MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964

MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964
Avião voa sobre a orla carioca em 31/03/2014, ostentando faixa com os seguintes dizeres: "PARABÉNS MILITARES - 31/MARÇO/64 - GRAÇAS A VOCÊS O BRASIL NÃO É CUBA". Clique na imagem acima para acessar MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964 - uma seleção de artigos sobre o tema.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

ECONOMIA POLÍTICA DA CRISE

Nivaldo Cordeiro

10 de janeiro 2009

Encontrei em um sebo um antigo livro de Peter Drucker, A REVOLUÇÃO INVISIVEL, Como o Socialismo Fundo de Pensão Invadiu os Estados Unidos (São Paulo, Editora Pioneira, 1977). O livro foi visionário. Uma leitura atenta do mesmo vai mostrar que Drucker conseguiu fazer a economia política dos fundos de pensão, destrinchando as contradições internas do seu modo de funcionamento. Meu ponto é que não compreenderemos a sociedade norte-americana de hoje sem voltar ao que Drucker escreveu. Toda a crise que estamos vivendo de certo modo está lá antevista.

Parece maluquice, mas dizer que a sociedade norte-americana caminhou decisivamente para uma forma socialista é a expressão da pura verdade. Meus leitores deverão lembrar-se da resenha que fiz do livro do Jonah Goldberg, LIBERAL FASCISM, no qual o autor mostra a evolução das forças políticas nos EUA ao longo do século XX. Goldberg demonstra que a sociedade norte-americana tornou-se essencialmente fascista, dando destaque para Hillary Clinton, que à época da publicação do livro parecia ser a provável vencedora da disputa das prévias do Partido Democrata. Obama ganhou, mas só o conseguiu com o apoio do clã Clinton, ele que está à esquerda da sua adversária nas prévias.

O livro de Drucker vai mostrar que o mesmo movimento em busca socialismo aconteceu na base real da economia, com o chamado socialismo de fundos de pensão. O fenômeno político está perfeitamente refletido na infraestrutura econômica. Podemos ver o tom de alarme de Drucker (escrito em 1975) já no primeiro parágrafo do livro:

“Se o ‘socialismo’ for definido como ‘a propriedade dos meios de produção pelos trabalhadores’ – e essa é não só a definição ortodoxa, como também a única rigorosa – então os Estados Unidos são a primeira nação realmente ‘socialista’. Através de seus fundos de pensão, os empregados das empresas americanas possuem hoje, o que é mais do que suficiente para o controle”.

Números mais recentes dão conta de que os fundos de pensão detêm cerca de 40% do estoque das ações das principais empresas. Seus ativos, no final de 2007, somavam cerca de US$ 6 trilhões (números de 2007), para um PIB estimado em cerca de US$ 15 trilhões, o que mostra o tamanho dessa indústria e o seu poderio econômico.

Essa realidade explica muito da dinâmica política que estamos a ver na administração da crise econômica. A lógica das corporações passou a refletir a lógica dos sindicatos dos trabalhadores e das associações de aposentados. Os interesses cristalizados tornaram-se poderosos. A disposição dos governantes para fazerem bailouts, especialmente aqueles anunciados para a indústria automobilística, só fazem sentido se tivermos essa realidade política em vista. A GM, por exemplo, tem cerca de 100 mil empregados e 400 mil pensionistas. O resgate portanto não é para dar sobrevida à indústria, mas aos aposentados, que têm uma enorme influência política. A lógica dos fins foi substituída pela lógica dos meios.

Drucker mostra que há uma crescente transferência de rendas para os empregados, via fundos de pensão, que chaga a superar o que se paga ao governo, a título de impostos, e aos acionistas como dividendos. Ele sublinha que, quando os empregados tornam-se proprietários de ações, o imposto de renda sobre o lucro das empresas transforma-se em uma espécie de tributação altamente regressiva. O rico capitalista de outrora deu lugar ao pequeno assalariado participante do fundo de investimentos, que é um fundo de pensão.

As corporações agora são administradas por burocratas que, por sua, vez, reportam-se a burocratas do governo. Há um conluio de burocratas cuja lógica suplanta a criatividade e o empreendedorismo necessários para o bom funcionamento da sociedade capitalista. Eis a razão da tolerância da sociedade norte-americana ao crescente intervencionismo governamental e à crescente taxação, fatos ocorridos ao longo de todo século XX. As lideranças necessárias à democracia capitalista, comprometidas com as suas instituições, simplesmente deram lugar a gente que pensa de maneira corporativa, o que quer dizer, fascista. Goldberg está coberto de razão.

Drucker concluiu: “Vimos que o socialismo-fundo-de-pensão e as alterações demográficas subjacentes criarão problemas novos e exigirão novas diretrizes. Irão gerar novas questões e, previsivelmente, tornar irrelevantes muitas das questões mais debatidas da geração passada. Irão alterar fundamentalmente o temperamento, a índole, os valores e o comportamento da sociedades norte-americana, e com ela, da política americana”. Foi profético. Barack Obama eleito é a coroação do ethos corporativista – vale dizer, fascista – na condução política da sociedade.

E mais: “Vimos também que o socialismo-fundo-de-pensão está no processo de criar um novo e genuíno ‘grupo de influência’. E que através dos fundos de pensão, está criando as instituições em torno das quais esse grupo de influência poderá organizar. Tais instituições representam as preocupações, os interesses e as prioridades de um novo centro de gravidade populacional e social: as pessoas idosas aposentadas e os trabalhadores mais velhos (com mais de 50 anso) para os quais as provisões de aposentadorias vão se tornando cada vez mais importante. Será esse novo grupo de influência que acarretará também um realinhamento da política americana?

A resposta é certamente afirmativa. A contradição dessa nova forma de ordem política está expressa com todas as letras. As forças políticas foram mobilizadas para manter o status quo não da produção, mas das massas aposentadas. Há uma verdadeira cultura de rentista espalhada nos EUA e Wall Street entrou nessa onda. A crise é a expressão da ânsia por rendimentos fáceis buscados pelos chamados investidores institucionais. Os resgates são expressão do poder político dessa gente para preservar seus interesses.

Há, todavia, algumas contradições insanáveis. A queda no preço das ações leva a perda do valor patrimonial; a queda da taxa de juros a perda de rendimentos. Assim, os novos “capitalistas” precisam de resgates do Tesouro que, vindo na forma de queda na taxa de juros e na compra de títulos “podres”, deprimem a fonte de rendimento. É questão de tempo que a injeção monetária transforme-se em inflação, que será o momento em que o empobrecimento real dessa massa de rentista acontecerá de forma mais rápida e direta. Resgates governamentias apenas adiam, e por breve momento, o tempo de ajuste.

A maior de todas as contradições é a necessidade de valorizar as ações, mas os dividendos esperados são decrescentes porque paga-se cada vez compromissos com os fundos de pensão. Então a tendência de longo prazo é que o valor dos investimentos caia, os rendimentos de capital decresçam. Essa contradição é insanável. Não há bailout que possa resolver o problema. A taxa atuarial do fundo da GM, por exemplo, prevê rendimento de sua massa de ativos da ordem de 8,5% a.a. Não há como conseguir isso de forma alguma. As contas não fecham. Uma estrutura econômica assim edificada está condenada a uma crise permanente.

NIVALDO CORDEIRO: um espectador engajado