MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964

MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964
Avião voa sobre a orla carioca em 31/03/2014, ostentando faixa com os seguintes dizeres: "PARABÉNS MILITARES - 31/MARÇO/64 - GRAÇAS A VOCÊS O BRASIL NÃO É CUBA". Clique na imagem acima para acessar MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964 - uma seleção de artigos sobre o tema.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Lá está Lemos, suspenso na viga, à beira do abismo


Lá está Lemos, suspenso na viga, à beira do abismo

José Nêumanne Pinto (*)

Uma vez o radialista Alexandre Kadunc resolveu homenagear nosso guru, meu pai profissional João Batista Lemos. Escrevi João Batista porque ele não está mais aqui para repreender, para reclamar. E corrigir: J. B. Qual o que, deve estar sim. Nosso querido Lemos é espírita. Digo é, porque esta é a forma de dizer que ele ainda está vivo, entre nós, nos indicando o caminho a seguir, nos tomando pela mão e nos ensinando lições de caridade, generosidade e solidariedade: aulas de talento, garra, empenho e compreensão.

Pois bem, então Kadunc resolveu fazer uma crônica na Rádio Bandeirantes em homenagem ao J. B., ou melhor ao Jomba, como o apelidamos fraternamente, filialmente melhor dizendo. E a primeira coisa que lhe veio à cabeça foi um velho sucesso radiofônico. E lá soltou Kadunc o bolachão: “Encosta tua cabecinha no meu ombro e chora”. Não pode haver imagem mais precisa, recordação mais justa, lembrança mais exata.

Lemos - este sobrenome definitivo e definidor, que denuncia o leitor acima do escritor, o interlocutor mais que o chefe talentoso e generoso, e mais que tudo o professor – era o ombro de todos, o lenço de enxugar todas as lágrimas, o poço profundo da sabedoria onde íamos lavar nossas mágoas e saíamos enxaguados com seus conhecimentos e de suas vivências.

Lemos foi nosso mestre, mas, antes disso, foi nosso consolador perpétuo, o dono da palavra amiga que resolvia os impasses mais doidos e doídos da alma de seus discípulos. Para nos consolar, chorava conosco. Para se alegrar, ria de nós rindo conosco. É meu padrão de chefe de equipe: reconhecia o talento de cada um e não cobrava de ninguém o que não estivesse a sua altura. E sempre ele se colocava à altura do mais talentoso e do mais desprovido de graça e engenho.

Mas o brilhante formador e chefe de equipes era, mais que tudo, o homem-equipe. Tudo nele era ombro, mas também ouvido. A boca servia para o golpe preciso, o empurrão decisivo: “Segue em frente, filho”. “Te vira, rapaz”. “Você saberá o que fazer”.

Lemos com ele, ele de luz. Ele-luz. Era nosso árbitro de elegância, nosso Petrônio moderno. Lembro-me de suas camisas de linho impecavelmente passadas. Do bigode aparado, cheiroso, cofiado, confiável. A voz sempre no registro certo: suficientemente alta para ser ouvida, suficientemente baixa para não ser confundida com irritação. O vinco das calças sempre no lugar certo. Nunca uma mulher – senhora, é claro – ouviu um palavrão dele. Galanteios, é claro, eram proferidos em profusão.
Lemos foi o amigo mais galante que conheci. Ao lado dele, as feias se embelezavam e as bonitas ficavam mais acessíveis, mais perto de nós, mais ao rés do chão.

Quando nos conhecemos, eu menino, seu filho homem que não sobreviveu, mandou que eu lesse os textos de Gay Talese sobre os construtores de pontes em Nova York. Ele sabia o que indicava – ele mesmo um construtor de pontes. Neste 3 de fevereiro, quando ele foi ao encontro de Chico Xavier no céu, abri uma mensagem de internet com fotos dos personagens do grande jornalista e percebi que Lemos passou a vida inteira suspenso naquelas vigas, deitado sobre abismos. Agora foi pro céu para ajudar aqueles que não pode socorrer em vida.

Lemos Nightingale não iria embora assim sem mais, deixando-nos ao desamparo nesta hora dolorosa. Que esteja agora no lugar que sempre mereceu: à mão direita de Deus-pai. Deus conserve ao Seu lado o filho do mestre-escola Alfredo e de dona Júlia, o irmão de 14, a vítima permanente da bursite por conta dos jogos disputados no gol pelo Radium de Mococa, o pai amantíssimo e amado de Sônia, Mirian, Tânia, Vera, Fernanda e Andrea e de todos nós, o avô de 12 e bisavô de uma, o corintiano apaixonado, o devorador de lasanhas, o fumante incorrigível e elegantíssimo.

(*) José Nêumanne Pinto, jornalista graças a Lemos.