a ALBA e a UNASUL, cada um com um papel diferente. Agora com o MCB, não lhe falta nenhuma alavanca. Chávez busca “bolivarianizar” a vida das nações do continente, como Stalin buscava “bolchevizar” o mundo inteiro. Como será a combinação disso tudo? Essa via, muito provavelmente, isolará a revolução bolivariana e a levará ao colapso, como ocorreu, com notável atraso, com o mundo soviético. Ter sido parte do campo vencedor na Segunda Guerra mundial atrasou 40 anos o afundamento da URSS. A diferença é que Chávez poderia não ter essa ajudinha da História.

Tradução: Graça Salgueiro