MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964

MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964
Avião voa sobre a orla carioca em 31/03/2014, ostentando faixa com os seguintes dizeres: "PARABÉNS MILITARES - 31/MARÇO/64 - GRAÇAS A VOCÊS O BRASIL NÃO É CUBA". Clique na imagem acima para acessar MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964 - uma seleção de artigos sobre o tema.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

Guerra do Hamastão: As divisões internas do Hamas


Gaza

AS DIVISÕES INTERNAS DO HAMAS

A proposta de cessar-fogo egípcio-francesa para a faixa de Gaza continua na mesa. O Hamas, entretanto, está dividido. Um lado está pedindo uma batalha decisiva, enquanto outros continuam a negociar. E ainda está incerto qual lado prevalecerá.

Wolkhard Windfuhr
Fonte: Spiegel

Na quinta-feira (01/08), no coração da Cidade de Gaza, ocorreu uma cena digna de nota. Na frente de um restaurante fechado, perto do centro cultural vazio, homens mascarados de uniforme distribuíam panfletos de inspiração. "Sem paz com os assassinos de nossos filhos", dizia um. "Resista até a morte, Alá está com você", dizia outro.

Poucos transeuntes, entretanto, pegavam os panfletos. A situação humanitária na faixa de Gaza, que se torna pior a cada dia, não parecia estar levando os palestinos para os braços dos propagandistas fanáticos do Hamas. "Por que vocês estão entregando papel em vez de pão?", perguntou uma mãe com duas filhas, apressando-se.

Há 14 dias, bombas israelenses vêm caindo na faixa de Gaza -mais de 700 palestinos, muitos deles civis, já perderam suas vidas. Os palestinos estão tão cansados desta guerra quanto os israelenses. Se o Hamas pensava que poderia gerar um levante popular, parece ter errado.

Desolação e luto de uma família palestina informada do falecimento de familiares.

Entretanto, cenas como essa, descritas por um morador da faixa de Gaza por telefone, são apenas um elemento de uma realidade que está se tornando cada vez mais clara. E é uma realidade que tem relevância para os esforços internacionais em curso para estabelecer um cessar-fogo no Oriente Médio: o Hamas, atualmente, é incapaz de falar com uma voz única.

O grau de divisão do grupo palestino radical ficou claro durante as negociações de cessar-fogo atualmente ocorrendo no Cairo. Khaled Meshaal, diretor da ala militante do Hamas que mora em Damasco, enviou uma série de membros proeminentes para o Egito na terça-feira para averiguar a possibilidade do Cairo ter um papel de intermediário. A assim chamada "Iniciativa do Cairo", que tinha o objetivo de deter o banho de sangue atual e abordar as raízes do problema, agora cresceu para uma tentativa promissora de colocar um fim rápido à violência.

Ainda assim, mesmo dentro da delegação do Hamas, há opiniões conflitantes quanto ao caminho que o grupo deve seguir nas negociações. Dadas as discordâncias, não é de surpreender que os sinais enviados pelo Hamas na quinta-feira não foram claros.

Muhammad Nasr, nascido em Hebron, há muito é assessor político proeminente de Meshaal e pertence ao politburo do Hamas. Ele conversou várias horas com Omar Suleiman, diretor de inteligência e Egito e potencial sucessor do presidente Hosni Mubarak. A discussão se concentrou nas condições que o Hamas teria que cumprir para que o plano egípcio tivesse sucesso.

Entretanto, o linha dura Nasr recusou-se a ceder. Ele insistiu que o Hamas tem que ter o controle da fronteira da Palestina com o Egito e não pode ser forçado a reconhecer Israel, nem mesmo indiretamente.

Alerta de Israel: Neste sábado a força aérea israelense, lançou milhares de panfletos na cidade de Gaza avisando que intensificará suas operações no território palestino, contra os túneis, os arsenais e os terroristas, diz o texto, escrito em árabe, pedindo aos palestinos que não se aproximem dos terroristas, dos arsenais e das armas.

Com essa posição, entretanto, ele está em contradição direta com os pilares centrais previstos pela Iniciativa do Cairo. Além de um cessar-fogo imediato e da retirada do exército israelense, o Hamas teria que suspender permanentemente o lançamento de foguetes pela fronteira da faixa de Gaza para Israel. Além disso, a responsabilidade por monitorar a fronteira entre a faixa de Gaza e o Egito seria devolvida à Autoridade Palestina, internacionalmente reconhecida como o governo palestino que controla a Cisjordânia. O Hamas e a Autoridade Palestina, chefiada pelo presidente palestino Mahmoud Abbas, têm sido rivais desde que o Hamas assumiu o controle da faixa de Gaza, no verão de 2007.

Até mesmo o item já discutido em detalhe que prevê observadores árabes e europeus ao longo da fronteira da faixa de Gaza se provou difícil para os políticos do Hamas aceitarem. Se tal missão observadora tiver um mandato forte, quase certamente fechará os túneis sob a fronteira -que além de transportarem alimentos e remédios levam armas contrabandeadas.

Outros negociadores do Hamas, entretanto, como Imad Al-Alami, que acompanhou Nasr ao Cairo, provaram-se mais conciliadores. Al-Alami, conhecido como "o filósofo", não rejeitou de cara as propostas egípcias. Em vez disso, ele prometeu que voltaria à mesa de negociação com contra propostas.

A paciência está se esgotando na sede do Hamas em Damasco. Ao mesmo tempo, inúmeros ativistas que vieram da faixa de Gaza para o Cairo há muito se convenceram da necessidade da mediação egípcia. Entretanto, o Hamas ainda não conseguiu criar uma posição única.

Com essa falta de união, a rejeição da quinta-feira do plano de paz liderado pelo Egito pela coalizão de grupos palestinos radicais com base em Damasco -ao qual o Hamas pertence- não é considerada sua palavra final. A rejeição da coalizão provavelmente se deve à pressão exercida pela Síria que, segundo os observadores, não ficou entusiasmada com a decisão dos políticos do Hamas de visitarem o Cairo sem a bênção de Damasco.

Na quinta-feira, era difícil prever qual dos dois lados por fim vencerá. Entretanto, o prolongamento das negociações provavelmente dará força aos moderados. Os radicais, aparentemente, abusaram de sua influência. Está cada vez mais claro para eles que nenhum Estado árabe está disposto a entrar em guerra pela faixa de Gaza -além disso, que nenhum país árabe está disposto a suspender o plano de paz árabe -originalmente concebido em 2002 e aprovado pelos Estados árabes em 2007- que pede o reconhecimento formal de Israel.

Aparentemente, o Hamas não é o único grupo que julgou mal a situação. A rede de televisão patrocinada pela Hezbollah, Al-Manar, com base em Beirute, pediu aos cidadãos desmoralizados da faixa de Gaza que lutassem "até o fim" e não desistissem. Da mesma forma, o canal transmitiu entrevistas com convidados escolhidos advertindo sobre "traidores em nossas fileiras" e ameaçando "árabes partidários de Israel". A resposta pública, contudo, não é o que a estação esperava.

Os radicais também acreditavam que o lançamento de foguetes Katyusha do Sul do Líbano para Israel geraria uma ampla aliança entre sunitas palestinos e xiitas libaneses. Até agora, porém, tal coalizão ainda não ocorreu.

Atrás das cenas, houve algum movimento. Uma série de figuras palestinas antigas começou uma ampla campanha em apoio à Iniciativa do Cairo - um plano que não é diferente do sugerido pelo presidente francês Nicolas Sarkozy.