MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964

MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964
Avião voa sobre a orla carioca em 31/03/2014, ostentando faixa com os seguintes dizeres: "PARABÉNS MILITARES - 31/MARÇO/64 - GRAÇAS A VOCÊS O BRASIL NÃO É CUBA". Clique na imagem acima para acessar MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964 - uma seleção de artigos sobre o tema.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

O Deus de Obama

O DEUS DE OBAMA

Nivaldo Cordeiro

21 janeiro de 2009

A festa de posse Barack Hussein Obama não poderia ter sido mais grandiosa. Seu desfile pelas ruas de Washington lembrou o de um César em triunfo. Ou melhor, de um Faraó ungido. O fascínio que o novo presidente exerce sobre a multidão só pode ser adequadamente descrito pelo olho mágico da câmara de televisão. Como um novo Faraó, ou César, Obama encarna para a multidão o deus desse mundo, o salvador, o Sóter. Seu discurso de posse refletiu adequadamente essa fotografia. Sua fala caiu fundo nos ouvidos aos quais se destinava.

No primeiro parágrafo foi empregada a palavra humildade, mas o discurso inteiro é uma peça arrogante. O presidente hesita diante das dificuldades dos tempos atuais e das conquistas da América desde seu nascimento. Pudera, em face do franco contraste. O presidente bem lembrou:

“Nossa nação se encontra em guerra contra uma rede de violência e ódio de grande extensão. Nossa economia está gravemente enfraquecida, consequência da cobiça e irresponsabilidade da parte de alguns, mas também de nosso fracasso coletivo em fazer escolhas difíceis e preparar o país para uma nova era. Residências foram perdidas, empregos desapareceram, empresas foram fechadas. Nosso sistema de saúde é oneroso demais, nossas escolas reprovam alunos demais, e cada dia traz mais evidências de que a maneira como consumimos energia fortalece nossos adversários e põe em risco nosso planeta”.

Atentemos, todavia, para o que disse. A nação está em guerra? Sim, mas em uma guerra de agressão, duas pequenas (Iraque e Afeganistão), na verdade, contra países nanicos e incapazes de qualquer defesa. A rigor os EUA não estão em guerra, entrando aqui a palavra mais como hipérbole militar do que propriamente como a descrição de um fato. E tem motivo: todos aqueles, como Obama, que pretendem atingir o coração do povo precisam fazer brotar o patriotismo guerreiro, que tem naquela gente notável ressonância. O potencial de violência incluído aqui é visível.

Atribuir a crise econômica à “cobiça e irresponsabilidade de alguns” é entrar em desacordo com a verdade. Qualquer observador bem informado da história e da economia norte-americanas sabe que a causa da crise é única: o agigantamento do Estado, sua pretensão de eliminar artificialmente a escassez, a exorbitância legislativa que regula de forma desmedida os mercados (mais à frente aprofunda esse visão equívoca, como veremos). Não é a minoria rica (implícita) a culpada pela crise, nem o próprio mercado. Este é na verdade a grande vítima. Obama, como um prometedor de milagres de feira livre, faz diagnóstico errado precisamente para escapar de pôr o dedo na ferida.

Residências foram perdidas, sim, mas pelo único e exclusivo motivo de que compradores temerários assinaram empréstimos impagáveis, almejando viver além das próprias posses. E definitivamente as escolas não reprovam alunos; alunos é que são reprovados por sua insuficiência acadêmica. Mais uma vez a relação de causa e efeito fica aqui completamente invertida. O sistema de saúde é oneroso e o será sempre, enquanto o Estado entender que é o patrono da Saúde. Como qualquer bem que depende do trabalho, os serviços de saúde não deveriam ser objeto de doação pelo Estado, fazendo assim sua demanda tender ao infinito. Como qualquer serviço, deveria ser deixado ao mercado satisfazer as necessidades coletivas.

Não foi surpresa para mim que o discurso de Obama tenha repetido na literalidade o discurso de Lula: “Estamos aqui neste dia porque optamos pela esperança em lugar do medo”. A eloqüência dos populistas nada tem de original, se repete em toda parte.

Contrastando com a fingida humildade do parágrafo inicial, disse Obama: “Ao reafirmar a grandeza de nosso país, compreendemos que a grandeza jamais é dada. Ela precisa ser conquistada. Nossa jornada nunca foi uma jornada de atalhos ou de nos contentarmos com menos”. O inocente pronome coletivo aqui confunde propositadamente a figura do presidente com a história da nação. A inflação de ego salta aos olhos. Prossegue Obama, quase que de forma ingênua: “Continuamos a ser o país mais próspero e poderoso da Terra”. Por quanto tempo mais ainda? Se há uma coisa que percebo é que essa crise vai redistribuir o poder mundial, ampliando o da Europa, da Rússia e da China. A América precisaria voltar a ser aquela que emergiu no alvorecer do século XX para continuar a ser aquilo que Obama gostaria que fosse sob a sua tutela.

E, num crescente, proclamou: “O Estado da economia pede ação, ousada e veloz, e vamos agir – não apenas para gerar novos empregos, mas para deitar novas bases para o crescimento”. É aqui que se descortina na inteireza toda a alienação obâmica, sua figura quixotesca. Esse “vamos agir” significa estatizar mais, emitir mais moeda, regular mais a vida privada. Ou seja, tudo aquilo que contribuiu para gerar a crise e pôr a América de joelhos será repetido e aprofundado. Obama não escondeu suas (más) intenções.

“Há quem questione a escala de nossas ambições – quem sugira que nosso sistema não pode tolerar planos grandiosos demais”. A retórica é fraca, mas serve para lembrar um saboroso diálogo do filme BATMAN – O CAVALEIRO DAS TREVAS. O Pingüim diz ao personagem que o caos acontece quando o plano, ainda que maléfico, não funciona. Se funcionar a multidão fica tranqüila. O que as pessoas não toleram é a incerteza, a falta de previsibilidade. Ora, o patrono desses novos tempos obâmicos é o Pingüim. Planos não funcionarão, a burocracia estatal vai tatear no improviso diário a cada resposta errada da economia de mercado aos planos mirabolantes, aos bailouts grandiosos, aos resgates imorais. O Pingüim agora é o próprio Estado agigantado, o causador do caos.

Para o momento histórico que foi sua posse o discurso está desproporcionalmente fraco, sem grandes vôos retóricos. Destaco aqui um ponto que será talvez o seu apogeu, onde ele desvela o seu Deus: “É chegada a hora de reafirmar nosso espírito duradouro, de escolher nossa história melhor; de levar adiante aquela dádiva preciosa, aquela idéia nobre que vem sendo transmitida de geração em geração: a promessa dada por Deus de que todos são iguais, todos são livres, e todos merecem a oportunidade de lutar por sua medida de felicidade”.

Esse certamente não é o Deus de Abraão. Será o deus de Epicuro. E de Rousseau. O deus dos ateus, se quisermos ser exatos e mordazes com o novo presidente. Muito apropriado para quem se pretende o grão-sacerdote do Estado, o deus de nosso tempo.

NIVALDO CORDEIRO: um espectador engajado