MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964

MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964
Avião voa sobre a orla carioca em 31/03/2014, ostentando faixa com os seguintes dizeres: "PARABÉNS MILITARES - 31/MARÇO/64 - GRAÇAS A VOCÊS O BRASIL NÃO É CUBA". Clique na imagem acima para acessar MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964 - uma seleção de artigos sobre o tema.

sábado, 3 de janeiro de 2009

Terras Ianomâmis

Diante das acusações feitas (OESP-02/01/09) pelo Sr Carlo Zachinni (supostamente um italiano missionário católico, coordenador da Pastoral Indigenista da Diocese de Roraima), sobre a falta de ação das Forças Armadas para impedir voos clandestinos que cobrem a ação de garimpeiros em terra Ianomami, procurei uma autoridade militar para me informar melhor sobre o assunto. Infelizmente, mais uma vez, os militares não foram consultados. Se essa regra básica do jornalismo moderno tivesse sido respeitada, poderiam esclarecer o seguinte:

- a vastíssima área ianomâmi, habitada por pouquíssimas etnias é sabidamente rica em minerais preciosos;
- a circulação de algumas etnias, entre Brasil, Venezuela e Guiana, caracteriza a falta de identidade nacional desses grupos indígenas, o que reforça o aspecto do risco à segurança nacional;
- a Força Aérea Brasileira não dispõe de recursos, em aeronaves, pessoal e horas de vôo, para manter uma vigilância constante e efetiva nessa área gigantesca, onde não há qualquer possibilidade de utilização de meios terrestres ou fluviais. Também não conta com o auxílio de outros órgãos de segurança pública ( Polícia Federal, Ministério das Minas e Energia,Receita Federal, etc), responsáveis diretos por esse tipo de fiscalização e/ou repressão;
- há restrições sim, ainda que ilegais, à presença das Forças Armadas em terras indígenas, haja vista que a instalação do Pelotão Especial de Fronteira de Uiramutã, no interior da Terra Indígena Raposa Serra do Sol, dependeu de decisão judicial;
- não há preconceito contra ONGs ou estrangeiros, no entanto, fatos recentes comprovam que um grande número delas e deles agem com suposta má-fé e comprovada desonestidade. Apoiá-las, algumas vezes, significa comprometimento com interesses inconfessáveis;
- é inútil tentar indispor as Forças Armadas com a população amazônica.

Comprometidas com o interesse nacional, são elas a única presença permanente do Estado, e apóiam a população civil em qualquer situação, principalmente nos momentos de crise, a despeito dos reduzidos meios e recursos financeiros de que dispõem.

Ana Prudente (São Paulo)


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02/01/2009

'Militares ignoram aviões que decolam de terras ianomâmis'

Carlo Zacquini: coordenador da Pastoral Indigenista da Diocese de Roraima

Roldão Arruda, BOA VISTA

Os recentes alertas feitos por autoridades militares da Amazônia sobre o risco que as áreas indígenas representam para a segurança do País, especialmente na fronteira amazônica, não encontram respaldo nos fatos. O discurso militar é ideológico e foge da questão principal: a permanente invasão das terras indígenas pelo garimpo ilegal. Essa é a opinião do missionário católico Carlo Zacquini, italiano de origem, que viveu durante 45 anos entre os índios ianomâmis e hoje coordena a Pastoral Indigenista da Diocese de Roraima.

"Os militares falam do risco das ONGs internacionais, mas ignoram os aviões que pousam e decolam - todos os dias - de pistas clandestinas rasgadas no meio das terras dos ianomâmis em Roraima", diz o religioso. Ligado à congregação Missionários da Consolata, Zacquini é admirado entre os índios e respeitado entre estudiosos da questão indígena no País e no exterior. Brigou nos anos 80 pela criação da Terra Indígena Ianomâmi - homologada em 1992 pelo presidente Fernando Collor de Mello, com uma área de 96.650 km2 - e, mais recentemente, envolveu-se com a disputa pela Raposa Serra do Sol, que está sendo julgada no STF.

Pressionado pelos militares, o governo pretende estabelecer normas mais rígidas para a entrada de representantes de ONGs, missões religiosas e científicas nas terras indígenas. Como o senhor vê isso?

Ouço muitas injúrias contra ONGs que atuam na região e que são realmente boas. Não sei o motivo de tanto alarde, pois a PF sabe quem entra e quem sai, a Funai conhece as pessoas que atuam ali e a Funasa também tem referências. A terra dos ianomâmis foi homologada há 16 anos e até hoje existem fazendeiros que se recusam a deixar a área.

Quem é:
Carlo Zacquini

Missionário italiano, coordena a Pastoral Indigenista de RR

Defensor da criação da Terra Indígena Ianomâmi, ele viveu 45 anos com os índios


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02/01/2009

'Sinal de melhora é aumento de população'

Boa vista

No debate sobre a Raposa, os militares insistem que não pode haver restrições à entrada deles nas grandes áreas indígenas de fronteira, sob risco de comprometer a segurança nacional.

Nunca houve restrições. Eles sempre entraram onde quiseram, sempre construíram quartéis nos locais que determinaram - mesmo sem consultar as populações indígenas. Os índios não constituem nenhum problema para a segurança da fronteira brasileira. Nem as ONGs. Os militares falam do risco das ONGs internacionais, mas ignoram os aviões que pousam e decolam de pistas clandestinas rasgadas nas terras dos ianomâmis em Roraima.

Por ordem do presidente Collor, as pistas clandestinas foram explodidas na época da criação da terra dos ianomâmis.

Pelos relatos dos índios, não passa um dia sem pousos e decolagens. Calcula-se que são 2 mil garimpeiros atuando lá dentro. Esses homens perceberam que a lei não os alcança e agem estimulados pela sensação de impunidade.

Áreas tão extensas e pouco povoadas podem constituir um risco?

No caso dos ianomâmis, sei que têm um controle muito grande sobre as áreas onde vivem. Eles costumam passar pela fronteira, em direção a países vizinhos, como a Venezuela, porque mantêm relações com os seus parentes que vivem lá. Mas são visitas com objetivos determinados, para intercâmbios entre os xamãs, casamentos, trocas de objetos. Ao mesmo tempo, porém, eles detectam rapidamente qualquer movimento estranho em suas terras. Um cachorro diferente que aparece numa aldeia torna-se logo objeto de atenção. O sistema de comunicação é muito confiável. Na Raposa, em mais de uma ocasião, os índios identificaram a presença de traficantes e chamaram as autoridades.

Por que resolveu trabalhar entre os índios brasileiros?

Não foi uma decisão minha. Quando me tornei missionário, no início dos anos 60, meu desejo era ir para a África. Mas os superiores da congregação me mandaram para o Brasil, aqui para Roraima. Passei alguns meses na cidade, até que, no dia 1.º de Maio de 1965 (nunca esqueço essa data), tive contato com um grupo de ianomâmis que nos visitava. Fiquei impressionado. Comecei a trabalhar com eles e nunca mais parei.

Mas houve melhoras, não?

Sim. Um dos sinais é o aumento da população indígena.