MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964

MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964
Avião voa sobre a orla carioca em 31/03/2014, ostentando faixa com os seguintes dizeres: "PARABÉNS MILITARES - 31/MARÇO/64 - GRAÇAS A VOCÊS O BRASIL NÃO É CUBA". Clique na imagem acima para acessar MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964 - uma seleção de artigos sobre o tema.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

PUXANDO PELA MEMÓRIA:

Bom dia , Félix,

Tudo bem com vocês em Brasília?

Veja o que achei, talvez já tenha lido. Belo documentário sobre o comportamento dos nossos ancestrais, e como viviam no VALE DO RIO DO PEIXE, (Joacaba, Luzerna, Linha Grafunda, Leãozinho, Limeira... etc.).

Um pouco longo o texto, mas vale a pena "ganhar" uns minutos de leitura e adquirir/reviver nossas culturas e conhecimentos, pois pouca é escrita ou referenciada sobre nossa TERRA.

abraços

Guido [Schneider]


A nacionalização do Ensino no Município de Cruzeiro/Joaçaba, SC

Adelar Heinsfeld 1

Iniciada efetivamente em 1937, com a implantação do Estado Novo, a Campanha de Nacionalização marcou profundamente os imigrantes de origem européia no Vale do Rio do Peixe, pois foi imposta de forma rigorosa e autoritária na região, continuando viva na memória das pessoas a perseguição que sofreram. Muitas lembram com detalhes as pressões ocorridas e as várias formas de violência a que foram submetidas. Mesmo aquelas pessoas que não defendiam nenhum projeto político, que não sabiam o que estava acontecendo, foram perseguidos apenas por que falavam a sua língua materna.

Ao se pretender refletir sobre memória devemos, inicialmente, lembrar que pequena parte do passado ficou registrado em objetos de cultura. Grande parte da memória histórica corresponde a ausências, perdas, ao que foi excluído, ao que deixou de ser registrado, por não fazer parte dos "grandes acontecimentos" responsáveis por profundas mudanças política e econômica. Portanto, quando aceitamos o desafio de trabalhar com a preservação da memória é necessário também lembrar do esquecimento; então, memória e esquecimento são dois processos correlatos, quase faces da mesma moeda.

A memória é construída. Portanto, a memória não precisa ser histórica. Ela pode partir de lendas e crônicas, ou seja, sua base pode ser ritual, o que lhe garante um significado simbólico. De acordo com Janice Teodoro, confeccionar a memória a partir dos grandes monumentos e dos grandes eventos políticos é confeccionar a memória dos outros. 2 Daí a afirmação da autora de que a memória das classes menos favorecidas não é basicamente material, mas sim ritual. Da mesma forma diz que trabalhar com as camadas menos favorecidas economicamente é muito difícil, pois a vida dos seus componentes está repleta de ausências.

Outro aspecto importante a considerar sobre a memória é quanto à sua abrangência na relação indivíduo-coletividade: “Por muito que deva à memória coletiva, é o indivíduo que recorda. Ele é o memorizador e das camadas do passado a que tem acesso pode reter objetos que são, para ele, significativos dentro de um tesouro comum.” 3

A nacionalização permanece viva na lembrança das pessoas que a vivenciaram, que fizeram a História. Neste caso, a memória é matéria-prima para que trabalha com a História. É como matéria-prima e não como produto final que a memória tem que ser compreendida. 4 Para “aguçar” a memória, a Historia oral, é um recurso que complementa a documentação tradicional e permite uma reconstituição através da memória que é matéria-prima para quem trabalha com a História, tanto no ensino como na pesquisa.

Vários autores têm apontado a importância da memória para os estudos de cunho histórico. É o caso de Jacques Le Goff, para quem “o estudo da memória social é um dos meios fundamentais de abordar os problemas do tempo e da história, relativamente aos quais a memória está ora em retraimento, ora em transbordamento.” 5 Sendo material delicado sobre o qual se debruça o historiador, deve ser, antes de mais nada, compreendido em sua determinação mais completa do passado e das pessoas que vivenciaram os diversos acontecimentos do processo histórico local ou nacional.

O processo de Nacionalização desencadeado durante o Estado Novo foi uma ação eminentemente política. Ecléa Bosi aponta um risco de se trabalhar com memórias quando a questão investigada está envolvida com questões políticas. “Na memória política, os juízos de valor intervém com mais insistência. O sujeito não se contenta em narrar como testemunha histórica ‘neutra’. Ele quer também julgar, marcando bem o lado em que estava naquela altura da história, e reafirmando sua posição ou matizando-a.” 6 De qualquer forma é necessário considerar a advertência de Le Goff : “A memória, onde cresce a história, que por sua vez a alimenta, procura salvar o passado para servir o presente e o futuro. Devemos trabalhar de forma a que a memória coletiva sirva para a libertação e não para a servidão dos homens.” 7

Os depoimentos daquelas pessoas que vivenciaram o processo de nacionalização são muito elucidativos. Em todas as comunidades no Vale do Rio do Peixe, em que havia elementos de origem germânica, houve algum tipo de coerção, perseguição e violência das mais variadas formas.

A política de nacionalização imposta pelo regime Varguista se dá de forma a depreciar o inimigo; combatia-se o “estrangeiro”, principalmente o alemão e o italiano: o estrangeiro era sinônimo de nazista, “quinta coluna”, espião. Como nos conta a ex-professora Leocádia Tasca, quando perguntada sobre o termo quinta coluna:

Eu não sei bem, mas eu acho que como se ele fosse antipatriótico, uma pessoa não patriota né, que tinha que ser 5° coluna, pois uma vez o meu tio lá em Concórdia, Paulo Fontana [...] estava jogando mini-esnúquer, ele e mais um amigo e falavam italiano, que eles só falam até hoje o italiano [...] e ele foi na cadeia, dormiu na cadeia ele e o amigo dele, porque eles falavam italiano jogando mini-esnúquer, ‘joga aqui, joga ali’, eles diziam um pro outro, e daí, porque estavam falando italiano, foram na cadeia, ficaram presos, e como se eles não fossem patriotas né,... 8

Havia urgência por parte do governo em buscar um caráter de brasilidade para a nação, e então sob a direção do interventor Nereu Ramos começa a nacionalização do ensino, cujas escolas passaram a funcionar com leis que proibiam a língua estrangeira, tendo como professores os brasileiros, e com o ensino voltado para o patriotismo.

Francisca de Lima Viero, que foi professora na cidade de Cruzeiro nos conta que se sentia muito bem como professora, apesar de ter pouca idade, era amiga das crianças e gostava muito do seu trabalho, e que quando proibiram o uso da língua estrangeira comentava com seus alunos e explicava:

Eu pedia pra eles: olha vocês aprendam a nossa língua, porque eu sei que vocês em casa aprenderam a língua de vocês, mas pra vocês não sofrerem em casa mais tarde, porque a gente não sabe isso, até quantos anos vai esse movimento, então eu pedia pra eles. 9

O regime Varguista não era visto com bons olhos por algumas pessoas; mas para muitas outras, Getulio Vargas era visto como um “grande homem”. A construção da imagem do guia, da figura do “Pai dos Pobres” ficou guardada na memória da D. Francisca. Seu depoimento atesta que a imagem de Vargas foi bem “vendida” para a população. Inclusive seu lado autoritário é visto com saudosismo:

Ele aqui era tido como um grande homem, e foi. No tempo dele não jogavam ovo podre nas autoridades, não se faziam as manifestações que fazem hoje; naquele tempo ele governava com mão firme, braço forte, Getúlio foi um grande homem para nós. 10

No caso de D. Francisca, existe outro elemento importante a considerar na imagem que ela ainda tem de Vargas. No transcorrer da Revolução de 1930, o futuro presidente, no seu deslocamento para o centro do país, o fez através da Estrada de Ferro São Paulo-Rio Grande. Ao passar pela estação de Herval D’Oeste, onde aglomeravam-se milhares de curiosos, desembarcou do trem, cumprimentou inúmeras pessoas, inclusive tomando no colo crianças que estavam presentes. Uma destas crianças era Francisca de Lima, que quando mais tarde atuava como professora relembrava o acontecimento para seus alunos: “eu contava tudo isso, contava que ele me beijou, que ele me ergueu, que ele, barbaridade, que me apertou, e me disse: menina, vocês rezem por mim, rezem pela minha conquista, [...] o Getúlio me beijou, o Getúlio me beijou”. 11

Embora muitos tenham tido Getúlio Vargas como “um grande homem”, as famílias de alemães e italianos que foram proibidas de falar sua língua de origem, revoltavam-se. Porém, naquele momento, havia o sentimento de que era preciso calar, pois não havia nada a ser feito:

A gente tinha era que se cuidar até para escutar o rádio, nós tínhamos um rádio, na época, não podíamos ouvir notícias da guerra, tanto nós como os alemães e a gente tinha que se, embora revoltado, tinha que se acomodar, porque o que a gente, era proibido né, o que que a gente ia fazer. Não podia fazer nada. 12

Muitos alemães e italianos estavam sendo presos por que muitas vezes eram obrigados a falar na sua língua materna. Dona Zilia nos informa de um caso onde a vendedora conversava na tentativa de se entender com a freguesa e é presa:

Por causa que era alemão, só, simplesmente por que era alemão. Inclusive eu tenho uma amiga que ela estava trabalhando no Fontana, e ela estava falando alemão com uma freguesa, e veio um senhor e queria prendê-la porque ela estava falando alemão. Aí ela disse: como que eu vou falar, me entender com a mulher, se a mulher não fala uma palavra em português, ela só pode falar comigo em alemão. E eles eram chamados de 5ª coluna, que falavam o alemão, italiano também, mas não tinha assim, tinha bastante perseguições quando ficavam cuidando se a gente falava entre si, essas coisas, mas graças a Deus a nossa família não aconteceu nada. 13

Outras pessoas foram presas por defenderem as idéias nazistas de Adolf Hitler. Na região do Vale do Rio do Peixe houve manifestações explícitas pró-nazistas. Dona Francisca nos conta que muitas pessoas foram presas, algumas devido à manifestações pró-Alemanha:

Havia manifestação, mais lá pelo interior e vinha, vinham os - aquele tempo não eram os delegados, não era oficial de justiça também, tinha outro nome - eles trabalhavam afinal nas delegacias do interior, eles então comunicavam o caso e traziam às autoridades, as de Joaçaba. 14

Saindo da cidade, no interior encontrávamos colônias formadas somente por alemães, cuja proibição pouco afetou os costumes; porém eles respeitavam a presença de pessoas estranhas. Na escola, o professor era proibido ensinar seus alunos na língua materna, pois havia “espiões”, ou seja, pessoas que cuidavam e contavam de que forma eram as aulas.

O professor era alemão, mais era proibido ele não podia falar uma palavra em Brasileiro (sic)*, se pegava ia pra cadeia... Eles mandavam, como é (...) espião, mandavam espião pra espiar, e daí se pegava um dizendo alguma palavra em alemão, era 5° coluna eles diziam, e dai ia pra cadeia, e ficava. 15

Em que pese as proibições, em algumas comunidades as festas tradicionais alemãs ocorriam livremente, com a banda tocando músicas alemãs; o kerb, festa religiosa típica alemã, acontecia sem problema naquelas colônias; a comunicação entre pais e filhos em casa era normal e na sua língua de origem. Esta comunicação era livre desde que alguém estivesse cuidando, fato que também acontecia quando os alemães se reuniam para ouvir rádio, o que poucas famílias tinham, como nos conta Amélia Reichardt:

Era proibido Deutsche Welle, aquilo não podia escutar nada, nada, nada, tinha espião de noite. Eu sei que lá no pai tinha um rádio, era o único que tinha lá na região, então os alemães estrangeiros tudo, sentavam na roda assim, se reunia tudo pra vê a noticia no tempo da guerra, aqueles alemães estrangeiros, e daí a piazada tinha que ficar rodando né (risos), e daí eles vinham tudo lá escutar... 16

Quando chegou a notícia do término da 2ª guerra mundial, os “brasileiros” na cidade de Joaçaba receberam com grande alegria esta tão esperada notícia: “Pra nós foi uma alegria, e eles, houve muita gente triste, teve gente que até matou-se, também noticias soubemos né, gente que até matou-se por isso, um até enlouqueceu, acho...” 17

A alegria, ao que parece não foi geral nas colônias de origem alemã:

Muitas pessoas, alemães principalmente seguidores de Hitler, não gostaram do final que teve a guerra [...] a Alemanha perdeu a guerra e daí o pai não queria mais rádio em casa, ele pegou o rádio levou lá pra minha irmã em Marcelino Ramos, era proibido escutar rádio em casa, porque a Alemanha perdeu a guerra, e ele ficou tão sentido com isso; daí nós nem radio não tinha mais em casa, foi tão triste né, a gente não podia mais escutar nada, porque nós entendia assim o português, mas o resto lá era só se vinha da Alemanha. 18

Em termos disciplinares na cidade de Cruzeiro/Joaçaba os professores trabalhavam muito bem a nacionalidade, “a brasilidade” e também a participação do Brasil na guerra, com seus alunos. Isto pode ser percebido através da letra de um hino que as crianças cantavam:

Sou Brasileiro com orgulho digo,
na paz na guerra contra o inimigo,
sempre altaneiro com orgulho digo,
sou Brasileiro, Sou brasileiro...
19

Dona Francisca também nos conta com indisfarçável saudosismo sobre os desfiles da cidade de Cruzeiro (Joaçaba):

Era lindo! Hoje não existe mais Brasilidade, não existe mais amor à Pátria, existe talvez no coração das pessoas, mas aquele tempo manifestava, vibravam compreendeu? Na escola a gente chegava tinha por obrigação cantar o Ouviram do Ipiranga, o Hino Nacional, o Hino à Bandeira e o Hino à Pátria, a gente sabia direitinho e cantava, e cantava com a mão no peito sabe, com sentimento, hoje essas crianças nem sabem mais cantar os hinos, a gente declamava... 20

As festas pátrias contribuíam enormemente para a construção da brasilidade. Quem não sabia se “comportar” nestas festas sofria sansões.

Tinha um rapaz estava logo ao meu lado e ele não tinha grande conhecimento sobre o Hino Nacional; ele estava com as mãos no bolso e chegou uma autoridade e pediu pra ele, falou assim: tira a mão do bolso 5ª coluna, e o rapaz tirou a mão do bolso muito envergonhado, ficou ali do lado, ficou muito triste, e que até a gente ficou constrangido porque acho que o rapaz não tinha conhecimento da postura do Hino Nacional por isso ele não se, não se colocou na postura do Hino Nacional. 21

Durante a Segunda Guerra Mundial, conflitos começaram a surgir em Cruzeiro/Joaçaba em função do posicionamento das pessoas. Como havia uma parcela significativa da população que era de origem germânica, muitas pessoas eram adeptas de Adolf Hitler. Os “nazistas” joaçabenses começaram a se organizar.

Iniciaram reuniões de colonos de origem Germânica (Alemães), em um clube de propriedade do Sr. Paulo Thierbak, que tinham como prioridade louvor e obediência ao Reich [...] Nós em Cruzeiro do Sul víamos e ouvíamos discursos inflamados afirmando que nossas terras seriam tomadas e dividas entre alemães e italianos que os apoiassem [...] o que nos marcava eram as saudações feitas antes e após as reuniões quando todos em pé com um braço estendido à frente gritavam – Heil, Hitler! Heil, Hitler! 22

Em função da radicalização de algumas pessoas, começaram a originar-se desentendimentos. “Vizinhos e amigos que antes partilhavam suas alegrias e problemas já mal se cumprimentavam e outros mais afoitos ofendiam–se mutuamente chegando até brigas sérias entre famílias.” 23

Dona Francisca recorda que Willy Schade, que tinha açougue ao lado do Clube Cruzeiro, “era um senhor muito violento esse, inclusive ele assassinou o próprio filho, por causa de brigas entre namoro de alemão com brasileiro; eles não consentiram, então ele matou o filho” 24

A adoração por Hitler por parte de alguns alemães era muito intensa, tanto que em determinadas colônia, os mais velhos faziam com que as crianças cantassem um hino de louvor à Hitler e em troca eles ganhavam balas. E então as crianças estufavam o peito e cantavam, como nos conta dona Amélia Reichardt:

Eu lembro de uma historia dos netos do meu pai, eram um casal ali dos Schneider, né, que são neto, então quando eles iam passar, eles moravam ali em Joaçaba, eles iam passar as féria lá na colônia, então eles sempre tinham que cantar o hino do Hitler em alemão, e daí ele ponhava as balas em cima da mesa, primeiro vocês vão cantar, daí depois vocês ganham as balas, daí o mais pequeno estufava o peito e cantava em alemão pro vô escutar. 25

Dona Amélia relembra a letra do hino:

Hitler ist unser Kommandant
Ein Tag wir werden frei sein
Um nach Deutschland zu arbeiten, um zu bleiben
Es ist dann eine Strömung, in zwei zu brechen.
26

Dona Amélia também conta que seu pai Artur Spier cantava um hino à Alemanha:

Er Fahne wird hochgehoben
und in Firma-Schritt marschieren wir.
27

Tanto tempo já passou, mas continua viva na memória das pessoas que vivenciaram esse período. Cada pessoa que viveu aqueles momentos tem uma “leitura” própria do que aconteceu, dependendo do lado em que estava. Dona Zilia Poletto, que ao chegar ainda criança em Cruzeiro/Joaçaba, não sabia falar uma palavra sequer em língua portuguesa faz a sua analise da situação vivenciada:

Sinceramente, eu vou lhe dizer que era uma grande ignorância, porque a pessoa tava aqui não tinha comunicação nenhuma com lá, porque que não podiam falar a língua deles. Eles tinham aquela amizade, aquela coisa entre amigos se tinha facilidade, porque naquele tempo era pouco cinema, pouco rádio, não se tinha televisão, então ia muito vizinha, muita visita de vizinho, de compadre essa coisa, e não podiam se conversar né, tinha que procurar uma outra que não sabia falar português, como aconteceu comigo. Eu era criança mas eu me lembro muito bem, eu então tinha que ficar escutando o que os outros falavam e estudando as palavras pra poder entender o que estavam falando. 28

Por outro lado, Dona Francisca, membro de uma família luso-brasileira, varguista até hoje, considera correta a imposição nacionalista com a proibição de falar uma língua estrangeira.

Certo, foi muito certo isso, às vezes tavam falando da gente e a gente não sabia, às vezes a pessoa tava xingando a gente, e a gente pensando que ele tava elogiando, a gente acha que eles estão no Brasil, se nós tivesse na Alemanha nós era obrigado, seria proibido a nossa língua. Eu achei isso muito certo. 29

Da mesma forma, a entrevistada acredita que todos que não eram de origem alemã ou italiana tenham gostado da proibição. Convictamente afirma que “os brasileiros gostaram muito disso, os brasileiros gostaram por que foi proibido, já nas escolas também ensinar os professores alemães.” Na sua visão, não houve problema algum na recepção da proibição: “não tinha problema, mas foi, foi muito bem recebido” 30

Se por um lado, a nacionalização impôs uma série de restrições à vida escolar no Vale do Rio do Peixe, também é verdade que houve resistência, não organizada, mas individualmente muitos conseguiram driblar as medidas arbitrárias. È o caso da professora Nadir Matzenbacher, que achou uma fórmula para burlar a lei: “Como explicar uma coisa para a criança que não entendia Português? Tinha que ser em Alemão (...) Daí, eu chegava para o aluno, bem quietinha, falava bem baixinho em Alemão para explicar as palavrinhas.” 31

No desenvolvimento deste trabalho ficou evidente que a memória é a matéria-prima que permite “reviver” a História por parte daqueles que a fizeram, que foram seus agentes. Neste sentido, cabe ao investigador não eleger lugares da memória com objetivos institucionalizados e consagrados, mas sim questioná-la, problematizá-la, até por que a memória pode ser manipulada, construída a posteriori. Através do registro da memória foi possível perceber como a política de nacionalização imposta pelo regime ditatorial do Estado Novo, instituído por Getúlio Vargas se fez presente no Vale do Rio do Peixe.

As “lembranças” de quem viveu a História mostram que a Segunda Guerra Mundial foi acompanhada atentamente pela população que vivia na região e que a questão étnica foi fator decisivo na hora de escolher para quem “torcer” durante o conflito. Inclusive os relacionamentos pessoas ficaram prejudicados em função da guerra.

Por outro lado, a nacionalização foi uma variante para a construção do imaginário social coletivo no Vale do Rio do Peixe. As pessoas, mesmo as que viveram em período bem posterior àquele processo, formaram uma “imagem” sobre o que aconteceu nesta região. Evidentemente que nossa preocupação não foi saber se esta “imagem” é verdadeira ou não, mas apenas perceber quais as lembranças que ficaram da nacionalização.

A “brasilidade” foi incutida na população pela elite luso-brasileira, que ocupando os cargos administrativos do poder público esteve à frente das medidas nacionalizadoras. Esta elite procurou agir rapidamente, executando as determinações oriundas do governo estadual e federal.

É claro que elementos nazistas se fizeram presente em algumas comunidades do Vale do Rio do Peixe. Extirpá-los do seio da sociedade regional era uma obrigação do poder público preocupado com o bem-estar desta sociedade. Mas em nome disso, com escolas fechadas, professores demitidos, proibição de qualquer manifestação cultural “não-brasileira” acabaram sendo prejudiciais à educação regional, impedindo uma formação mais pluralista.

A nacionalização do ensino, da forma como foi imposta, resultou numa destruição generalizada e indiscriminada da memória histórica, uma vez que livros, revistas, almanaques, jornais e muitos outros documentos do período foram destruídos, tanto pelos agentes policialescos à serviço da Nacionalização, quanto pelos próprios agentes históricos que sofriam as ações daquele processo, numa atitude de auto-defesa.

A imposição nacionalista acabou destruindo a memória regional também por que criou um clima de tensão, de silenciamento e de medo na região, o que acabou marcando de forma indelével a geração jovem que durante muito tempo procurou negar sua própria identidade, como se o fato de ser descendente de alemães ou italianos fosse algo vergonhoso.

1 Doutor em História. Professor do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade de Passo Fundo. E-mail: adelar@upf.br

2 THEODORO, Janice. “Memória e Esquecimento”. Revista de Divulgação Cultural. Blumenau, vol. 13, n. 44, jul./ago. 1990, p. 64.

3 BOSI, Ecléa. Memória e Sociedade: lembranças de Velhos. São Paulo: Cia das Letras, 1994, p. 411.

4 GIRON, Loraine Slomp. Da Memória nasce a História. In: LENSKIJ, Tatiana & HELFER, Nadir Emma. A Memória e o Ensino de História. Santa Cruz do Sul: Edunisc; São Leopoldo: ANPUH/RS, 2000, p. 23.

5 LE GOFF, Jacques. Memória e História. Campinas: Ed. UNICAMP, 1994, p. 426.

6 BOSI, E. Op. Cit., p. 453.

7 LE GOFF, J. Op. Cit., p. 476.

8 TASCA, Leocádia Benvenutti. Entrevista concedida em 19.07.2001. A entrevistada nasceu em 15/02/1925, no município de Concórdia. Começou a lecionar por volta de 1933/34, no município de Concórdia, hoje Alto Bela Vista.

9 VIERO, Francisca de Lima. Entrevista concedida em 15.11.2001. Nascida em 15/01/1923, no município de Cruzeiro, atualmente Joaçaba. Começou a lecionar em 1940, nas comunidades de Santa Clara, São Brás, Jacutinga, Linha Fereirrinha, no município de Cruzeiro/Joaçaba.

10 Idem.

11 Idem.

12 POLETTO, Zilia. Entrevista concedida em 31.08.2001. Nascida em Nova Prata –RS, veio com a família para Cruzeiro/Joaçaba em 1927; foi aluna no período de 1937 no grupo escolar Roberto Trompowski.

13 Idem.

14 VIERO, Francisca. Entrevista citada.

* A entrevistada quis se referir à língua alemã.

15 REICHARDT, Amélia. Entrevista concedida em 05.02.2002. Nascida no interior de Limeira/Luzerna em 27/06/1927 começou a estudar em 1937 em Leãozinho numa colônia formada por alemães.

16 Idem.

17 VIERO, Francisca. Entrevista citada.

18 REICHARDT, Amélia. Entrevista citada.

19 VIERO, Francisca de Lima. Negras Lembranças. Joaçaba, 2001 (manuscrito).

20 VIERO, Francisca. Entrevista citada.

21 TASCA, Leocádia. Entrevista citada.

22 VIERO, F. L. Negras Lembranças...

23 Id. Ibid.

24 VIERO, F. L. Entrevista citada.

25 REICHARDT, Amélia. Entrevista citada.

26 Idem.

Hitler é o nosso comandante
Um dia nos vamos estar livres
Trabalhar pra a Alemanha guardar
E então uma corrente quebrar em duas.

27 Idem.

A bandeira está hasteada
e em passo firme estamos marchando.

28 POLETO, Zilia. Entrevista citada.

29 VIERO, F. L. Entrevista citada.

30 Idem.

31 MATZENBACHER, Nadir Kaizer. Entrevista concedida à Anemari Roesler Luersen Vieira Lopes, em 19.03.1996