MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964

MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964
Avião voa sobre a orla carioca em 31/03/2014, ostentando faixa com os seguintes dizeres: "PARABÉNS MILITARES - 31/MARÇO/64 - GRAÇAS A VOCÊS O BRASIL NÃO É CUBA". Clique na imagem acima para acessar MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964 - uma seleção de artigos sobre o tema.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Começam as aulas


ESCOLA? SÓ PARA QUEM PRECISA DE ESCOLA

Pablo Emmanuel

As aulas estão de volta. De vez em quando, eu me surpreendo com algumas lembranças de tempos pretéritos na profissão que um dia me escolheu. Fico ora feliz, ora triste. Na maioria das vezes, triste, desapontado e ansioso.

Eu gosto muito dos meus alunos. Gosto mesmo, e tento ajudá-los. Mas somente os que querem ser ajudados. Tenho como política jamais enfrentá-los, mas ser diplomático o mais que eu puder, sem abrir mão do que acho ser justo para mim e para eles.

Agora, o que eu não gosto é de ficar colocando jóia de ouro em focinho de porco.

Quando eu comecei a lecionar, há 5 anos atrás, eu tinha uma mentalidade revolucionária sobre a educação (não deixei de tê-la, mas sob outra ótica hoje).

Acreditava que poderia mudar meus alunos para pessoas melhores, superiores, incutindo neles o gosto pela leitura e o prazer de se interessar pelo desenvolvimento do homem através da história. O que eu consegui com isso foi só adoecer.

Em menos de 1 ano, meus mitos foram deitados ao chão, um a um. Eu comecei a perceber as mentiras perigosas que nós, às vezes inconscientemente, criamos a respeito do povo, quando nos engajamos diretamente na luta pela coletividade. E resolvi que é vão e desonesto sacrificar-se por quem não exige de si o menor sacrifício, e ainda desonra o sacrifício alheio.

Não há método mais empírico do que viver cara a cara. Vou exemplificar.

Uma vez, eu tive a profunda infelicidade de ter numa classe aquele tipo de aluno que gostaríamos de ver ou na cadeia ou fora da escola.

Era um tipo muito abusado, tinha um porte insultuoso. Gostava de me enfrentar. Olhava-me de um jeito que me dava vontade de ser grosseiro com ele, devido à fervura do sangue na fronte.

E isso não foi antipatia que eu resolvi ter gratuitamente, só por vaidade. Isso não é da minha índole. O sujeito era um mestre em se mostrar um vagabundo. Fazia por onde. Era repelente já à primeira vista. Em suma: um filho de qualquer um, apadrinhado pelo acaso, um ônus inútil para o Estado.

Não tinha assiduidade. E nas vezes que frequentava a escola, no período da noite, supletivo, chegava para esculhambar.

Não cumpria com as tarefas mais primárias. Sempre tinha um riso sarcástico na cara, como, aliás, todos os idiotas desse mundo têm.

Pedi uma pesquisa. Não foi feita. No dia da prova, não compareceu. Depois, apliquei uma recuperação. Também não compareceu.

Por fim, na época de fechar as notas, lá veio ele. E revelou, na maior cara de madeira do mundo, que não fez a prova porque tinha ido a um show de hip-hop, axé ou forró, qualquer coisa assim.

Não tinha parcimônia no tratamento. Parecia querer me empurrar para a parede de qualquer forma para que eu lhe desse uma prova, como se eu estivesse disposto a recuar e temesse seu possível banditismo.

Uma noite, na hora do intervalo, eu estava na cantina para lanchar. Ele apareceu. Novamente neguei seu infame pedido, ao que ele respondeu: "Então vai se f...". E se retirou. Fiquei sem reação. Não sabia se devolvia o xingamento ou ia dar parte dele na direção (o que eu não fui fazer porque é claro que não daria em nada, como não dá mesmo, a não ser contra mim, possivelmente).

Limitei-me a engolir seco, só ajudado por um trago no refrigerante.

- "Você me paga, malandro..."

Nenhum professor pode fazer nada contra um sujeito desse naipe. Por mais que se façam todas as tentativas de puni-lo, ele sempre sairá por cima, zombando das iniciativas legais que devem ser aplicadas aos safados intocáveis como ele. Até a direção de muitas escolas teme certos tipos de alunos que aparecem durante a noite, como esse aí.

Ele nunca será intimidado com a probabilidade de ficar fora da escola pública por um tempo, continuando lá dentro mesmo, até acabar com a saúde dos funcionários e passar de ano à força.

Então, sem mais nem menos, fui retirado da escola para cobrir uma licença de uma professora de outro centro de ensino. Uma coisa absurda, que não serviu para nada, só para que eu não visse mais os cornos daquele pivete.

A professora que assumiu no meu lugar, dias depois, veio me contar que não suportou as pressões do aluno trapaceiro. Disse-me que o elemento tinha um jeito tão intimidatório de persuadir e ameaçar que ela preferiu ceder e passar-lhe um trabalhinho ordinário qualquer apenas para ele safar-se daquela e deixá-la finalmente em paz.

Tal é o clima de aflição psicológica com que se deparam professores de todos os rincões do Brasil, sobretudo as educadoras, porque os molecotes mais covardes gostam de usar a ameça contra as mulheres, comumente.

Se aquele vagabundo resolvesse, um dia, entrar armado na escola para me acertar apenas porque eu disse um fragoroso NÃO às suas loucuras e abusos, o máximo que ele poderia pegar a título de sanção seriam 3 anos internado. Eu, porém, desapareceria na sombra do túmulo. Ao fim de sua internação, sairia com a ficha limpa para ter uma nova chance, posto que a mim ela jamais seria dada.

Se eu tivesse continuado até o fim e fechado meu diário naquela escola, provavelmente teria abordado esse moleque, dando-lhe um tapinha no ombro, e dizendo:

"Olha aqui, meu chapa, nunca venha me falar de exclusão social, entendeu? Nunca, em momento algum da tua vida. Tampouco se queixe de que jamais teve uma chance".

É preciso propugnar pela punição do menor de idade. Isso não é ser de direita nem de esquerda: é ser razoável. Só isso. Não é propugnar a barbárie nem o reacionarismo: é privilegiar um mínimo de justiça para afastar do humanismo a pieguice.

Portanto, tudo justifica que devamos preservar a infância para não punir a juventude. Como não há pena que passe da pessoa do condenado para seus ascendentes ou descendentes, as responsabilidades precisam ser cobradas em tempo hábil. Assim, um pusilânime não pode ser chamado a elas em lugar do seu filho pulha.

Os pais (burgueses ou proletários, não interessa) não têm o que ensinar aos filhos porque eles nunca foram ensinados que, antes de tê-los, é necessário se criar uma estrutura interior (e também material) para assumir a paternidade. Mas a nossa cultura é a do "deixa-pra-lá", um legado de trágicas consequências sociais.

Aqui em Brasília, nesta semana, um homenzarrão de 17 anos furou 30 vezes a namorada por conta do fim do relacionamento. Perguntado sobre sua atitude, disse que faria tudo de novo, mandando às favas esse negócio de se arrepender. Fez o que fez porque sabe que as coisas só ficariam feias de verdade para ele se tivesse um ano a mais de idade. Trata-se de um bruto jamais autocensurável. Não conhece limites entre cometer um deslize inerente à mocidade e um ato hediondo.

Agora, porque alguém não vai lá até os ouvidos do pai dela para teorizar que o menor de idade é um ser humano em desenvolvimento? Evidentemente que o é, como também pode ser um monstro a se desenvolver ou uma besta já perfeita, acabada. Sua defesa sem limites é puro populismo, faz parte do imaginário da deificação e romantização dos "vencidos da vida".

Que cinismo é esse de pedir aos outros que entendam o que nós mesmos, se formos vitimados, não entenderemos?

Nem no livro "A Utopia", do imortal Thomas Morus, um dos pais do comunismo, os bandidos são escudados, sendo receitadas a eles duras penas, pois, segundo Morus, mesmo em uma sociedade justa e igualitária, sempre "haverá os que preferem o crime ao trabalho".

Pode ser qualquer regime político, tanto capitalismo quanto socialismo. Há sempre exclusão de sobra para um descarado que tudo faz para ser chutado a escanteio.

Não é nada bonito aparecer com um discurso parcial enquanto a própria juventude está vulnerável e ameaçada por outros jovens que lhes arrancará até as tripas, terminando muito melhor assistidos do que um trabalhador e com a ficha mais limpa do que a nossa.

Nunca temos a dimensão correta da dor enquanto não a sofremos.

E enquanto não a sofremos, ficamos a promover um tipo de humanismo estéril, piegas, que fere os próprios princípios humanistas em si.

P.E.

Obs.: Texto recebido de Pablo Emmanuel. Ele fez uma ótima abordagem da escola atual, onde prospera o aluno-bandido, o que atemoriza o professor, ameaça o diretor e bate na professora - além de quebrar cadeiras e mesas da escola. O único defeito de Pablo é ser comunista e utilizar termos ultrapassados, como "burguês" e "proletário", nestes tempos em que o proletário já se tornou burguês há muito tempo. Dúvidas? Observe Lula e sua República Sindicalista... (F. Maier)