MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964

MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964
Avião voa sobre a orla carioca em 31/03/2014, ostentando faixa com os seguintes dizeres: "PARABÉNS MILITARES - 31/MARÇO/64 - GRAÇAS A VOCÊS O BRASIL NÃO É CUBA". Clique na imagem acima para acessar MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964 - uma seleção de artigos sobre o tema.

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

O dilema de Israel


Revista Época

Após duas semanas de operação militar e cerca de 800 mortes, Israel ganhou um problema em Gaza: não quer uma ocupação custosa, não aceita deixar o Hamas no poder e não tem como escolher outros líderes para os palestinos

JULIANO MACHADO. COM REPORTAGEM DE JOSÉ ANTONIO LIMA

O lançamento de 3.484 foguetes contra Israel desde a desocupação da Faixa de Gaza pelas tropas israelenses, em agosto de 2005, parecia prenunciar com clareza uma resposta dura. E a força com que Israel bombardeou seus alvos, adicionada à mobilização de tropas e ao apoio interno que o governo recebeu pela ação, deixava claro que a operação não iria se restringir aos ataques aéreos. O que é muito menos claro – após duas semanas e cerca de 800 mortos, incluindo mais de 250 crianças e adolescentes – é como esse conflito vai acabar.

Existem bons motivos para acreditar que o fim esteja próximo. Primeiro, há relatos de gente do governo israelense de que o ministro da Defesa, o ex-primeiro-ministro Ehud Barak, e a ministra das Relações Exteriores, Tzipi Livni, são favoráveis ao cessar-fogo e à retirada de tropas da Faixa de Gaza. Faltaria apenas convencer o primeiro-ministro, Ehud Olmert. Segundo, a posse do presidente eleito americano, Barack Obama, está próxima (no dia 20), e ele já teria dado a entender que fará pressão para que Israel pare os bombardeios. Em terceiro lugar, Israel já pode considerar cumprido um de seus objetivos, provavelmente o principal: a capacidade militar do Hamas foi seriamente reduzida. Em quarto lugar, as imagens que correm o mundo de civis mortos, especialmente crianças, já provocaram uma onda de protestos mundiais que preocupa Israel. Por mais que se considere justificado em sua decisão de recorrer às armas, nenhum país gosta de ser retratado como opressor.

Infelizmente, há também fortes motivos para crer que o conflito vai perdurar. Primeiro, os dois lados rejeitaram de pronto uma proposta de cessar-fogo que o Conselho de Segurança da ONU aprovou na quinta-feira à noite, levando a crer que não estão interessados em parar a briga. O Hamas, grupo extremista que governa Gaza, afirmou que a resolução “não atende aos interesses do povo palestino”, como se o 1,5 milhão de residentes de Gaza não se importassem de continuar sendo bombardeados. E o governo israelense afirmou que a ofensiva “continuará até que o Exército complete sua missão”, sem dizer que missão é essa. Aí está um segundo motivo para pessimismo: se Israel definir que só considerará sua missão cumprida quando o Hamas for eliminado, é provável que a ocupação se prolongue indefinidamente.

Nesse caso, o governo israelense estará seguindo a receita de transformar uma vitória militar (previsível, dada a diferença de forças) em um novo e imponente obstáculo para a paz. “Há muitos anos o governo de Israel acredita que será capaz de jogar a população palestina contra seus líderes. Jamais conseguiu”, diz o historiador israelense Tom Segev (leia a entrevista completa). Foi por isso que, ante a vitória do Hamas nas eleições municipais de 2006 e a posterior expulsão do grupo rival, Fatah, com quem Israel mantém negociações de paz, o governo israelense optou por reforçar o bloqueio a Gaza, enquanto deixava a economia da Cisjordânia (a outra parte dos territórios palestinos) prosperar, com crescimento de 10% ao ano. A ideia era que, com menos roupas, frutas e até água, os palestinos deixariam de apoiar o Hamas. Só conseguiu aumentar o ódio contra Israel. Fato que os bombardeios, é claro, reforçam, como notou um correspondente do The New York Times em Gaza. Ele citou um palestino de 37 anos, que chorava no enterro da filha de 11 anos: “De agora em diante, sou Hamas. Eu escolho a resistência”.

Resistência é a palavra de ordem do Hamas. Acima de tudo. É um grupo que promove uma programação infantil na TV em que um boneco do Mickey é assassinado por israelenses e substituído por um boneco mais “combativo”. É um grupo que incentiva jovens – recentemente também mulheres e crianças – a vestir coletes de bombas para explodir em localidades israelenses. É um grupo que defende a sharia, a lei islâmica, como o antigo regime taleban do Afeganistão. É um grupo que aproveitou a atual onda de ataques israelenses para matar algo entre 40 e 80 “colaboracionistas”, a maioria membros do Fatah. O paradoxo é que, ao atacar o Hamas, Israel o reforça.

Israel pode não ter definido seus objetivos em Gaza por ter aprendido sua lição de outra incursão, no Líbano, há dois anos. O inimigo era o Hezbollah, um grupo similar ao Hamas, inclusive nos apoios que recebe da Síria e do Irã. Naquela ocasião, Israel afirmou que acabaria com o Hezbollah. Mas a demorada operação militar, com mortes de soldados israelenses, passou a ser menos e menos aceita pela população, e no final a operação teve resultados mistos. O Hezbollah cantou vitória – mas de lá para cá seus meios para atingir Israel diminuíram muito. Tanto que até a semana passada apenas três foguetes saíram do sul do Líbano em direção a Israel, e o Hezbollah negou que tivesse algo a ver com isso.

Ao não expressar claramente quais são seus objetivos, Israel fica livre para defini-los a posteriori, clamando vitória – algo muito importante para o atual gabinete, que se prepara para enfrentar uma eleição em fevereiro. Barak, o ministro da Defesa, do Partido Trabalhista, voltou a ser uma força política considerável no país. Até o fim de 2008, ele era visto como “fraco”, excessivamente propenso a fazer concessões aos palestinos. O atual primeiro-ministro, Ehud Olmert, do Kadima, fazia um fim de governo melancólico, acusado de corrupção. Nestes dias de bombas, ninguém lembra disso. Ambos lutam contra o também ex-primeiro-ministro Binyamin Netanyahu, do Likud, um partido normalmente mais duro no trato com seus vizinhos e com os palestinos.

Nos primeiros dias de bombardeio, as Forças Armadas anunciaram que pretendiam apenas destruir túneis clandestinos que ligavam Gaza a Israel e ao Egito. Os túneis eram usados pelo Hamas para contrabandear armas e realizar ataques contra soldados israelenses, mas também para trazer comida e mercadorias à região bloqueada. Na sequência, o objetivo passou a ser desmantelar toda a estrutura militar do Hamas – a ministra das Relações Exteriores, Tzipi Livni, disse vagamente que era preciso “mudar a equação” da região, não importando o tempo que isso fosse levar. Mais recentemente, Olmert sugeriu um plano mais ambicioso (e improvável): aniquilar o Hamas.

Israel tinha alternativa? Nos primeiros dias de ataque, a maioria dos analistas ocidentais lembrava que a situação das cidades israelenses perto de Gaza era insustentável. Nenhum país aceitaria viver com parte de sua população sob constante ameaça. Em cidades como Sderot, cada prédio tem um bunker e, quando os radares detectam a chegada de foguetes, as pessoas têm de 15 a 45 segundos para se abrigar. É por causa dessas precauções que o número de vítimas israelenses é tão pequeno, em comparação com as baixas palestinas – ou mesmo com as vítimas de balas perdidas no Rio de Janeiro. Mas esse procedimento cobra um preço psicológico alto. As crianças não podem nadar em lagos ou andar de bicicleta, pois estariam a mais de 15 segundos de um abrigo. Muitas desenvolvem síndrome de pânico.

A partir da primeira semana de bombardeio, porém, com o acúmulo de vítimas civis em Gaza, outras vozes começaram a surgir. Primeiro, a estratégia do fogo pesado foi muito criticada pela diplomacia internacional – inclusive pelo Itamaraty – como “uso desproporcional de força”. Considerando apenas o que diz a lei internacional de guerra, nada obriga Israel a calibrar seu arsenal de acordo com o poderio militar do inimigo, muito menor. O emprego intensivo de força poderia até servir para eliminar mais rapidamente as instalações bélicas do Hamas e restringir a duração do sofrimento de civis. Mas, numa área tão densamente povoada como Gaza, os erros não tardaram a aparecer. O bombardeio de uma escola mantida pelas Nações Unidas no campo de refugiados de Jabalia, ao norte de Gaza, matou mais de 40 pessoas, a maioria crianças. Na sexta-feira, a Cruz Vermelha acusou Israel de não permitir sua entrada em uma casa onde havia dezenas de pessoas soterradas, durante quatro dias. O número de mortos ali seria de pelo menos 30.

O consenso, agora, é que Israel tinha o direito de fazer alguma coisa. Mas não qualquer coisa. Nesse ponto, Israel começa a perder outra batalha: a da simpatia mundial. Como diz o judeu americano Richard Falk, relator especial das Nações Unidas para Direitos Humanos nos Territórios Palestinos Ocupados, “o horror do mundo diante desse cenário está criando um conceito de sofrimento palestino como não se via desde o fim do apartheid (o regime de segregação racial) na África do Sul”. Falk foi impedido de ficar em Israel, porque o governo considerou que seu trabalho não era isento. “É inaceitável Israel não reconhecer que há uma crise humanitária lá”.

As passeatas com bandeiras de Israel em chamas pipocaram em várias partes do mundo. Em Paris, jovens muçulmanos da periferia queimaram carros e depredaram lojas. No Brasil, houve atos de apoio aos palestinos, embora mais comportados. Os protestos chegaram até mesmo ao esporte. Durante o Torneio de Auckland, na Austrália, a tenista israelense Shahar Peer foi vaiada e recebeu uma carta pedindo sua saída da competição. Em Ancara, capital turca, os jogadores do time israelense de basquete Bnei Hasharon foram recebidos pela torcida do Turk Telekon a sapatadas (um ato inspirado no jornalista iraquiano que atirou seus sapatos no presidente americano, George W. Bush, durante uma coletiva de imprensa no Iraque). O jogo, válido pela Eurocopa, teve de ser suspenso. Aproveitando-se do momento de desordem no Oriente Médio, a Al Qaeda convocou todos os muçulmanos a “destruir os interesses dos sionistas de todas as formas possíveis”.

Muita gente afirma que a saída de Israel, agora, já é possível. “Eles vão pensar dez vezes antes de lançar um foguete”, diz o pesquisador Gershon Baskin, diretor do Centro de Pesquisa Israelense-Palestino, de Jerusalém. Se é assim, por que a operação não acabou na semana passada? O grande dilema de Israel é saber até que ponto quer atingir o Hamas. Criado em 1987, o movimento não tem apenas uma existência militar e política, mas também um ideal religioso, e isso é algo que não desaparece com bombardeios. “Israel não vai recuar e deixar o Hamas recomeçar. Acho que os militares só sairão de lá quando houver o envio de uma força da Liga Árabe, ou outra força internacional, para garantir que os túneis (na fronteira com o Egito) não se tornem operacionais novamente”, diz Sami Hajjar, especialista em Oriente Médio da Universidade Nacional de Defesa dos Estados Unidos.

É um dilema e tanto: Israel não quer ficar em Gaza, não quer deixar o terreno livre para o Hamas e não pode conduzir o Fatah de volta ao poder (qualquer líder árabe protegido por Israel estaria imediatamente desmoralizado). Por isso, o que pareceu ser a melhor solução de curto prazo pode se revelar um desastre de longo prazo. Como foi, aliás, a solução de curto prazo de incentivar o desenvolvimento de lideranças religiosas palestinas na década de 1980, para se contraporem ao então pior inimigo, o Fatah de Iasser Arafat. Daquelas lideranças nasceu o Hamas, e o Fatah virou um interlocutor possível.

O processo de paz também parece estar à espera do próximo presidente dos Estados Unidos. Em fim de mandato, George W. Bush limitou-se a pedir protocolarmente o cessar-fogo, embora tenha defendido inicialmente a ação israelense contra os atos de terror do Hamas. Obama evita falar sobre que ações pretende adotar na região. Ele afirma que os Estados Unidos têm apenas um presidente de cada vez. Mas já há quem diga até que ele prepara secretamente um passo ousado para a política americana: abrir um canal de negociação com o Hamas. É pouco provável. O mais esperado é uma condenação ao terrorismo de radicais palestinos, com uma posição menos condescendente com a recusa de Israel em negociar temas delicados dos territórios palestinos, como os assentamentos judaicos na Cisjordânia. “Obama tem tudo para ser um mediador de peso entre israelenses e palestinos, mas não pode se iludir com uma solução rápida para Gaza. Até acredito numa trégua, só que pode demorar meses. A ofensiva de Israel só atrapalhou as coisas”, diz Aaron David Miller, que serviu por 25 anos no Departamento de Estado americano em mediações do conflito árabe-israelense.

Há consenso internacional de que só haverá paz no Oriente Médio quando a terra sagrada para judeus e muçulmanos for partilhada. Atualmente, os palestinos têm dois territórios sem unidade política e sitiados por Israel, seja pelo bloqueio econômico (Gaza), seja pela presença de assentamentos judaicos (Cisjordânia). Sem falar de Jerusalém, reivindicada pelos dois lados, que Israel não aceita dividir. Os árabes nunca aceitaram a ideia de compartilhar a Palestina com os israelenses, desde a proposta das Nações Unidas, em 1947. Por outro lado, Israel quase sempre demonstrou intransigência em relação à retirada das colônias na Cisjordânia e à cessão da parte oriental de Jerusalém. Ao longo da história israelense, só no histórico Acordo de Oslo, em 1993, as duas partes estavam dispostas a fazer concessões. Mas a intolerância acabou sobressaindo mais tarde. Obama ou quem quer que se envolva em novas negociações terá de fugir de uma profecia fatalista de David Ben-Gurion, o primeiro governante de Israel. Em 1919, quase 30 anos antes de se tornar um dos fundadores do Estado judaico, ele afirmou: “Nós, como uma nação, queremos esta terra. Os árabes, como uma nação, querem a mesma terra. Nem todo mundo percebe que não há solução para esta questão”. Para haver paz, Israel precisa ter a paciência de construir pontes com seus vizinhos palestinos – em vez de bombardeá-las – e a ousadia de provar que seu patriarca moderno, uma das figuras mitológicas da construção do país, estava errado.


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Como cada país é atingido

JULIANO MACHADO. COM REPORTAGEM DE JOSÉ ANTONIO LIMA

ESTADOS UNIDOS

Maior aliado de Israel, o presidente George W. Bush, em fim de mandato, pouco interferiu no conflito. Israel teria aproveitado o “vácuo” político para atacar antes da posse de Barack Obama, que deve tomar uma posição mais dura em relação aos abusos dos dois lados da guerra

UNIÃO EUROPEIA

A Europa, principalmente a França de Nicolas Sarkozy, convive com grandes fluxos de imigração muçulmana. Apesar das críticas ao Hamas, os europeus também condenaram a morte de civis palestinos

RÚSSIA

Na Guerra Fria, muitos países árabes orbitaram em torno dos russos. Vladimir Putin pediu o fim da ação israelense de “grande envergadura”

1 - ARÁBIA SAUDITA

Governada por sunitas, nunca aceitou Israel, mas também é contra o radicalismo do xiita Hamas. Aliada dos EUA, criticou com cautela os ataques

2 - EGITO

É visto como um mediador crucial. Enfrenta internamente o grupo radical Irmandade Muçulmana, daí seu interesse em ver o vizinho Hamas enfraquecido

3 - IRÃ

É o principal inimigo de Israel e possível alvo de um ataque após a ofensiva em Gaza. Dá treinamento e fornece armas ao Hamas e ao libanês Hezbollah

4 - IRAQUE

O incipiente governo democrático, alinhado aos EUA, tenta afugentar a Al Qaeda. Mesmo sem simpatia a Israel, o Hamas não é bom negócio para os iraquianos

5 - JORDÂNIA

País mais ocidentalizado da região, é, junto com o Egito, o único que tem relações diplomáticas com Israel. Condenou os ataques a Gaza de forma tímida

6 - LÍBANO

O governo deu total apoio aos palestinos, mas teme ataques do grupo radical Hezbollah contra Israel numa época em que o país passa por uma relativa estabilidade

7 - SÍRIA

Um dos maiores aliados do Hamas, o governo sírio chamou a ofensiva de “massacre”, o que dificulta a negociação das Colinas de Golã, anexadas por Israel

8 - TURQUIA

O governo secular, que mantém boa relação com Israel, condenou os ataques, mas em um tom bem menos incisivo que o da população turca nas ruas


A mudança das fronteiras

A comunidade internacional defende a criação de um Estado palestino. O duro é acertar seus limites. Como as fronteiras têm mudado

PARTILHA DA ONU

A ideia das Nações Unidas era levar em conta, na delimitação dos territórios, a distribuição populacional de palestinos e judeus. Embora os palestinos fossem maioria, a região foi repartida em tamanhos quase iguais. Jerusalém e seu entorno deveriam ser internacionalizados

INDEPENDÊNCIA DE ISRAEL

Logo após a independência, Israel entrou em guerra com os vizinhos árabes e conseguiu integrar Jerusalém a seu território, tomando cidades palestinas. O Egito ocupou a Faixa de Gaza, e a Jordânia, que dividiu Jerusalém com Israel, avançou no território conhecido como Cisjordânia

GUERRA DOS SEIS DIAS

Após novo conflito contra os países árabes, Israel expandiu muito seu território: tomou do Egito a Faixa de Gaza e a Península do Sinai; tirou da Jordânia o controle da Cisjordânia e de Jerusalém Oriental; e anexou as Colinas de Golã, ricas em recursos hídricos, que eram da Síria

TERRITÓRIOS PALESTINOS

Em sucessivas negociações, Israel cedeu aos palestinos o controle da Faixa de Gaza e da Cisjordânia, mas neste território há mais de cem assentamentos, onde moram cerca de 300 mil judeus. A Península do Sinai foi devolvida ao Egito, mas as Colinas de Golã continuam sob domínio israelense

Para entender o conflito entre Israel e Hamas

1. Qual a origem do conflito?

Em novembro, o Exército de Israel matou seis palestinos depois de descobrir um túnel em Gaza supostamente usado para sequestrar soldados israelenses. A reação do Hamas, grupo radical que governa o território palestino desde 2006, foi retomar o lançamento de foguetes contra Israel. Era o fim da trégua estabelecida em junho

2. O que diz o Hamas?

O grupo palestino afirma que Israel descumpriu a trégua por não suspender o bloqueio econômico a Gaza, limitando o trânsito da população e a entrada de mantimentos

3. Por que o confronto é restrito a Gaza?

O pequeno território (com área equivalente a um terço do município do Rio de Janeiro) sempre foi o reduto do Hamas, um grupo de origem terrorista que obteve a maioria das cadeiras no Parlamento palestino em 2006, tomando o poder do Fatah, partido político mais moderado. Em 2007, o Hamas expulsou de Gaza o Fatah, que se isolou na Cisjordânia, e radicalizou seu discurso anti-Israel. Mesmo após a trégua de junho, os israelenses sempre mantiveram uma relação tensa com o Hamas

4. Se o Hamas lança foguetes contra Israel há sete anos, por que a ofensiva veio só agora?

A atitude de Israel estaria inserida num contexto político: o país terá eleições em fevereiro, e o partido governista (Kadima), criticado por não responder aos foguetes do Hamas, vinha perdendo nas pesquisas para o Likud, de direita. A ação seria uma demonstração de força. O governo também teria aproveitado o fim do mandato do presidente americano George W. Bush, antigo aliado, antes de uma eventual mudança de posição com Barack Obama

5. A guerra era a única saída para Israel?

O governo israelense sustenta que sim, porque a população estava farta dos foguetes do Hamas e a guerra seria a única forma de detê-los. Os críticos dizem que o país poderia ter tentado amenizar o bloqueio contra Gaza para prolongar a trégua com o Hamas - sem custo humano

6. A resposta de Israel é proporcional aos ataques?

As convenções internacionais não exigem que os países reajam na guerra com a mesma força com que são atingidos. Em geral, a resposta extrapola a agressão e atinge civis. Mas o ataque continuado a um dos pontos de maior concentração urbana do planeta, como Gaza, traz mais vítimas inocentes do que a sensibilidade internacional é capaz de aceitar

7. Quanto tempo vai durar a guerra?

Depende do gabinete israelense e da diplomacia internacional, mais que do campo de batalha. Se o objetivo israelense for esmagar o Hamas, a ocupação deverá se estender. Mas os apelos internacionais por um cessar-fogo deverão crescer. O fiel da balança poderá ser Barack Obama, que tomará posse como presidente dos EUA no dia 20 e já se disse preocupado com a morte excessiva de civis

8. Por que a Palestina é importante para judeus e muçulmanos?

Os judeus acreditam que aquela é a Terra Prometida por Deus a Abraão, para onde Moisés levou as tribos israelitas que libertou da escravidão no Egito. Por volta de 1.000 a.C., Davi fundou ali o reino dos judeus. Para os muçulmanos, Jerusalém é o terceiro local mais sagrado. A Cúpula da Rocha (foto) fica no local de onde Maomé teria ascendido aos céus

9. Quem expulsou os judeus da Palestina?

Perseguida por assírios, babilônios e romanos, a maior parte dos judeus se dispersou pelo mundo. A migração de volta à Palestina foi muito restrita até o século XIX, quando surgiu o movimento sionista, com o ideal de criação de um Estado judeu e o incentivo à fixação de comunidades judaicas na região

10. Como Israel se tornou um Estado?

O Império Otomano controlou a Palestina por séculos, até ruir após a Primeira Guerra Mundial (1914-1918). Coube à Inglaterra administrar a região. Incapazes de sufocar os levantes palestinos e judaicos por maior autonomia, os britânicos devolveram a região em 1947 para o controle da ONU, que propôs a partilha do território em dois Estados: um judaico e um palestino. Mais organizados, os sionistas proclamaram a independência de Israel em 1948

11.Qual é a origem da guerra árabe-israelense?

Os países árabes não aceitaram a partilha da ONU, em 1947, e declararam guerra. Israel venceu e ocupou um território maior que o previsto no plano das Nações Unidas. Os palestinos se concentraram em Gaza e na Cisjordânia ou se exilaram

12. Como está o processo de paz?

Em 1993, o líder da Organização para a Libertação da Palestina (OLP), Iasser Arafat, e o primeiro-ministro israelense, Yithzak Rabin, assinaram em Washington, ao lado do presidente Bill Clinton (foto), o Acordo de Oslo. Os israelenses reconheciam a autoridade palestina, e a OLP abandonava o objetivo de destruir Israel. Os palestinos passariam a administrar a Faixa de Gaza e a Cisjordânia. Os acordos sofreram oposição dos dois lados. O sucessor de Rabin - assassinado por um extremista judeu em 1995 -, Benjamin Netanyahu, discordava dos termos do acordo. A liderança de Arafat, morto em 2004, foi minada pela ascensão de grupos radicais - como o Hamas

Fonte: http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,EMI20999-15254,00-O+DILEMA+DE+ISRAEL.html