MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964

MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964
Avião voa sobre a orla carioca em 31/03/2014, ostentando faixa com os seguintes dizeres: "PARABÉNS MILITARES - 31/MARÇO/64 - GRAÇAS A VOCÊS O BRASIL NÃO É CUBA". Clique na imagem acima para acessar MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964 - uma seleção de artigos sobre o tema.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

OBAMA: Um marco histórico



OBAMA: UM MARCO HISTÓRICO

17/01/2009

A única certeza que tenho é que, de fato, vivemos um momento histórico de raro significado. O processo histórico sofreu uma aceleração equivalente aos grandes momentos do passado, em que cortes memoráveis aconteceram, seguidos que foram de acontecimentos cataclísmicos. Barack Hussein Obama assume o cargo de presidente dos Estados Unidos da América em um momento tempestuoso. Não é só a crise econômica que lhe espera, há também o barril de pólvora do Oriente Médio. De fato, há um forte risco de depressão econômica associado a um potencial de conflito militar envolvendo as principais potências do mundo. No Oriente Médio está seu detonador e essa guerra preliminar de Israel contra o Hamas serviu de péssimo augúrio para o que está à espera.

E mesmo que os tempos não fossem tão sombrios a figura pessoal do novo presidente é um emblema marcador de eras. Que um mulato, filho de negro africano com mãe branca norte-americana, nascido no Havaí, sem riqueza familiar notável e sem um passado que pudesse ser o seu apoio na sua jornada surpreendeu a todos. Chegou onde chegou sozinho, a despeito de todos e de tudo. O mundo viu seus últimos capítulos nas eleições que conquistou, ao enfrentar e vencer os caciques do Partido Democrata e, ajudado pela crise, a derrotar seu adversário do Partido Republicano, nas urnas.

O que menos quero aqui é fazer encômios como o de Lucas Mendes, publicado no site da BBC-Brasil. Nenhuma vítima de racismo ou discriminação, enquanto tal, credencia-se a presidir a maior nação da terra. É preciso enxergar Obama pelos seus méritos, a despeito da questão racial, absolutamente irrelevante no caso. Obama tem estrela, está do lado superior da Roda da Fortuna, que lhe sorriu. Mas, a que preço? A declaração que deu hoje, pouco antes de tomar o trem na Filadélfia em direção a Washington contribuiu para aumentar as minhas apreensões:

"Acredito que nosso futuro é nossa escolha e se pudermos nos reconhecer nos outros e unir todos: democratas, republicanos, independentes, norte, sul, leste oeste, negros, brancos, latinos, asiáticos, nativos americanos, gays e heterossexuais e deficientes... então isto não apenas restauraria a esperança e oportunidade onde são necessárias, mas talvez poderíamos aperfeiçoar nosso país no processo." E mais: “Começando agora, vamos levar para nossas vidas o trabalho de aperfeiçoar nosso país. Vamos construir um governo que é responsável com o povo. Vamos aceitar nossas responsabilidades como cidadãos para manter nosso governo responsável. Vamos fazer nossa parte para reconstruir este país, vamos garantir que esta eleição não é o fim do que fazemos para mudar a América, mas apenas o começo".

Claro que ele aqui procura seguir os gestos de Lincoln. Fez-se acompanhar de dez americanos comuns, escolhidos por sorteio, uma representação plástica e teatral da famosa expressão do antigo governante: “A democracia é o governo do povo, pelo povo e para o povo”, a maior mentira já proferida em ciência política, que serve de mantra para as formas modernas de escolha de representantes. O gesto de Obama é uma confissão de que, com ele, o homem-massa tornou-se senhor da Casa Branca. Já o era, na verdade, mas moderado por líderes que não recusavam seu papel.

Essa mentira de Lincoln só troca palavras ao Obama dizer: “Vamos construir um governo que é responsável com o povo”. Não é o governo que é responsável pelo povo, mas exatamente o contrário, o povo é que é responsável pelo governo e o direito inalienável à desobediência civil está mais vivo do que nunca. Só uma alma de ditador para dizer algo assim. “Não pergunte ao seu país o que ele pode fazer por você. Pergunte o que você pode fazer por seu país”, a célebre declaração de John Kennedy que é ela mesma uma declaração de escravidão do indivíduo ao Estado todo poderoso.

No discurso ouviram-se as palavras “aperfeiçoar”, “reconstruir”, “mudar”, os mantras malditos que estão na boca de todos os demagogos, de todos os tempos. Ficou subentendida a absurda Vontade Geral de Rousseau e seu pressuposto, a Igualdade Geral. Os demagogos recusam a realidade como ela é e alimentam as massas com a ilusão de que há outro mundo possível, que a humanidade é passível de perfectibilidade pela via da política. Discursos como esse estão a dois passos da construção do totalitarismo. Nenhum homem de alma sã e desperto pode ignorar os avisos que essas palavras agourentas carregam.

É um discurso quixotesco, tal como Cervantes pôs na boca de seu famoso personagem:

“ – Has de saber, ¡oh Sancho amigo!, que yo nací por querer del cielo en esta nuetra edad de hierro para resucitar en ella la dorada, o de oro. Yo soy aquel para quien están guardados los peligros, las hazañas grandes, los valerosos fechos...”

Dom Quixote era louco varrido e não tinha poder, menos ainda poder nuclear. Vemos que é uma mente deformada pelo quixotismo da modernidade que assume plenipoteciariamente esse poder titânico. O jogo político mundial ficou demasiadamente perigoso, entregue que está aos legítimos representantes das massas. Obama é o homem-massa no poder, que recusa de antemão ser o líder e diz candidamente que fará aquilo que a multidão deseja. A lógica das massas foi levada ao centro de decisão. Essa é uma loucura que rumina destruição, que está prenhe de todos os vícios, que não deixará o governante hesitar diante de qualquer dúvida moral quando os momentos letais se precipitarem.

O tratamento que se tem dado à crise econômica é deveras emblemático do que quero dizer. Emissão desenfreada de moeda, agigantamento do Estado, doação de quantias astronômicas a administradores pródigos, substituição do indivíduo por coletivos nas decisões são fatos que estão acontecendo velozmente, de forma inexorável. O suposto de tudo isso é que o Estado – o governante, o novo príncipe – teria o poder de reformar o real, de superar (mesmo eliminar) a crise e até mesmo abolir a lei da escassez. As pessoas sensatas sabem que isso é um dispare, uma loucura. Obama, todavia, chega ao poder imbuído dessa certeza quixotesca e disposto e levar as expectativas das massas às últimas conseqüências. Dane-se a realidade, construa-se o sonho impossível. O último governante que tentou isso mandou construir fornos crematórios.

Desejo ao novo presidente dos EUA boa sorte. Que Deus tenha piedade de todos nós.

Obs.: Obama está se comparando com Lincoln, assim como o Babalorixá de Banânia já se comparou com Gandhi e Getúlio Vargas. Alguém deveria aconselhar Obama a não ir ao teatro, como fez Lincoln... (F. Maier)