MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964

MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964
Avião voa sobre a orla carioca em 31/03/2014, ostentando faixa com os seguintes dizeres: "PARABÉNS MILITARES - 31/MARÇO/64 - GRAÇAS A VOCÊS O BRASIL NÃO É CUBA". Clique na imagem acima para acessar MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964 - uma seleção de artigos sobre o tema.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Dois artigos de José Nêumanne

O dr. Tarso e o lar, amargo lar, de Lara

José Nêumanne - Jornal da Tarde (3/2/2009)

Para nosso ministro da Justiça, quando os fatos e os direitos das outras pessoas renegam os argumentos que lhe são fornecidos pela própria ideologia, pior para fatos, direitos e pessoas

Pode-se criticar o ministro da Justiça, Tarso Genro, pelo estilo tortuoso com que fala e escreve, por não levar em conta os pareceres, o que deveria fazer antes de tomar decisões importantes, e, até por isso, decidir errado. Mas nem seus críticos mais ferozes deixam de reconhecer que mais que os obsessivos homens de fé cuja vida a História registra ele tem convicções muito firmes. Nada o abala naquilo que ele tem de mais sagrado: a interpretação da vida real, não segundo os acontecimentos, mas, sim, as idéias que cultiva.

Tomemos o caso do boxeador cubano Erislandy Lara. Ele e seu companheiro de equipe no Panamericano do Rio de Janeiro Guillermo Ringondeaux fugiram da delegação de seu país e se refugiaram numa praia, na expectativa de lutar profissionalmente na Alemanha. Surpreendidos pela Polícia Federal (PF) brasileira, foram ambos embarcados num jatinho particular de volta ao lar, amargo lar. Aos críticos recalcitrantes do longevo tirano Fidel Castro e de seus queridíssimos amigos no governo brasileiro Sua Excelência respondeu com uma explicação singela: voltaram porque quiseram, ou melhor, porque pediram. E, assim, só teríamos mesmo de nos orgulhar de viver num país em que a polícia existe não para prender delinqüentes, mas para devolver nostálgicos estrangeiros ao doce convívio familiar. Os mais intransigentes dos críticos certamente dirão que melhor fariam nossos federais se se ocupassem em reprimir o contrabando e dizimar as quadrilhas do tráfico de drogas. Mas ninguém discordará que a captura de boxeadores fujões, por mais pegada que eles tenham, compromete menos a integridade física de nossos agentes da lei que os fuzis de mira telescópica dos traficantes dos morros.

Erislandy Lara fugiu de casa. E da Europa e dos Estados Unidos tem repetido insistentemente que não pediu para voltar, mas foi convencido a isso pelas más notícias de Cuba que os agentes brasileiros reproduziam com a mesma eficiência com que impediam seus contatos com a imprensa. Isso não impede, porém, que o ministro Genro continue afirmando que os boxeadores voltaram para Cuba a pedido, e não por uma nada livre nem espontânea pressão.

Então, não é de estranhar que, na concessão de asilo a Cesare Battisti, as convicções ideológicas de Sua Excelência considerem nulas as evidências de que a Itália é uma República democrática; a Justiça italiana tem uma tradição que vem do tempo dos Césares; e a confirmação de suas penas por um tribunal em Estrasburgo retire delas quaisquer laivos de perseguição. Porque, para Tarso Genro, “contra argumentos não há fatos”. E, se os fatos não confirmam suas ideias, danem-se os fatos.


E aqui meu artigo de amanhã para a página 2 do Estado de S. Paulo:

O banquete das migalhas de Sarney e Temer

José Nêumanne

PMDB pode fingir que tem força, mas ninguém precisa acreditar nela

O PMDB está em festa: três meses depois de ter comemorado um amplo triunfo nas eleições municipais de outubro de 2008, entra em 2009 refestelado nas presidências da Câmara e do Senado. Ou seja, fez barba, cabelo e bigode! Como 11 entre 10 comentaristas políticos em atividade na imprensa, no rádio e na televisão consideram que os pleitos municipais de 2008 foram o vestíbulo e da composição das Mesas dirigentes das duas Casas do Congresso Nacional se tece o capacho (nunca antes uma palavra foi tão bem usada em todos os sentidos, modéstia inclusa) da eleição de 2010, enfim, estará o partido da resistência civil à ditadura militar pronto para assumir o poder na República, do qual foi apeado pela vontade do povo desde que José Sarney saiu do Palácio do Planalto. Mas esta será uma afirmação tão autêntica quanto a natureza peemedebista do “novelho” presidente do Senado.

O caso é que o PMDB não ganhou as eleições municipais. A aritmética de sua vitória renega aquele princípio matemático segundo o qual não é correto somar laranjas com bananas, pelo fato elementar de que, ao serem somadas, laranjas não passam a ter gosto de banana e vice-versa. Não se pode falar em vitória nacional de um partido num pleito municipal, seja na Suíça ou no Paraguai. Quanto mais num país do tamanhão do nosso! Mesmo tendo vencido a eleição no segundo maior município do País, São Sebastião do Rio de Janeiro, com um candidato tão puro-sangue quanto o maranhense do Amapá, o ex-tucano Eduardo Paes, e ainda que faça parte da coligação vencedora no maior de todos, São Paulo de Piratininga, desde os primórdios da disputa, nada há a ser comemorado pelo PMDB. Ou melhor: há, sim! Composto por gatos e sapatos que não se entendem nem se toleram, o PMDB tem mais é de cantar vitória para valorizar o próprio peixe. Os outros dirigentes políticos que tratem de separar a verdade da falsidade para não comprarem gato por lebre. Nós outros, que não temos cargos a distribuir nas províncias nem na capital, é que nada temos a ganhar numa festa em que o penetra se comporta como anfitrião e este se finge de morto só para dele tirar o pior.

O domínio do Poder Legislativo pelo maior aliado do governo, seja qual for o governo, não diz respeito à cidadania, tampouco à disputa decisiva que se dará em 2010, quando forem disputados os governos estaduais e a maior joia da coroa, a Presidência. Aí, o PMDB ganhará o prêmio que merece no cenário político nacional: o Oscar de coadjuvante de qualquer vencedor de uma eleição de verdade. Ora, dirão os “idiotas da objetividade”, Itamar Franco militou no PMDB e foi presidente da República. Sim, mas a situação atual não pode ser comparada com a da Nova República, quando Sarney reinava no Planalto e o dr. Ulysses dava as cartas na Praça dos Três Poderes. Como Sarney, saído da cúpula do partido que servia à ditadura, a Arena, para ser vice de Tancredo, que voltara ao PMDB após have ter fundado o PP com o arqui-inimigo Magalhães Pinto, Itamar era vice – do ressurecto Collor – e, portanto, desembarcou na Presidência sem um mísero votinho que sequer aquecesse o chá das 5 das velhinhas inglesas. Agora mandando de novo no Congresso e sem candidato à Presidência, o PMDB se manterá mordomo, mas tão cedo não vai ser castelão.

A vitória de Sarney no Senado e de Michel Temer (SP) na Câmara só confirma a velha vocação que o Parlamento tem no Brasil de bem servir aos senhores do Poder Executivo. Assim foi sempre, à exceção da chamada Nova República, quando o multipresidente do partido, da Constituinte e da Câmara amarrou seu cavalo no mastro da bandeira e deixou ao noviço maranhense as pompas e circunstâncias dos toques de corneta no Alvorada. Em nossa meia-democracia das urnas, o poder popular expresso pelo voto, legítima manifestação de soberania, é atenuado, ou melhor, moderado, como já se dizia no Segundo Império, pelo método de representação escolhido.

O voto proporcional para a Câmara dos Deputados, na qual em teoria o poder popular seria exercido por representação, evita cuidadosamente a interferência do cidadão incômodo. O truque para escamotear a possibilidade de intromissão do populacho nas decisões tomadas pelas elites dirigentes da burguesia patronal, da casta sindical e das cúpulas partidárias também é facilitado pela forma como funciona o Senado Federal. A igualdade aritmética das bancadas de Estados díspares em tamanho, população e importância econômica ajuda a diluir o poder popular num caldo grosso e insípido de interesses paroquiais e ambições classistas. Sarney e Temer passam a ser os encarregados da mexer essa poção.

Isto pode ser muito bom para eles e para os cupinchas que dividirão com ambos as mordomias deste poder de fancaria. Mas nada significa nem para o poder real, que será disputado daqui a dois anos, nem para a cidadania, que se manifestará nas urnas e, depois, se recolherá ao silêncio, “bestializada”, como definiu o historiador José Murilo de Carvalho, até a eleição seguinte, em 2014. Em 2010, e depois de quatro em quatro anos, a cidadania escolherá seu chefe e este terá entre seus poderes os instrumentos de cooptação dos parlamentares que, na mesma ocasião, a mesma cidadania escolher. É melhor que o arbítrio das ditaduras civis e militares de antanho. Pode até ser melhor que as farsas passadas do Império moderado ou das eleições de bico de pena da República Velha. Ninguém duvida. Mas é algo bem diferente de uma democracia de verdade, com instituições impessoais, Poderes autônomos, recall e transparência na gestão e, sobretudo, na manipulação dos bens públicos.

O PMDB tem o direito de festejar as migalhas no banquete dos poderosos de verdade. Nós, não! Ainda temos um imenso deserto de homens e ideias a percorrer.

José Nêumanne, jornalista e escritor, é editorialista do Jornal da Tarde


Boa tarde, abraço, Nêumanne

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