MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964

MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964
Avião voa sobre a orla carioca em 31/03/2014, ostentando faixa com os seguintes dizeres: "PARABÉNS MILITARES - 31/MARÇO/64 - GRAÇAS A VOCÊS O BRASIL NÃO É CUBA". Clique na imagem acima para acessar MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964 - uma seleção de artigos sobre o tema.

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Reflexões sobre o discurso de Obama


Reflexões sobre o discurso de Obama

Jarbas Passarinho

Foi ministro de Estado, governador e senador

O discurso de posse do presidente Barack Obama tem afinidades com os dois últimos presidentes brasileiros. A primeira similitude é com a campanha de Lula na quarta tentativa de chegar ao poder. O slogan “não ter medo de ser feliz”, criado pelo marqueteiro Duda Mendonça (pago com dólares vindos de paraísos fiscais), é quase igual ao expressado pelo presidente Obama: “Neste dia, estamos aqui reunidos, porque escolhemos a esperança e não o medo, a unidade de propósitos e não o conflito e a discordância”.

No primeiro mandato de Fernando Henrique Cardoso, o Muro de Berlim já caíra. As nações do leste europeu, satélites de Moscou, pensionistas da União Soviética, Gorbachev as deixara ao deus-dará e a União Soviética sofrera colapso, pondo fim a 74 anos de comunismo na Europa. Os Estados Unidos ficaram como única superpotência mundial e o poder mundial tornou-se unipolar. Sobreveio a globalização. Sua vertente econômica adotou o primado do mercado e a vertente política, fruto do colapso do comunismo, elegeu o regime democrático. Intelectual responsável, FHC constatou o anacronismo das teses da Teoria da Dependência. Rendeu-se: “O mundo mudou”.

A crise financeira, missão prioritária, é diagnosticada por Obama de modo ácido e crítico: “Nossa economia está extremamente enfraquecida, uma consequência da ganância e irresponsabilidade por parte de alguns, mas também de nossa recusa coletiva de fazer escolhas difíceis e preparar a nação para uma nova era. Aqueles que manipulam os dólares do povo serão cobrados, para gastar sabiamente, reformar maus hábitos e realizar nossos negócios à luz do dia”. Nisso reside o compromisso de inflexivelmente fiscalizar o sistema financeiro, cujas aventuras produziram a crise que “gerou o medo torturante de que o declínio da América seja inevitável e de que a próxima geração terá de reduzir suas expectativas”. O presidente norte-americano, ante a expectativa mundial, advertiu: “O mundo mudou, precisamos mudar”.

Paul Krugman, economista famoso, e o mais severo crítico de Bush, não se conteve: “O verdadeiro problema que percebi no discurso, em se tratando de assuntos econômicos, foi o seu caráter convencional. Como fazem os políticos de Washington, disse mais ou menos abstratamente da nossa recusa coletiva de fazer escolhas difíceis e combater os interesses especiais. Isso não é o bastante, nem sequer correto. Esta é, acima de tudo, uma crise provocada por uma indústria financeira fora de controle. Falhamos em puxar as rédeas dessa indústria, mas não foi porque os americanos se recusaram coletivamente a fazer escolhas difíceis. O público americano não fazia idéia do que estava acontecendo”. Tal discrepância, partindo de quem partiu, é um mau prenúncio. Krugman insiste em decisões firmes e prontas, e pergunta: “Será que Obama está pronto para tomá-las, ou será que os chavões de seu discurso de posse são sinal de que ele vai esperar até que o senso comum alcance os fatos?”

Ao contrário dos dominados pela ideologia marxista, que veem na crise a confirmação da profecia de Marx quanto à inexequibilidade do capitalismo, o presidente Obama crê no “dedo invisível do mercado”, desde que sob vigilância: “Não está em questão para nós se o mercado é uma força do bem ou do mal. Seu poder de criar riqueza e expandir a liberdade é inquestionável, mas sua crise nos lembrou de que, sem um olhar vigilante, o mercado pode fugir do controle”. Com relação às guerras inacabadas, é claro: “Começaremos a deixar responsavelmente o Iraque para seu povo e a forjar uma paz duramente conquistada no Afeganistão”.

Prometera, em campanha, retirar as tropas do Iraque em 16 meses. No discurso, não mais marca prazo, só em “retirada responsável”, aceitando a advertência de que “há sérios riscos de uma volta da insurgência, se os Estados Unidos saírem precipitadamente do país”. Quanto ao Afeganistão, poupa as palavras. Sintetiza-as no “forjar uma paz conquistada”. Marc Thiessen, assessor da Casa Branca ao tempo de Bush, joga a luva. Em artigo para o Washington Post em que afirma que a Al Qaeda está preparando ativamente novos ataques aos Estados Unidos, desfia: “Obama herdou ferramentas que protegeram o país, com sucesso, por 2.688 dias. Se permitir que a rede recupere seus refúgios no Iraque e os utilize para atacar os Estados Unidos, será o único responsável”.

No tocante à atual forma de interrogar líderes terroristas capturados, que Obama define como tortura, lembra que Khalid Mohammed, “cérebro do 11 de setembro”, que antes se recusava a falar, agora confessou. Pergunta incisivamente: “O que ele fará com o próximo líder da Al Qaeda que for capturado e se recusar a falar?” O mais polêmico do discurso, porém, são as 60 palavras em que, se dirigindo aos povos do mundo, diz-lhes: “Saibam que estamos preparados para liderar novamente”. As reações geradas chegam a ser ríspidas, na Europa, e hilariantes na própria América, em programa cômico de televisão. Dado o fracasso da liderança americana no Médio Oriente, os antigos aliados querem o poder multipolar e não apenas a liderança exclusiva dos Estados Unidos. Mau começo para Obama.

Fonte: Correio Braziliense, 27/01/2009