MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964

MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964
Avião voa sobre a orla carioca em 31/03/2014, ostentando faixa com os seguintes dizeres: "PARABÉNS MILITARES - 31/MARÇO/64 - GRAÇAS A VOCÊS O BRASIL NÃO É CUBA". Clique na imagem acima para acessar MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964 - uma seleção de artigos sobre o tema.

quarta-feira, 18 de março de 2009

MARXISMO E ASTROLOGIA

Tibiriçá Ramaglio
http://observatoriodepiratininga.blogspot.com

A incerteza deflagrada pela crise dos subprimes em setembro passado deixou a esquerda do mundo todo mais assanhada que Chapeuzinho Vermelho quando a mãe manda visitar a avó que está doente. Filósofos, historiadores, sociólogos, economistas e demais usuários do ópio dos intelectuais concluíram de imediato que, desta, o capitalismo não passa. Para eles, o sistema está definitivamente com os dias contados, como, aliás, já havia previsto o onisciente Karl Marx.
Em matéria de profecias estapafúrdias, talvez mereça um Oscar a retumbante previsão do marxista norte-americano Immanuel Wallerstein que, aos 78 anos, do alto de sua cátedra em Yale, ainda não se cansou de ser desmentido pelos fatos. Num artigo intitulado Aprendendo com o Brasil, onde assevera que o MST seria um bom exemplo para a esquerda norte-americana – insensatez que dispensa comentários –, Wallerstein tem o desplante de prever “a extinção certa do capitalismo como sistema mundial nos próximos 20 a 40 anos”.
Segundo a sumidade, “o que está acontecendo é uma desintegração do capitalismo como sistema mundial, não porque ele não pode garantir o bem-estar da grande maioria da população (isso é algo que o sistema nunca pôde fazer), mas porque não consegue mais garantir que os capitalistas terão o acúmulo interminável de capital que é sua razão de ser”. Vamos e venhamos, está na cara que o acadêmico, como os autores de Das Kapital, atrela mais uma vez a carroça adiante dos bois.
Karl Marx acreditava ter descoberto que a luta de classes determinava o curso da história no exato momento em que, de acordo com ele, Marx, era a hora e a vez da classe operária. Tanto o ilustre redator da Gazeta Renana, quanto seu patrocinador, Friedrich Engels, chegaram a acreditar que veriam e talvez até ajudassem a revolução do proletariado, embora a dupla tenha descido ao inferno – onde arde hoje em dia – sem sequer vislumbrar o império que Lenin construiu sobre as ruínas do czarismo.
Aliás, o próprio Lenin, também, acreditava que a revolução na Rússia era somente o prenúncio de uma revolução mundial. Entre 1917 e 1924, o supremo guru dos bolcheviques acreditava piamente numa revolução na Alemanha que, por sua vez, seria sucedida por várias outras revoluções em toda a Europa. Felizmente, o velho Vladimir Ulianov estava redondamente equivocado e foi se reunir aos seus mentores, no Tártaro, sem ver a concretização de suas tenebrosas previsões.
Não preciso, entretanto, ir tão longe na história para comprovar a miopia das pitonisas vermelhas. Basta recorrer a minha própria experiência pessoal. Em 1983, no Brasil do general Figueiredo, eu era um jovem idealista e idiota. Por isso, acabei cooptado para as fileiras da Organização Socialista Internacionalista, vulgarmente conhecida como Libelu, uma insólita agremiação de estudantes e patifes que pretendia reconstruir a 4ª. Internacional Comunista.
Era o ocaso do regime militar e, além do crescimento do PT e da CUT, diversos acontecimentos apontavam para uma inquestionável transformação política no Brasil de então. Pois bem, semanalmente, em nossas reuniões de célula, os camaradas da liderança da Organização, munidos na nova edição do jornal O Trabalho, faziam uma análise da conjuntura e consideravam que a revolução socialista brasileira havia de acontecer na semana seguinte, no mais tardar.
Passaram-se oito semanas dessa conversa mole e neca de revolução. Eu, que não costumava falar nas discussões, pedi então a palavra. Disse aos camaradas presentes que apregoar a revolução para a próxima semana podia ser uma ótima estratégia em termos de propaganda, mas que era mais que evidente que isso não aconteceria tão rápido assim, como, aliás, já não havia acontecido nas precedentes hebdômadas.
De imediato, todos os presentes me olharam com espanto e indignação e, sem pestanejar, diagnosticaram que só poderia estar me faltando “discussão política”. Era por isso que eu era incapaz de ultrapassar as ilusões pequeno-burguesas, para enxergar a já preclara e insurgente realidade. Nada impedia que nossa próxima reunião de célula acontecesse num gabinete do Palácio do Planalto!
Os camaradas tinham tal ascendência intelectual sobre mim que acabei por lhes dar razão, até para não me mostrar um rematado imbecil diante dos outros companheiros da célula. Mas é claro que a revolução não eclodiu na semana seguinte, nem na outra, nem na outra, eu deixei de ser idiota e dei baixa na Organização, e veio a Nova República, e a queda do muro de Berlim, e o colapso da União Soviética e, graças a Deus, a revolução não aconteceu até agora.
Concluo daí que é um elemento intrínseco do marxismo a incapacidade de enxergar com clareza a realidade tal qual ela se apresenta a um observador atento. O sistema de Marx, longe de dissolver a pátina de ideologia que nos impede de ver os fatos, encobriu-os em uma densa e adiposa camada de ilusões místicas, a tal ponto que não hesito em afirmar que o marxismo não passa de uma manifestação esquizofrênica da política e da... astrologia.